O açougue

NOTA: escrevi este texto por ocasião de uma disciplina de pós-graduação, mas pareceu-me literário e genérico o suficiente para ser postado aqui.

Estava aqui pensando: se uma senhora me pedisse para explicar em poucas palavras o que pesquiso, de forma que ela pudesse compreender, o que diria? Acho que diria algo assim: “tento entender por quê tanta gente vende saúde mental, esse produto estranho que quanto mais se vende maia falta no mercado”. Estava pensando nisso, mas vim falar de outra coisa, vim falar do meu trabalho e do que nele me parece verdadeiro.
Dos muitos tipos de lugares em que se lida com a carne e o sangue, aquele que me concerne é um particularmente complicado.
Antes de mais nada por conta da bagunça que é do ponto de vista institucional: supostamente somos de três empresas diferentes – Psicanálise, Psiquiatria e Psicologia – mas o fato é que recebemos carne dos mesmos fornecedores e trabalhamos com a mesma clientela (salvo um ou outro que por pressa, ignorância ou capricho trabalha sempre com a mesma empresa).
Estamos sob o mesmo teto, mas os funcionarios em geral não conversam entre si, à exceção de algumas panelinhas compostas por gente das três ou de duas das três e que por se falarem entendem que são “interdisciplinares”.
Uma outra complicação de meu trabalho diz respeito à relação com a superfície. Estamos habituados a pensar que o bom açougueiro é aquele que se liga à carne que corta com uma espécie de intimidade terna, e que conhece do seu boi ou porco cada curva, cada músculo, aquele açougueiro que convida a carne a uma dança, o fio deslizando e mostrando do boi ou porco as carnes em sua verdade, em seu desenho, em seus feixes; é bonito de ver.
Pois aqui não. Aqui onde eu trabalho corta-se com tanto engenho e tanta técnica que a faca vira uma marreta nas mãos, o corte é sempre transversal, pega da carne só o que nela erra, chega mesmo a fazer erro onde não existe, cortando a carne fora do desenho dela, toma-se as carnes com a elegância de um elefante em uma loja de cristal.
Os mestres de ofício entendem nosso assombro, e nos reconfortam: “é assim mesmo, entre nós o diálogo é impossível, e a faca corta a carne onde a carne escorrega, porque é em suas falhas que podemos vê-la melhor; como dizia o grande mestre: pelo patológico compreenderemos o normal”. Dizemos por aqui, como que por hábito e chegando ao cúmulo de fazê-lo por arbítrio, que diante de nosso trabalho toda carne adoece, todo osso há de ser cortado, os músculos só se fazem falar quando se partem, a doença da vida é a vida que nos concerne. E assim falamos, e quando penduramos o avental levamos a faca conosco no onibus e no bar e em casa – a faca marreta que é nossos olhos e ouvidos.
Mas eu tive um sonho, um estranho sonho que me trouxe aqui. Sonhei um dia com o açougue, e o açougue era um castelo, e aos poucos via-se com a distância que o açougue era uma imensa faca atravessada à perna de um imenso elefante,e o elefante balançava como podia a perna e as outras pernas e a tromba e as orelhas em busca de uma forma de libertar-se daquela faca que lhe tolhia os movimentos, e ao cabo de algum tempo eu percebia que o elefante que tanta atenção me chamava estava em uma floresta de cristais, todos imensamente delicados e imensamente próximos uns dos outros, e vi então que o elefante com sua faca atravessada sangrava outros elefantes que sangravam em ondas e as ondas singravam as contas das pérolas dos cristais de casa de vó que enchiam as pratelerias daquela estranha floresta onde os elefantes, a despeito do desengonçado da dança de minha faca e da faca que é meu açougue, a despeito desse infeliz e afiado corte cruzado, a despeito de mim ele era feliz.
Então,se aquela senhora não se tivesse convencido com minha primeira resposta e tivesse ficado ao nosso lado a esperar com o Forrest Gump um ônibus qualquer, a ela eu agora me viraria para complementar: “pois é, senhora, queria aquilo, sim, mas também quero aprender com os elefantes a dançar entre os cristais”.

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