10 movimentos para tentar pensar, e uma pirueta no final porque eu não me aguento

1. Anti-pt, anti-corinthians, anti-judeu, nada disso tem o estatuto de posicionamento ativo: são mais propriamente tampões de ressentimento social, que situacionalmente adquirem o papel de cheques em branco.
2. É possível ser anti-pt de forma construtiva, obviamente, mas isso depende da assunção clara de um projeto de oposição e da articulação de postura e projeto – coisa que não me parece acontecer na maior parte das vezes.
3. A respeito, cabe salientar que impeachment é um ato político inscrito na política regular e depende da comprovação jurídica de um ato ilegal – por isso não depende em nada de se fazer ou não um bom governo, como não depende de haver ou não corrupção no governo genericamente.
4. Ao impedimento de Dilma, hoje, segue o governo de Temer, PMDB, com Eduardo Cunha como vice.
Digo isso tudo porque vejo muitos posicionamentos de ódio e oposição primitivos, sem posicionamento político consistente, e que no meu entendimento decorrem de manipulação midiática. Muitos absurdos e abusos que temos visto “bombando no Face” são fruto direto de retórica, trabalhando ou fabricando informações para produzir um sentimento de urgência e inevitabilidade.
5. O fato de se investigar, denunciar e repercutir abusos, infrações e corrupções não significa que elas agora existem e até então não existiam. Se hoje falamos sobre escândalos é porque temos notícia deles, eles foram investigados por gente que pôde fazê-lo e porque há liberdade para que se fale sobre isso. É intelectualmente improcedente que investigações sejam necessariamente fatos (nem tudo que se acusa é verdade), que por se acusar mais haja mais corrupção e, inversamente, que quando não se falava sobre é porque não havia (é perfeitamente possível e provável que muitos dos sistemas de corrupção de que se fala hoje sejam sistêmicos e supra-partidários).
6. Para além disso, acho necessário não capturar a discussão política atual na sedutora grade de leitura dicotômica Pt-Psdb, em que dois gigantes batalham pelo destino da nação representando cada um o claro e o escuro, o dia e a noite, o bem e o mal. Não vejo nada mais simplista, ingênuo e nefasto que isso no debate político atual – basta ver, dd partida, que o PMDB ocupa o segundo e o terceiro cargos no sistema político nacional atual. Independente disso, capturar a política nacional em um filme hollywoodiano de Bom X Mal nos coloca como espectadores e, pior, dá à posição que assumimos, qualquer que seja, o estatuto de verdade óbvia e auto-evidente. Posturas como essa são diagnosticaveis particularmente através de frases como “gente, ninguém mais tá vendo isso?”, “é óbvio que ela/ele quer isso/aquilo” ou “se não acontecer isso/aquilo já era”; a respeito dessas posições cumpre lembrar: nada é óbvio, toda leitura da realidade é construção; a postura intelectualmente mais razoável e humilde parece ser que há manipulação e jogos de interesse funcionando a todo vapor e que por isso nenhum de nós “entendeu de verdade” o que está acontecendo nem sabe a “solução” pra nada; e, mais importante que tudo, não há apocalipse iminente, somos atores de uma longa história (515 anos na versão metropolicentrista) marcada por muita tragédia, muita baixaria e muita manipulação, e no entanto cá estamos, passeando no Face e discutindo política, dicas de beleza e cães abandonados.
7. Muito do clima tenso e raivoso no debate político é consequência de termos hoje gebte que tem muita ficha com medo de perder, e gente que tem muita ficha tem muita ficha porque criou meios de manipular os riscos para ganhar acima do razoável.
8. Crise é, na definição que conheço e cultivo, um momento crucial na história de quem acha que está escrevendo a história. O bordão “nunca antes da história desse país”, mobilizado com sucesso por Lula, é marca maior do desejo de capturar opinião maciça em defesa de uma sensação de urgência. Sinto, no entanto, que esse país carece de urgência e de momentos como nunca antes: o que vejo, infelizmente, é um país que desde que é país (515 anos) extrai pra vender e espolia pra abusar – foi assim com madeira, com animais, com cana, com café, com negros, com água, com petróleo. Quero muito ver raiar um dia que encontre esse país como ele nunca antes foi – justo, grande, corajoso.
9. Tenho medo, sim.
10. Não quero que esse medo me acovarde ou me apequene, e por isso quero pensar e desejar para além do medo, para além da raiva e para além dos interesses necessariamente mesquinhos da minha classe ou categoria. Bem apontam que Lula tinha potências por ser operário como tinha limitações por ser operário; o mesmo me parece válido para seringueiros, burocratas, advogados, médicos, políticos, negros, judeus, brancos, homens, camelos e dromedários: o grande desafio do exercício político é exercer o pensamento em coletivo e para além dos pertencimentos.
Espero que lutemos para que seja diferente, mas para isso não basta replicar palavras que põem nas nossas bocas e jogar tomates que nos põem nas mãos ou que tiram de nossas mãos.
O caminho que quero trilhar é aquele de um pensamento rigoroso, rigorosamente exigente e rigorosamente livre. Não sei fazê-lo, e acho que nunca saberei fazê-lo, porque não seria próprio dele ser dominado; mas luto por ele e defendo-o, porque é através dele que vejo um futuro que me faz sentido.

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