Se numa noite de inverno

 

 

 

"Para o mundo", de Gustavo Valentim

Frio, frio abraço da indiferente noite. Arremessado às vazias circunstâncias da massa inquieta perpasso-me em parnasianos devaneios e aconchegantes calafrios, anacrônico, estranho, alheio. Dissolvo-me no ondear de uma linguagem que, me invadindo, não me pertence, apagado como uma vela encerrada na parafina que a contorna em vida.

Sendo em sido, historiado em marcos avulsos de uma trajetória gratuita, amarrado em alheias marcações de sentido, a marcação fria do concreto sob meus pés garante a continuidade irreparável da gratuidade da caminhada, humana caminhada, desumana caminhada do nada ao nada, do pó ao pó, do tudo ao tudo. Sendo o que somos, somo-nos muito mais quando nos esquecemos dos hábitos e habitações singulares, falíveis e provisórios. Sendo o que sou, sou todos os nomes da história, e nenhum deles. Sendo o que sou a marmota e K. e Nietzsche e o fim do fim dos tempos do fim do homem e das pegadas na areia da história do moderno.

Apegado, apagado em erudições, tão escassas e tão múltiplas, vejo-me afastando do concreto do chão em direção aos faróis-de-mar-aberto, explicações do que não se explica agarrando, circunscrevendo o tempo, e o vento.

Fosse o que sou, sendo o que fui, ser-me-ia mais generoso quando entregue às desventuras do tempo escasso – tempo escasso que insufla as velas só das naus que viajam mais pelo mar que pela terra à vista. Tempo escasso, o avesso do gordo tempo dominante, também esse um filho pródigo dos oráculos do que não se sabe como é. Filhos da noite, filhos do tato para quem a noite é a morada da vida e o pináculo dos sentidos, perdei-vos.

Ao fraco sol e à brisa suave da manhã de um dia frio um homem entrega-se a uma caminhada pelos Alpes. Entregue aos pensamentos, volta para a casa de veraneio enriquecido em algumas proveitosas ideias de investimentos, de propostas, de projetos, de futuros. Proposto a caminhar em direção ao pensamento livre, o homem volta tendo encontrado pelo caminho nada mais que sombras dos futuros a quem deve grandes acontecimentos. Virado do avesso, o homem frio encontra-se consigo mesmo nas caminhadas pelo pensamento de si; tendo-se perdido das próprias sombras ao sabor dos cotidianos desencontros, o homem se afasta de seu espectro em busca das sombras de sua futuridade, guardiãs de seu desejo, seu destino, alimentadas por sua futuridade vendida.

Mora na beleza, pensamento, mora na beleza; mora na linguagem, e na beleza da linguagem, e ao sabor das marés dessa linguagem que sendo em mim não é minha mostra-me um pensamento que não sendo meu ser-me-ia mais fiel à vida. Se tudo que não somos refulge ao encontro do acaso e ao sinal de possibilidade de criação de um porvir possível, seja-me estranho, seja-me infiel, arremessa-me ao infinito e aos desencontros, pois é caído de lá que um dia me arrebento onde as ondas acontecem. Filhos da noite, da noite dos intensos olhares, da noite e das existências múltiplas do que é onde se espera e onde se anuncia e onde se pensa-ver.

Boa noite, seu Arlindo! Frio hoje, não?

Sonho dos tempo partidos, tempo dos sonhos partidos, noite dos sonhos devotos à partida do tempo em nó. Entregues à decantação do virtual em cada-dia-menores máquinas, entregamo-nos ao sabor dos inflexíveis porvires da futuridade em dobra, das sombras estancadas em fogo-fátuo, das frustrações acumuladas em realização e ruína. Filhos da noite, filhos da soturna noite dos destemperos da virtualidade em ruínas, sejamos outros; sejamos outros.

Oi, querida! Voltei, comprei os pãezinhos e o isqueiro. Não tinha Marlboro, comprei Camel, tudo bem? Viu, posso anotar umas coisas que estava pensando aqui?

Acho que não consigo reproduzir, vou postar uma versão mais básica no Facebook… login… senha.

“Pedro NS escreveu: noite fria! Me sinto mais poético hoje! (1 minuto atrás)”

” Pedro NS escreveu: hoje assisto os últimos episódios de HIMYM! Alguém indica outra série? (15 segundos atrás)”

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