O caminho a Teotônia

  Eu havia jurado da última vez que nunca mais voltaria lá. Ela já havia mostrado antes os talentos, assombrosos talentos de que dispunha para me pegar desprevenido, desvendar um canto ainda inexplorado da pouca sensibilidade que eu imagino ter à disposição.

  Jurei que não voltaria e, até recentemente, estive conseguindo cumprir à risca minha disposição. Há alguns meses fui convocado – era importante, inadiável, eu cumpriria um papel crucial, ao menos desta vez era importante que eu mostrasse coração… enfim, toda sorte de retórica pérfida de que dispõem aqueles que se crêem desesperados e saem em busca de um favor indevido. Nada disso me abalou, no entanto – estive firmemente aderido à sobrecarga de trabalho e à gripe de que recém saíra, e eles certamente se arranjaram de outra maneira.

  Uma das coisas que mais me chocou naquela ocasião foi a postura da Dora. Ela estava ao meu lado quando o telefone tocou – estávamos jantando – e escutou toda a minha parte da conversa. Assim que eu desliguei sustentou um breve, desconfortável silêncio, daqueles que deixam claro que ela havia se afastado de mim, como se tivesse visto algo de mim que não conhecia e que lhe causou uma pontada de repulsa (só que uma repulsa basicamente consciente). Espetando os cogumelos com o garfo, e olhando para eles, ela me perguntou “quem era, amor?”, e na entonação da pergunta eu já pude entrever os primeiros quilômetros da estrada por onde nos embrenharíamos a partir dali. A percepção foi tanto mais cansativa (eu sinto que às vezes percepções nos cansam, como a antecipação do caminho cansativo que a partir dali percorremos de forma mecânica e ressentida, já agredidos pelo cansaço como que em um tapa), tanto mais cansativa por me encontrar ainda arrepiado e alvoroçado com os esforços defensivos em que me envolvera ao longo da breve ligação; marcado como estava por aquela urgência, tão certo da necessidade de minha sobrevivência, sentia agora o toque frio daquela pergunta como o olhar recriminador de alguém que me visse em furto de fome, como a corretude de um julgamento justo, mas improcedente.

  Você deve ter estranhado a história da gripe e do excesso de trabalho, não é? Foi assim que comecei o espinhoso trajeto. Lembro até hoje de cada palavra. Era o Alberto, disse-lhe. Parece que minha mãe agrediu um senhor da região e eles estão mobilizados para acalmar o homem sem envolver a polícia; ele acredita que se eu fosse lá as coisas se resolveriam bem. Eu tentava mostrar calma, tentava soar prosaico, como se tivesse ligado o carteiro, a moça da Claro, da Nextel; ela me olhou – não frontalmente, apenas subiu o olhar, dos cogumelos em direção a mim: não sabia que você poderia se esconder atrás de mentiras para fugir de sua mãe.

  Lembro de tudo o mais que se passou a partir de então. Gostaria de poder esquecer, mas não consigo, acho que nunca conseguirei. Quando tiver noventa anos e estiver entregue a um leito hospitalar e receber visitas de sobrinhos ou primos apiedados, imagino que terei esquecido tudo, menos isso. Não saberei mais os nomes dos apiedados, não saberei limpar minha própria bunda nem o que teve na janta da véspera; mas lembrarei de meu desespero, da sensação de injustiça enquanto tentava me proteger do desgosto e do rancor da Dora enquanto eu destruía o amor dela por mim. “Ela é um estorvo, Dora! Se eu for lá pensando poder ajudar com conciliações e explicações, terminarei envolvido em explicações infinitas, ameaçado de trazer minha mãe a tiracolo morar conosco. Você quer isso, Dora? Quer mamãe aqui, fazendo tudo errado, consumindo nosso dinheiro, nosso tempo, nossa saúde? Quer jogar tudo fora, estragar tudo?”. Ouço-me ainda perfeitamente, o tom de voz, o olhar dela; vejo-me ao meu lado, acusando-me e atacando-me como fiz então com a Dora. Ela é um estorvo…

  Quero. Quero jogar tudo fora, estragar tudo. Quero amassar a história e o mundo como se fossem um rascunho abandonado, jogar tudo no lixo.

  Eu lembro de quando vinha para cá logo depois de ter mudado para Ágora; ia vendo a paisagem mudar, as árvores cada vez mais frondosas se aproximando da estrada, e lembrava (não é que lembrava… era uma imagem que me parecia agradável) da Branca de Neve, entrando na floresta onde as árvores queriam pegá-la. Lembro que essa imagem me trazia conforto, até uma certa alegria; eu ficava me divertindo com temas musicais e associações que envolviam a Branca de Neve e a floresta, e a bruxa e a Rainha Má e as ameaças do reino. Lembro, depois, de quando tive de vir às pressas – a primeira vez que vim às pressas – por conta do derrame; lembro que era noite, e chovia, e eu sentia uma angústia terrível. Ao meu lado vinha a tia Amélia, que é uma pentelha de marca maior, e ela não conseguia se controlar e me acossava com assuntos absolutamente desprezíveis, a forma como os vizinhos dela dispensavam o lixo, a suposta identificação dela com os partidos malufistas e seu desprezo preconceituoso pelos partidos esquerdistas. Lembro de olhar para ela absolutamente imerso em raiva, como se a presença dela ao meu lado naquele momento fosse um castigo de mau gosto de Deus por alguma coisa qualquer que eu deveria ter feito. Lembro das árvores, no escuro, na chuva, se aproximando, dos galhos apontando em direção ao carro, e eu, a cem por hora, fugindo, fugindo dos galhos, e da tia Amélia e seu espírito de naftalina, fugindo do derrame de minha mãe e do medo, tenebroso, de que as coisas pudessem não voltar ao normal.

  Lembro que a tia Amélia e os outros intrometidos precisavam de um lugar para dormir, e por isso fiquei no quarto de empregada. Lembro que foi aí que vi que as coisas já não voltariam, nunca mais, ao que haviam sido até então.

  Mamãe não morreu. Não, mamãe: mamãe não morreu – mamãe me matou. Matou sem vestígio, sem lembrança, sem remorso… quem é esse? Não, eu não tenho nenhum filho chamado Roberto, só o Pedrinho – explica a ele, Pedrinho. Ora, senhor Roberto, não levante a voz em minha casa, e veja lá que ainda convalesço.

  Ora, senhor Roberto, ponha-se em seu lugar, o que o senhor esperava? Esperava que sua mãe lembrasse do senhor, senhor Roberto? Ponha-se em seu lugar, senhor Roberto!

  Os galhos, se fechando sobre o carro… os galhos. Os galhos.

  Dora? Aqui é o Roberto, seu ex-marido, ou ex-companheiro, como queira. Liguei porque estou vindo para Teotônia, lembra? Pois é, acabei tendo de voltar. Bom, estou na estrada, e logo mais o celular perde o serviço, e estive na estrada pensando em tudo e quis te ligar. De alguma forma é um ciclo que se fecha, não é? Nos separamos muito por conta disso, não é?, e bom, cá estou eu de volta.

  …

  Minha mãe morreu, Dora. Eu lembro que tinha te dito quando nos separamos que ela tinha destruído minha vida, que eu não perderia mais nada, que ela tinha roubado você e todo o sentido da minha vida, passo a passo; lembro que te disse que agora eu estava tão perdido no mundo quanto ela, ela sem bom senso, sem propósito, e eu sem mãe e sem a mulher que amava; lembro de na época ter sentido isso tudo como a mais profunda verdade, Dora. Lembro de toda a dor, lembro de toda a raiva.

  Lembro de nós, Dora; como eu lembro! Queria esquecer, como ela me esqueceu. Queria esquecer…

  Queria que ela tivesse lembrado de mim.

  …

  Oi, Dora, eu de novo. Desculpa, ocupei todo o espaço da caixa naquele recado. Bom, desculpe, não sei com quem conversar. Desculpe, preciso desligar, acabei chorando um pouco e não estou conseguindo enxergar bem a estrada. Imagina se eu me acidento e perco a memória? Seria irônico, não?

  Bom, estarei em Teotônia, se quiser ligue na casa da mamãe – digo… bom, é isso. Desculpa, Dora! Beijo!

  Ha! Agora eu minto para a secretária eletrônica da Dora, também, o carro parado no acostamento e eu falando de não enxergar a estrada… devo estar louco, mesmo. Louco.

  Oi… Júnior? Aqui é Roberto. Ligo para avisar que não compareço à reunião de amanhã, porque estou envolvido com os trâmites do enterro de uma parente minha que faleceu; estou ajudando a família com a papelada e todos esses trabalhos. Espero que compreenda. Ligo amanhã para saber dos andamentos. Um abraço!

  É, mãe… e eu que achei que você não tinha mais como me machucar. Eu que pensei que você tinha morrido para mim, morrido para sempre. Por que você esqueceu, mãe?

 Por que eu não esqueço?

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