Lobos tranquilos

 Ela estava na cozinha. Por cima da bancada eu acompanhava seus movimentos para cá e para lá, envolvida com o cotidiano e só com ele – é claro que havia as louças e as roupas e as comidas e tudo, mas o fato era o cotidiano, era o cotidiano que ela vivia e era isso que ela fazia no momento. Eu, escondido atrás do notebook, contemplava a tranquilidade que ela irradiava, a tranquilidade de ser quem se é. Grande, imensa conquista poder ser quem se é; ela, suave navegante do tempo e seus percalços, era quem era, justo quem era.

  Abaixei o olhar rapidamente para a tela do notebook, atraído pelas impacientes luzes da virtualidade: era alguém, mais alguém. Quem era? Eu não lembro, não lembro mais. Instalei ali um dispositivo tecnológico qualquer que me permitiria não ter o direito de esquecer aquilo, e fechei o notebook, fechei a luz que me ofuscava. Aconteceu alguma coisa?, ela perguntou. Não, tudo bem, estava só pensando.

  Por algum motivo lembrei-me, então, de meu avô. Não exatamente dele – lembrei-me de mim mesmo quando recebi a notícia de sua morte. Minha mãe tinha recebido a ligação – justo ela; estivera jogada na cadeira ao lado do telefone, ao menos pelos dois ou três minutos em que tolerei estar em casa acompanhado da notícia. Sem dizer nada eu saí e fui andar. Não estava exatamente emocionado – como eu queria estar emocionado! – estava embargado; embaralhado; travado. Mantinha o diafragma travado, como se tentasse provocar uma angústia que eu precisava sentir com o corpo mas não sentia; procurava, ativamente procurava cenas felizes que tinha passado com ele, procurava cenas tristes e profundas que tinha visto em filmes. Fixava minha atenção na tristeza “conforme” Mel Gibson ou Edward Norton (eu adorava Edward Norton) como se fosse encontrar na tristeza deles a chave para a minha tristeza.

  Eu queria ficar triste, queria estar triste por inteiro. Queria um pranto convulsivo, queria ser possuído pela tristeza da ausência do meu avô, queria que a perda fosse viva o suficiente para que eu pudesse perdê-lo em mim (o que seria já uma certa presença desfalecida).

  Encostei-me em uma quina de concreto que se oferecia em um encontro fortuito de muros residenciais, suficientemente à vista. Lembrei das crianças tristes em suas representações mais típicas e tentei me inspirar nelas – juntei os joelhos e abracei-os com os braços, forcei minha cabeça contra os joelhos, forcei os olhos em busca das lágrimas. Nada acontecia. Eu precisava chorar, era uma questão de honra – não exatamente honra, mas de corretude e graça, era preciso que eu chegasse em casa embargado, com o rosto molhado e os olhos inchados, era esse meu papel.

  Amargurava o fracasso, desconsolado. Meu avô se fora sem sinal de partida, sumira como se meu corpo e minha alma tivessem esquecido dele. Eu me esforçava, martelava imagens importantes, elogiava ele e sua presença, imaginava-o partindo em solidão, imaginava-o partindo ao encontro de sua esposa, imaginava-o contemplando a nós das alturas, imaginava-o julgando minha indiferença com o olhar entristecido.

  Reparei que ela ainda me olhava, como se estivesse à espera de uma resposta. Na verdade não esperava uma resposta, mas olhava para mim com um olhar interrogativo e contemplativo, como quem se admira com uma curiosidade esquisita que encontra pelo caminho.

  Eu pude perceber naquele segundo meus pensamentos em busca da coisa certa para dizer. Pude perceber-me avançar e recuar em milésimos de segundos por coisas que eu poderia dizer, e quando pensava nas coisas que diria já pensava ao mesmo tempo no clima que essas coisas instaurariam, e pensava no tipo de pessoa que eu estaria sendo se dissesse efetivamente aquilo que estava prestes a dizer.

  – A gente passou por muita coisa, não é?

  – Com certeza. Mas por que você pensou nisso?

  – Não sei. Estava pensando, na verdade, no quanto eu penso quando vou pensar em dizer alguma coisa. Estava pensando que eu penso demais – não como de alguém inteligente se pode dizer que “pensa demais”, mas como alguém que precisaria pensar menos para poder ser mais, ou para poder ser.

  – E o que isso tem a ver com o tanto por que passamos?

  Ela é incrível. Ela tem um jeito incrível. Eu poderia perfeitamente ter passado por esses pensamentos sozinhos, e se tivesse eu certamente teria me encantando com meus próprios pensamentos quanto ao pensar e ao viver, e teria criado uma teoria em cima disso, mas ela lembra – e como é bom lembrar! – que isso não tem a ver conosco.

  – É que eu não sei sentir.

  O olhar dela se anuviou, o rosto pendeu levemente para um lado (como os cachorros fazem; acho esse um dos gestos mais expressivos que alguém pode fazer). Acho que nesse momento escorreguei.

  – Como assim?

  – Não sei; eu… não sei, acho.

  Eu tinha ficado nervoso. Segurava o óculos com as duas mãos, e balançava desajeitadamente as hastes para cá e para lá em uma certa disritmia. Sentia a respiração estranha.

  Ela tinha desenhado um leve sorriso, não chegava a mostrar os dentes – mantinha ainda esse interesse, esse encontro quase animal comigo, comigo enquanto homem. Conforme eu me destrambelhava ela se encostou levemente na bancada, do lado de lá da cozinha americana; me olhava como aquelas garçonetes de bar que aparecem nos filmes, por quem os homens se tipo-apaixonam e que acabam sendo as grandes amigas e sábias conselheiras dos heróis em apuros.

  Mas ela não jogou o pano de prato sobre o ombro, nem me incitou a salvar a donzela; manteve aquele olhar-animal cativo, cativo por escolha – cativo por apaixonamento.

  – Eu acho que eu sinto, mas eu não sei sentir. Se eu soubesse sentir eu sentiria inteiro, e eu choraria como a chuva chora o mundo, e eu sorriria como os girassóis sorriem o dia, e eu seria o meu corpo no encontro do mundo com o tempo no momento em que o vento bate nas asas da abelha no campo… e eu seria verdadeiro a ponto de te dizer que te amo e que tenho medo, e não estaria aqui me perdendo em baboseiras!

  Eu estava ofegante. Ofegante e irritado. Irritado com quê? Com quem?

  Ela me olhava, ainda. Apertava ligeiramente os olhos, coçando a lateral da cabeça. Eu me esforçava ainda, não sei bem para que: você sabia… sabia que… eu… eu não consegui chorar quando meu avô morreu?

  – Você está com medo, não é?

  Seu rosto mais uma vez se iluminou, o sorriso se abriu: ela tinha entendido. Procurando, e esperando, e espreitando, ela mais uma vez tinha encontrado, e estávamos mais uma vez presentes no encontro. Ela era o lobo tranquilo, a abelha, e o girassol, e eu… eu era a criança assustada.

  – Eu sou uma criança, não é? Eu sou ridículo!

  Eu quase-chorava, agora. Na verdade eu chorava, chorava muito – mas não era meu corpo que chorava. Eu era o menino sem corpo, o bunker abandonado, a luz autômata. Ela já estava a meu lado, sentada na cadeira puxada de improviso e às pressas, os braços me amparando; eu, com as mãos no rosto, respirava profunda e irregularmente como se saído de um lago congelado.

  A cena durou uns dois, três minutos. Por que eu sei? Não sei. Não deveria saber, mas sei. Ao longo de todo o tempo ela não disse quase nada – chegou a tentar um “está tudo bem” maternal que talvez até tenha me ajudado, mas me humilhou um pouco e eu o repudiei, de mim para mim.

  Aos poucos comecei a olhar para ela com os cantos dos olhos, o rosto ainda baixo; ela me olhava, cautelosa, preocupada, e sorria.

  Aos poucos eu me recompus. Disse algumas coisas, e aos poucos fui dizendo mais e mais coisas. Em algum momento nos abraçamos e ela disse que me amava muito. Sugeri que fôssemos pendurar juntos as roupas no varal, e lá fomos felizes sem pensar em muito; o tempo está bom, o pregador estoura de uma forma engraçada – com a mola voando e as madeiras dos dois lados pulando caprichosas para o alto. A amoreira estava crescendo, e ia ser ótimo se ela desse frutos logo e os pássaros viessem comer amoras e fizessem cocô roxo na calçada e nos carros.

  – Você é uma pessoa iluminada.

  Ela disse isso segurando uma fronha com as duas mãos, na ponta dos pés, me olhando tão profundamente.

  Era mágico; melhor: era impensável. Era natural.

  – Eu sei. E eu te agradeço…

  Pausa cênica, estranhamento. E no timing perfeito:

  – Você é a luz.

  Ela achou lindo. De novo nos abraçamos, e de novo nos dissemos que nos amávamos.

  E eu, de novo, tinha perdido. De lá do fundo o menino contemplava o autômato e suas prodigiosas piruetas; lá fora era o dia, e as ondas, e o sol, e o céu, e os pássaros e as abelhas, e o lobo tranquilo, enquanto lá dentro o menino arranhava os blocos de frio concreto.

*

  Apesar do movimento Mel Gibson deplorável e apesar da traição do menino, tudo manteve-se relativamente bem. Havíamos comprado recentemente uma cadeira de madeira, bem robusta e espaçosa, dessas com cara de varanda, com cara de contemplação e outono; fizemos café e nos sentamos juntos. Lobo, nosso cachorro, nos fez companhia e brincou conosco. Estivemos juntos, verdadeiramente juntos, e falamos sobre nossos futuros e sobre o futuro enquanto incógnita.

  Em algum lugar em mim a máquina girava, construindo e prevendo e repassando e planejando e maquinando. Em algum lugar em mim a ordem impunha suas ordenações e buscava o resgate metódico e poético e simbólico e literário, a retomada ascendente do plot em que reassumiríamos minha crise e em que eu emergiria intelectual, magnânimo, granito e mármore. Em algum lugar eu planejava a reposição das coisas em seus lugares. Em algum lugar eu tinha vergonha.

  – Fiquei com um pouco de vergonha do chilique que tive mais cedo…

  – Não me pareceu um chilique.

  – É, acho que não foi.

  Em algum lugar a máquina gira; mas não hoje. Não agora.

  Em algum lugar o centro acossa, as paredes crescem, e o menino-sem-corpo não tem corpo. Mas não hoje: hoje são os lobos tranquilos.

  Por cima dos braços das cadeiras robustas de madeira com cara de dias frescos de outonos, ao som dos pássaros que não vieram e não estão, ao sabor do vento do outono que não sei se é, a salvo dos sóis e dos girassóis; por cima dos braços das cadeiras damo-nos as mãos e os animais contentes que somos nós sorrimos.

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