Na esquina da Borges com a Foucault, uma biblioteca

  Estava há muito tempo sem visitar meus livros de/sobre Nietzsche quando recebi o convite para escrever um prefácio para um amigo que escrevera um livro sobre o tema. Não poderia recusar o convite, e a oportunidade de reler e, principalmente, escrever a respeito até me animavam um pouco. Por isso, naquela terça-feira – nunca trabalhava às segundas – resolvi começar o dia revisitando as olvidadas prateleiras, mexer nos livros, folheá-los, retomar a intimidade há muito perdida.

  Irritei-me ao sentir, ainda mais uma vez!, a intromissão indesejada e não permitida da faxineira – alguns livros invertidos, os posicionamentos quase randômicos, a ordem alterada. Um suspiro incomodado expressou o mínimo necessário para que eu pudesse me ocupar dos livros, efetivamente.

  A primeira notícia que tive foi o estranhamento; não sabia discriminar o quê, mas algo estava fora de lugar. Imaginei, como seria razoável, que estava ainda impactado pela intromissão de mãos selvagens em minha biblioteca, e que em breve passaria.

  Dispunha novamente os livros do próprio Nietzsche em ordem cronológica, como eles deveriam estar desde sempre. Foi só aí que o vi: displicentemente enfiado entre Ecce Homo e Gaia Ciência (!) o volume “Papéis excedentes de Friedrich Nietzsche – 1879-1890”, cuja a organização era curiosamente creditada a Laure Adler. A capa dura era verde, com ornamentos dourados, e o calibre do livro era médio, não mais que 400 páginas certamente. Parecia o tipo de livro com circulação e número de cópias bastante restrito.

  O livro intrigou-me sobremaneira. Não me lembrava em absoluto de havê-lo comprado nem adquirido de qualquer maneira (o que não me é habitual). Contemplava-o dos dois lados em busca de algum detalhe ou elemento que me desse a pista sobre a origem de tão curioso volume, sem sucesso.

  Na primeira página, já amarelada pelo tempo, uma dedicatória: “Caro Jorge, com a admiração de um parceiro na bibliofilia do impossível, Nelson Bond” – sem data, sem notação de cidade (meus colegas às vezes demonstravam a rusticidade de um neandertal). Algo certamente estava errado: não lembrava sequer de haver conhecido Nelson Bond pessoalmente, quem dirá receber um livro de presente!

  O mistério já assumia proporções vertiginosas. Deixando o livro no frontão da estante fui ao arquivo procurar alguma anotação sobre a aquisição de tão curioso volume; procurei como pude a partir dos poucos elementos que tinha à disposição, tema, autora, idioma – nada.

  Voltei ao livro. O índice se apresentava dividido em períodos – de 1879 a 1882, de 1883 a 1886, de 1886 a 1890, subdivididos por sua vez por temas – recibos e canhotos, endereços, anotações.

  A primeira anotação do primeiro período era um recibo de tinturaria; a este seguia-se um comentário da organizadora, onde se demonstrava a importância do recibo em vista das necessidades de esclarecimento acerca da relação de Nietzsche com o judaísmo, relações que recebiam nova luz em vista dos itens descritos no recibo; “supor-se-ia”, arrisca-se a autora, “que a posse do recibo é evidência suficiente em favor da presunção de que o vestuário era do próprio Friedrich”. Em meio ao comentário, que só de sobrevôo li, a autora tecia um longo comentário em torno do paletó que Nietzsche deixara no tintureiro na ocasião e as relações deste com o casaco de Marx, e as comunicações minuciosas que se poderia derivar entre essas vestes e as obras erigidas pelos que as vestiam.

  Tratava-se de um trabalho inacreditável, certamente. A autora desfilava comprovantes de compras em cafés e bazares, prescrições médicas, pequenos recados domésticos, listas de compras – resíduos, pegadas, marcações cotidianas da vida do homem; a cada um desses elementos a autora interpolava uma longa consideração em que trazia ainda citações de outros rastros igualmente cotidianos e comezinhos. Ao longo do processo se assistia a uma complexa e tensa amarração entre os livros escritos, as correspondências, as relações estabelecidas com os outros pensadores da época, e mesmo de outras épocas; deti-me aleatoriamente na passagem em que a autora marcava a partir de um recibo de parafina e graxa para botas a delicada linha que atravessaria a história do pensamento europeu até chegar no “Meu corpo, este papel, este fogo” de Foucault. Isso tudo eu vi num rápido correr de olhos; tentar fantasiar o que poderia haver no livro em uma leitura cautelosa fez-me tremer – a história da filosofia, a história da vida! A história da vida?

  Um livro inacreditável; um livro impossível.

 Senti meu coração palpitar (ainda hoje o lembro com alguma inquietação) quando pensei no impacto de uma resenha de obra desta ordem. A consagração definitiva!

  Rapidamente, no entanto, dei-me conta dos riscos; uma resenha despertaria em todos a suspeita de meu enlouquecimento: “esse livro não existe, é um desvario!”, dirão. Os boatos de descrédito superarão em muito a minha possibilidade de conciliação – a derrocada seria inevitável e terrível.

  Só o que me resta – pensei então – é uma apresentação do livro, não uma resenha: um relato, a anatomia do livro, contando em minúcias sua estrutura, a fundamentação do método, as escolhas estilísticas e o ritmo da escrita, as escolhas da autora.

  Mas como o faria? Tratava-se de um livro absolutamente à parte da história da escrita ocidental, alheio e acima dos cânones da heurística. Sua estrutura é a estrutura de tudo que é e foi Nietzsche, o método é o relato em palavras de uma vida e da vida de um pensamento, em suma: o livro não é um livro, é um mundo!

  Sem que tivesse me dado conta, todo esse processo de ilusões e desilusões me haviam levado de volta à escrivaninha; dei por mim com o rosto apoiado na mão, apoiada na escrivaninha atulhada de livros, ela mesma meu apoio um tanto distante – mas firme o suficiente – com o chão. O livro é um mundo… a expressão persistia nítida e firme diante de mim, como uma venda a me cegar, macia.

  Como uma venda a me cegar… ou como uma venda a me impor o emplastro incômodo; o livro é um mundo… o livro é um sonho… o livro…

  Levantei-me e fui à estante; onde estaria o livro? Ecce Homo e Gaia Ciência não estavam mais erradamente colados; entre eles, ao invés do surreal volume, encontravam-se os livros que ali deveriam estar – Assim Falou Zaratustra, Além do Bem e do Mal e por aí vai. Sobre o frontão da estante jazia um volume encadernado, a capa transparente, por baixo dela o papelzinho com o recado: “Caro Jorge, espero que a escrita do prefácio lhe traga tanta alegria quanto a escrita do livro me trouxe. O editor pediu que mandássemos o manuscrito até março, mas creio que tolerará em silêncio até maio. Desde já imensamente grato, Pedro”.

  Devo ter segurado o volume em mãos, de pé diante da estante, por alguns minutos, ou segundos, ou horas, não sei. Sei que me perdi, e me encontrei; cuidadosamente retirei o papelzinho do volume, levei-o à escrivaninha e inseri-o numa pasta, que etiquetei “Papéis excedentes de Jorge Luís Borges”.

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