Exílio Mudo

O sol nasce – ou tenta.

Nuvem, neblina, fumaça, cortina, algo se põe entre o mundo e ele mesmo; do alto do prédio, de dentro do concreto, mas através da janela, nada se vê além do palmo diante do nariz que me cabe. Desse palmo, posso ver meu apartamento, meu umbigo – do ventre para cá, o que mudou, será?

Nas ruas a situação é diferente. Afinal, de alguma forma toda essa bolha cinza tão nítida do meu apartamento já não é mais tão visível aqui em baixo. Entre minha pele e as demais, no entanto – se eu me preocupar o suficiente para perceber – tudo aquilo ainda está aí. Todo aquele cinza; meu cinza.

    Cidade seca. Os pulmões de todos os habitantes já denunciam o que os olhos ainda por vezes se recusam a ver. Os ânimos dos habitantes, por sua vez, só não denunciam nada pelo simples fato de que qualquer possibilidade de ser diferente já foi apagada e sufocada. Cinza. De fato, os próprios olhos que não vêem têm motivos de sobra para isso – são poucos os que ainda têm a sorte de vir de algum lugar menos cinza e sentir seus olhos embaçarem, as últimas lágrimas caírem em busca da restituição de algo que já não se pode achar mais. Há cores aí fora?

            Talvez seja só eu. Será? As outras faces no metrô não dizem nada, absolutamente nada, eu devo estar projetando loucuras minhas sobre um mundo que não sente absolutamente nada disso. Seria até divertido, e, no fundo, é exatamente disso que se trata.

            Ah, cidade cinza! Tanta gente diferente ocupa tuas ruas; tantos lugares há a serem visitados por entre tuas curvas, tanta cultura, tanto teatro, tanta loucura, tantas cenas, tantos ternos, penas de pombas, pelos de rato, gente que dorme na rua que não dorme nunca, tanto espaço que povoaria tanta coisa; tanto se diz de suas multiplicidades, suas múltiplas faces, seus múltiplos ânus, seus múltiplos retos. E no entanto, será possível?, no entanto, tudo isso é sempre tão igual a tudo o que foi antes, e tão diferente de tudo o que se sufoca para que esse “não-ser” cinza possa se tingir de “é”.

            Te espero na esquina, cidade cinza. Te espero lá, e te espero com capangas, com machados, com armas, com sangue nas veias, sangue nos olhos, os olhos sempre fixos nos olhos seus. Em cada esquina sua te espero, e para sempre te miro, te vejo e te pego, e te denuncio a ti mesma para que te vejas, te pegues sempre indiferente a si. Me olha nos olhos, cidade, cinza dos meus olhos! Te denuncio a mim, teu habitante, eu que te percorro a cada dia, eu que me sento nos bancos do metrô e vejo o cinza desse mundo todo cinza, eu – eu! – que vejo tudo isso que acontece contigo, tão fora de mim.

            Será, cidade cinza, cidade cinzas, cidades de cidades de cinzas de gente engolida – será que um dia eu me denuncio a ti, e visto teu cinza em matrimônio, e te habito fundo em mim? Será, cidade minha, que por entre tantas ruas e tantos becos e tantas lutas tropecei em algum bueiro, encostei em algum rato, algum pêlo, algum dejeto de algum dejeto teu e me infectei de ti? Será, cidade em mim, que eu me infestei de tudo que via em ti? O que eu faço comigo pra em fazer sentir, pra te tirar daqui, pra me fazer ouvir e te fazer calar, pra te trazer pra vida e me levar pra outro lugar?

            A cidade se espalha por todos os espaços, tal qual uma praga pelos campos, engolindo rios, prados, florestas, planaltos e depressões; indiferente ao que consome, a cidade só faz crescer e crescer. De tudo o que antes havia, restam cinzas. A cidade queima – em mim e em ti, a mim e a ti.

 

Dá-me a mão, pois nada vejo, e faz-se mister caminhar, para sempre e em direção ao nunca. Dá-me a mão, pois nada vejo. Dá-me a mão, mas não me dá caminhos, pois que só nos resta errar para que se alumiem as possibilidades que a escuridão nos traz. Só nos resta errar, para que se desfaçam as retas e se refaçam os diagramas e os mapas e os contornos que um dia já houveram. Tira-me da rua para que, debaixo de uma mesa de jantar encontre um novo rio nascido de um antigo rio enterrado. Dá-me a mão e leva-me, ao inferno, e ao céu. De resto, só nos resta errar.

 W – 10 de maio de 2007

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