Os tempos e os modos da violência à brasileira

Estou até as tampas com suas teorias,

seus poemas e partidos revolucionários.

Por aqui a palavra Direito não se fez por inteiro.

Vagner Souza, “Sofrimento de Fátima”

 

Certa vez discutia com Vagner Souza, um educador, poeta e amigo, sobre a violência de Estado no Brasil e sobre o impacto dos acontecimentos políticos recentes nesse sentido; dizia a ele que sentia que a eleição de políticos que elogiavam e defendiam a violência policial provavelmente estimularia essa forma de violência, já que representa, ao menos do ponto de vista simbólico e retórico, uma chancela. Vagner então me contou uma história: durante a adolescência decidiu perguntar a seu pai sobre como tinha sido a vida no período da ditadura e seu pai, sem pestanejar, respondeu que não tinha mudado muita coisa, tinha sido “basicamente igual”. Por muito tempo ele tomou aquilo como uma resposta alienada e decepcionante, indício de que o pai era conformista, alienado ou colaboracionista; mas eventualmente, e justamente em função da ascensão do autoritarismo no Brasil recente, ele entendeu algo que o pai provavelmente tinha em vista já naquela época: na Brasilândia (como nas periferias em geral), o regime ditatorial não afetou tão significativamente o cotidiano – lá nunca houve “Estado democrático de direito” a ser suspendido pelo governo militar, as perdas de liberdade civil já estavam postas, digamos, desde o berço. Quando o pai dizia que não tinha mudado muita coisa, então, não queria dizer que não se importava ou que achava o acontecimento (o golpe militar) desimportante, mas sim que para a vida na Brasilândia as perdas de direitos civis e a ascensão da violência e da coação como modo de governo não mudavam muita coisa em relação ao que já se vivia cotidianamente por lá.

Tive essa conversa com Vagner alguns meses atrás. Mais recentemente encontrei uma colocação provocativa na internet ecoando a mesma lógica e a sintetizando, que dizia (basicamente): “ditadura é quando a classe média passa a sofrer com aquilo que os pobres passam o tempo todo”. Quero crer que as coisas são um pouco mais complexas do que isso; ou seja: quero crer que isso é verdade, mas não “resolve” a questão. Quero crer que haja mais elementos em jogo, e que a composição de uma análise abrangente precisaria recorrer a mais elementos para compreender como se passam esses processos. De qualquer forma, retomo aqui esse panorama para puxar um fio que o atravessa, aparentemente menor e menos urgente, mas que acho que pode nos ajudar a pensar a atual situação do Brasil. Quero pensar no problema das violências declarada e implícita, e nos regimes de temporalidade que mediam sua eclosão e silenciamento.

Retomando a narrativa do encontro de Vagner com seu pai, por exemplo: há um elemento importante em jogo ali, que é a compreensão que Vagner pôde fazer daquilo que seu pai disse apenas anos depois, um bom tempo depois. Nesse meio tempo Vagner leu, trabalhou, fez samba e amor, cresceu e adultesceu, tudo isso; mas além disso Vagner, como todo brasileiro, deparou-se com o retorno de uma forma de autoritarismo que grassou na ditadura, e se viu, por assim dizer, arremessado de volta à história do pai. Ele, assim como todos habitantes da Brasilândia e das demais periferias, tem que lidar com a hostilidade explícita da parte dos governantes e dos agentes da lei em relação a eles; tem que lidar com a violência de ser considerado suspeito, estar sujeito a questionamentos, correndo risco de ser enquadrado e detido, correndo risco de ser acusado e de ter provas contra si plantadas pelos próprios policiais, correndo risco de ser morto. O tempo todo.

Só que nada disso é novidade para Vagner, ou para os demais habitantes da Brasilândia; nada disso nasce com João Dória ou com Bolsonaro. Isso estava aí com Fernando Henrique, com Lula, com Dilma e com Temer, e ele vive com a percepção de que estará aí com Bolsonaro e com quem quer que venha depois, seja de direita ou de esquerda. O Brasil indo bem ou mal, crescendo ou em recessão, seja como for que o Brasil esteja ele segue tendo os olhares, os dedos e as armas apontadas para (contra) ele.

Corta pra outra cena na mesma lógica: um sujeito de classe média morando na Vila Mariana é parado tantas vezes por policiais que decide andar sempre com a nota fiscal da bicicleta que usa para se locomover na mochila, como prova de que a bicicleta é dele, e não roubada. Quem adivinha qual a cor da pele deste sujeito?

Corta.

Apenas uma vez em tempos recentes senti um medo que me tenha permitido intuir, em um relance, a magnitude e a intensidade do sofrimento em jogo aqui. No período entre o primeiro e o segundo turnos escrevi algo no Facebook que despertou as hordas de bots bolsonaristas: minha postagem recebeu dezenas de comentários críticos, cínicos, agressivos, alguns ameaçadores. Naquele mesmo dia, quando voltava do trabalho tomei um susto enorme, absolutamente aterrorizador, quando um carro que passava próximo a mim emitiu um estouro – um estouro vindo do escapamento. Convivi alguns minutos com o coração disparado, o pensamento acelerado e as mãos transpirando, mas o que mais me machucava naquele momento era a vergonha: vergonha de estar tão assustado, de ser tão privilegiado, de viver em um mundo tão violento e tão injusto. Vergonha de fazer tão pouco. Vergonha de achar normal.

Corta.

Vem comigo.

O que eu vivi tem a ver com o país em que vivemos. Mas eu, pessoalmente, só vivi isso por conta dos desenvolvimentos recentes – até poucos anos atrás nada disso compunha a imagem que eu fazia do Brasil ou dos brasileiros.

Mas tudo isso esteve o tempo todo aí – e o mesmo tipo de “resgate” que marcou a conversa em dois tempos de Vagner com seu pai aconteceu também comigo, e com outros habitando os mesmos bairros que eu. Eu também pude entender melhor, em tempos recentes, coisas que eram ditas a mim e à minha volta – coisas que eram ditas em mesas de almoço de família, em volta da televisão, em festas de aniversário e casamento. Pude entender melhor a violência que habita nosso país e de que eu, meus familiares, meus amigos somos representantes. Pude entender melhor como a violência atravessa nosso país e cada um de nós.

Um breve exemplo: dei-me conta, pouco tempo atrás, que uma bisavó minha era apelidada carinhosamente de “sinhazinha”; era o apelido dela, e era assim que se referia a ela, sempre – nas vezes em que algum assunto passava por ali diziam “a sinhazinha isso”, “a sinhazinha aquilo”. Levei quase trinta anos de minha vida para me dar conta da violência que isso porta, de quanto isso diz de mim, de minha família, da violência que marca nossa inserção na história deste país.

Em 2019 um adolescente de 17 anos foi amarrado, despido e chicoteado por quarenta minutos. Os chicoteadores que aplicavam o “corretivo” filmaram seus gestos, que eventualmente vieram às redes sociais. (Pense naqueles que optam por não filmar, em quantas vezes mais isso aconteceu antes dessa vez, e quantas desde então).

“Sinhazinha” não é um nome: sinhazinha é indicativo de como a violência atravessa a história de nosso país e de nós todos, como ela faz parte do cotidiano e está presente aqui, hoje.

Por um tempo hesitei em explicitar em meus textos essa vinheta referida à história de minha família. Hoje decido falar disso abertamente por saber que essa é minha história, e por isso me compete nomeá-la e enfrenta-la, mas também por saber que ela não é só minha: é de nós todos.

Bolsonaro não inventou um problema – ele representa um problema, que esteve aí o tempo todo. As coisas que o atual governo faz são inaceitáveis, o impacto dessas coisas para o Estado brasileiro, o povo brasileiro e o futuro do país (e do mundo) são graves, é urgente que façamos crítica e oposição; mas é importante manter em vista que a deflagração de hostilidade e violência a que assistimos não é obra apenas dele ou de seu governo – estava conosco o tempo todo, latente e pulsante em nossas veias e vias e famílias e cidades, nos pequenos gestos e naqueles não tão pequenos assim: nas violências de nossos olhares, de nossas concepções morais, de nossos gestos, nossas falas. O que isso significa, para mim, é que nosso desafio é maior do que apenas vencer Bolsonaro e o bolsonarismo: nosso desafio é enfrentar as marcas profundas de violência que escrevem a história de nosso país e, por consequência, a história de nós todos – nossas famílias, nossos bairros, nossas cidades.

Fiquemos com Vagner.

Decreto

Então fica decretado:

Que nenhuma criança viverá com fome.

Que nenhuma mulher apanhará de um homem.

Que um possa acreditar em Deus,

Outro em Lobisomem.

Que um homem poderá, sim, amar outro homem.

Que Maria, se quiser, poderá virar Johnny.

Que quem trabalhou na terra é dono daquilo que come.

Mas vou ficando por aqui

Antes que alguém me chame

De terrorista, comunista

Ou algum outro nome.

(Vagner Souza: De lágrimas, sonhos e revides. São Paulo: Edições Incendiárias, 2016).

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