justiça

O homem é amarrado a uma cadeira de ferro, usam-se cintos ou meias ou cordas encontradas algures, é tudo muito improvisado e o homem já não lembra de si. Não houve cuidado em disfarçar-se paradeiros ou algozes, o homem vê os seus rostos e ouve suas vozes, sabe mais deles do que gostaria, apesar de isso não ajudar em nada seu pleito.

Haveria pleito? Não houve, até o momento, ele raspa a garganta e procura um jeito, um clamor por justiça guardado no peito, o tempo que urge o arrasta a despeito do intento que fica-se assim por cumprir.

Não gritou. E não pediu. E não perguntou.

Perguntar o quê?

Bom dia, senhores. Interrompemos nossa programação regular para mostrar-lhes a face da infâmia, a sede da discórdia, o alvo ledo engano a descolorir as pátrias cores da bandeira nossa. Eia, pois, justo povo! Eia, pois, a quem de bem e de direito, aqui e agora faz-se justiça. O homem que aqui temos, vêem bem, não tem mais rosto. O homem que aqui temos, senhores, os senhores bem vêem também, não tem mais dedos. Esse homem, senhores – esse homem… não tem mais voz. Esse, senhores, é o culpado.

Os senhores, bem sabemos e condoemos, pois sabemos que sofrem. Os senhores sofrem, dia e noite, o pão batalhado, minguado à sorte do capital inquieto. Os senhores, ó se sabemos, os senhores lutam como cães, e acreditam no bem, e evitam a infâmia e a calúnia com suor e com sangue. Os senhores, ah!, os senhores, sabem quão dura a vida, sabem quão injusta a sorte, sabem quão desigual a balança, os senhores sabem que poderia ser melhor.

E é por isso que aqui estamos, senhores. Representamos tudo isso. Sabemos que se incomodam, e valorizamos sua impressão. Vivemos, senhores, dessa impressão, é ela que nos move, dia e noite, em busca de dias melhores, que em nome da glória, um dia virão.

E é essa sôfrega busca, senhores, que nos motiva hoje. Os senhores vêem esse homem, a face oculta, a identidade mascarada, os senhores vêem a dissimulação e o medo que sente, senhores, pois sabe o que querem. Os senhores querem justiça! E pois, senhores, excelsos senhores, que haja justiça.

O homem assistia. O homem compreendia, buscava compreender: ele era ruim, pelo visto. Que mal fizera? Haveria de ter feito algo grave. O que teria sido? Os homens certos, conduzindo a performance, haveriam de sabê-lo; quando a foice descesse, o sangue haveria de correr de si, buscar os ralos, lavar-se em meio ao esgoto, banhar os pés dos ratos, encontrar-se enfim onde merecia, e encontraria então a paz.

Que bom! Haveria a paz.

A foice desceria, e há de descer. É o que cabe a ela. Depois, certamente, virá o bem – ceifa-se o mal, e o bem prospera; há de ser assim.

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