Inocêncio e a crise

Inocêncio tomou um certo susto quando a porta do consultório se abriu; contemplava perplexo, um pouco aéreo, na expectativa, provavelmente, de que fosse chamado. Esqueceu completamente, no entanto, que vira a paciente entrar, e portanto não seria chamado antes que ela saísse. A moça agradeceu alguém lá dentro e saiu.

– Tchau, dona Rosa, boa noite – disse ela, despedindo-se da secretária do doutor Armando. Voltando os olhos para Inocêncio, que tentava ao mesmo tempo disfarçar que a encarava, ela estendeu a ele, em um tom de voz mais baixo e entre os dentes, o cumprimento, abriu a porta e saiu.

Inocêncio suava um pouco. Olhava muito para as próprias mãos e, vez em quando, mirava, quase com o canto dos olhos, a televisão onde desfilavam-se as notícias do dia, com franca prioridade para o noticiário político nacional. Rosa, a secretária, arrumava algumas coisas em uma bolsa por trás do balcão e olhava, quando em vez, em direção a Inocência; parecia um tanto preocupada. Enfim, após passar o zíper, disse:

– Senhor Inocêncio, o senhor é o último paciente do doutor Armando hoje, então quando ele chamar o senhor vou apagar as luzes aqui do fundo e desligar a máquina de café. O senhor aceitaria mais um café?

– Não, Rosa, agradeço.

– Certo. Quando sair pode encostar a porta, ela trava sozinha, já programei o alarme aqui, ok?

– Combinado.

Nesse momento, como se aguardasse os preparativos de Rosa, Armando chamou de dentro da sala: “Gentil Inocêncio, pode entrar”; Inocêncio olhou para a porta, olhou novamente para Rosa e, meio sem jeito, disse:

– Bom, acho que vou indo lá. Obrigado pela atenção, Rosa, boa noite.

– Imagina, seu Inocêncio, boa consulta para o senhor.

Inocêncio conhecia bem o consultório do doutor Armando: os muitos livros, a ampla escrivaninha, a maca, o estetoscópio, os bustos de Platão e Sigmund Freud, a luminosidade preguiçosa do dimmer, o olhar atento e firme do doutor. Esse cenário normalmente o acalmava, sentia-se contido, cuidado, sob controle; hoje, no entanto, a sala promovia uma certa insegurança que Inocêncio não soube não transparecer.

– Seu Inocêncio, quanto tempo! Como vai o senhor?

Armando não escondia tampouco que já tinha percebido a intranquilidade de Inocêncio, mas parecia não ter pressa.

– Tudo bem, seu Armando; agradeço por ter me recebido assim de repente.

– Imagina, Inocêncio, estou aqui para isso. Agora me diga, o que está acontecendo?

Chegara a hora difícil. Inocêncio baixou os olhos: estava com vergonha.

– Pois é, doutor, não sei se sei explicar, sabia?

Levantou os olhos e perscrutou o doutor Armando: Armando apertava um pouco os olhos, como um predador que foca seu olhar na presa em meio aos arbustos.

– O senhor já me acompanha há um tempo, Armando, e sabe como o tratamento com o senhor me acalmou…

Tomou um certo susto quando percebeu que chamara o doutor pelo nome; de onde viera aquilo? O doutor, ainda com o olhar aguçado, encaixou a cabeça um pouco para a frente em relação ao tronco, e seu movimento parecia o de uma águia.

– Mas enfim, doutor, o fato é que as coisas ficaram um pouco confusas nos últimos dias…

– Confusas como, Inocêncio?

Armando parecia avançar.

– Olha, é… então, doutor, é que eu estive acompanhando os noticiários no canal 5, como o senhor sugeriu, mas esqueci de tomar os medicamentos um dia e quando olhei para o Sono…

– Sonner – interrompeu Armando, corrigindo o Inocêncio.

– Isso, Sonner! Quando olhei para o Sonner me bateu uma irritação, e aí…

– Sim?

Inocêncio, que já estava com o olhar baixo, abaixou a cabeça ainda mais, praticamente confinando-a entre os ombros e fechando os olhos. E então, subitamente, levantou o rosto, diagonalmente, e, contemplando Platão fronteando os livros na prateleira, ao lado e atrás de Armando, afirmou:

– Aí eu desliguei a televisão e fui procurar as notícias na internet.

Armando recuou um pouco, reclinando a poltrona para trás; parecia pensativo. Enfim retomou o prumo:

– Entendo. Pois é, Inocêncio, fico feliz que tenha nos procurado. Como você sabe, seu caso é muito importante para nós, e ao longo dos últimos anos desenvolvi grande respeito pela sua dedicação ao tratamento e sua disciplina.

Inocêncio, nesse momento, estava inquieto. A confissão de que abandonara o noticiário era como o corolário de que a medicação fora mesmo abandonada, e quando expôs a situação sabia o que viria. Diante da amenidade do doutor em seu avanço manteve-se, no entanto, colaborativo; por isso respondeu de forma simples ao doutor, que aguardava sua reação:

– É, doutor, eu sei.

– E você sabe que seu caso é muito importante para nós, não é? Eu lembro mesmo de ter mostrado a você uma cópia de nosso artigo enviado à comissão de elaboração do manual diagnóstico! Lembra disso?

Inocêncio mantinha o olhar baixo; sentia que sua poltrona transformava-se, deixara de ser uma simples poltrona, tornara-se um misto de poço profundo, banco judiciário e mesa de operações; sentia que não estava bem; sentia que talvez o doutor Armando pudesse, apesar de tudo, ajuda-lo:

– Sim, doutor, eu lembro, lembro inclusive do título: “um caso clínico de Síndrome de Disfunção Política Refratária remitido: avanço terapêutico?”.

– Isso mesmo. Pois sabia que o caso foi muito bem recebido? Estamos avançando a passos largos para que a Disfunção Política Refratária se divida, e seu quadro passaria a ser considerado Disfunção Política Grave.

A colocação de Armando inquietou um pouco Inocêncio, que mexeu-se um pouco em sua cadeira, desconfortável. Armando, evidentemente, percebeu:

– Mas veja, Inocêncio, estou te contando isso tudo porque seu caso progrediu tremendamente. Tanto é assim que o senhor está aqui hoje, e está aqui porque sabe que o que está acontecendo com o senhor é consequência de sua doença, e está aqui porque sabe que posso ajuda-lo. Não é verdade?

Nesse momento Inocêncio viveu um breve dilema. Sabia que deveria concordar, e sabia que concordaria, ao fim e ao cabo: afinal de contas, ele efetivamente foi até lá porque de alguma maneira acreditava nisso. Mas ainda assim, tudo que vira na internet parecia tão real que ele não conseguia tirar de sua cabeça a ideia de que Armando era um manipulador, contava com Sonner para convencê-lo e contava com sua participação para aprovar o diagnóstico e vender o tal Globe Trotter que lhe prescrevera em larga escala. Essas ideias, no entanto, pareciam-lhe igualmente falsas, e sentia que toda essa história vinha das coisas que lera na internet.

Armando, como se pode imaginar, percebeu a hesitação de Inocêncio. Assim que percebeu a hesitação na resposta franziu o cenho, que aos poucos baixou e cedeu lugar a um olhar firme: era o bote.

– Inocêncio, desde quando o senhor interrompeu o tratamento com Globe Trotter?

Entre a confrontação e a rendição, Inocêncio respondeu com um misto de calma, falsa assertividade e raiva:

– Uma semana e meia.

– E há quanto tempo interrompeu, digo, deixou de assistir ao noticiário?

– Seis dias.

– E quais páginas tem frequentado?

– …oi?

– Onde tem buscado as “informações na internet” a que se refere?

– Ah! De início “Folha do mesmo galho”, depois passei a frequentar também a “Carta da capital”, “Caros companheiros” e a “Mídia Jiraya”.

Armando não se conteve: sua respiração prendeu-se, arregalou os olhos, levou a mão à boca e emitiu um leve ruído, como uma exclamação contida. Levou, então, a mão à boca; Inocêncio o contemplava, os olhos que estiveram incendiários enquanto enfileirava seus crimes agora em brasa, apagando-se, Inocêncio afundando-se em um olhar culpado. Os olhos de Armando, virando intermitentemente entre um lado e outro, mostravam que ele calculava rotas e possibilidades. Respirou fundo, enfim, e disse serenamente:

– Inocêncio, fico realmente muito feliz que tenha ligado, e que tenha nos procurado nesse momento. O que o senhor passou nos últimos dias poderia ter se tornado algo grave – acredito mesmo que em alguns dias poderia machucar-se, dizendo coisas descabidas a seus amigos e familiares e, bom, sabe-se lá. Enfim, fico feliz em tê-lo aqui, porque sinto que posso ajuda-lo. Ok?

Inocêncio respondeu, meio mecanicamente, e o doutor Armando seguiu:

– Tenho aqui uma medicação que vai ajudar a cuidar de sua recuperação. Chamarei um colega que tem colaborado na pesquisa, doutor Cárceres, e ele vai observar sua reação ao medicamento ao longo da noite…

-Ele vai dormir em casa?

Armando sorriu:

-Não, Inocêncio, nem Cárceres nem o senhor dormirão em sua casa: o senhor passará a noite em observação em minha clínica, porque essa medicação requer uma observação mais cuidadosa. Amanhã retomaremos a ministração dos Globe Trotters e, assim que estivermos em um momento adequado da curva terapêutica das cápsulas, poderá retornar à sua rotina. Ok?

Inocêncio respondeu mecanicamente.

*

Algumas semanas depois Armando encontrou Inocêncio na rua, em meio à multidão. Sorrindo, olhou para a camisa de Inocêncio, olhou para a sua e, olhando novamente para Inocêncio, comentou:

– Bela camisa, Inocêncio!

Sorrindo, Inocêncio entrou na brincadeira:

– A sua é ainda mais, Doutor! Que prazer vê-lo aqui. Bela festa, não?

– Sem dúvida.

Armando pareceu lembrar-se algo, pois subitamente seu olhar pareceu entristecer-se. Rapidamente recomposto, no entanto, ele retomou a prosa:

– E o senhor acredita que seu diagnóstico não foi aprovado para a sexta edição do Manual?

– Jura, doutor? Que disseram?

– No fim das contas acho que nos entendemos bem e a saída deles foi de fato a melhor saída, sabia? Eles disseram que seu caso não é grave, é refratário, e que os tratamentos devem ser dirigidos a um caso refratário, e não a um caso grave. Entende?

– Olha, doutor, para dizer a verdade, não.

– Mas é melhor para você, acredite. O fato é que manteremos contato próximo e vamos poder incorporar um tratamento muito bom, inovador, que os editores indicaram para seu caso.

– É mesmo? Puxa, que ótimo, doutor! O que é?

– É um dispositivo que o senhor conecta a seu aparelho telefônico que permite que acompanhemos em tempo real o efeito terapêutico ou iatrogênico de sua rotina; assim, a cada vez que se submeter a uma experiência iatrogênica eu receberei um e-mail com os dados de suas conexões e poderemos, assim, manter seu tratamento em termos ideais de dosagem e prescrição. Ótimo, não é?

– Ótimo, doutor, fantástico! Quer ficar com meu celular, já?

– Não precisa, Inocêncio, vamos aproveitar a festa. Quer tirar uma selfie com o oficial ali?

– Claro, será um prazer!

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