Lake Song

Estivéramos um tempo revirando as pedras à beira do lago,  à busca de pequenos curiosos animais; à busca de tiradas espirituosas e mistérios distantes; à busca um do outro;  em paz.
Ainda há pouco eu comentara algo a respeito de um animalzinho de patas finas e compridas, Colin sorrira, e foi então que percebi que estávamos lá, estávamos de fato lá: à beira do lago, ao entardecer mas tendo estado lá já há um tempo, ouvindo música, fumando e pensando na vida.
Eu não sabia há quanto tempo conhecia Colin. Pela intimidade que o momento retratava seríamos amigos já há tempos, mas eu não lembrava bem. E no entanto, a despeito da estranheza de minha condição extemporânea ali, não me sentia estranho: sentia-me confortável, alocado.
O rádio a pilha que deixáramos apoiado em uma pedra passou, naquele momento, a tocar Lake Song – Lake Song dos Decemberists, do Colin; e eu, lá com Colin, ouvindo a música dele, à beira do lago. Cantarolávamos, juntos, ou melhor, sozinhos juntos, cada um na sua.
Colin tinha um jeito curioso de estar ali, parecia tranquilo com minha presença, parecia um bom amigo. Resolvi arriscar:
– Bela música…
Ele me olhou, erguendo uma sobrancelha – talvez tivesse errado o tom… mas em seguida ele disse, sorrindo levemente:
– É… eu tenho uma coisa engraçada com o passado.
-Como assim? (Tinha dado certo! Estava meio exultante, mas tentava me conter).
– Não sei, sinto o passado aberto, não sei explicar. Tantas coisas possíveis, que eram possíveis, e que continuam possíveis, e é como se elas fossem reais ainda, as coisas que eram possíveis continuam possíveis – não que elas possam acontecer, mas elas podem ser parte de nós, e continuam ali, são parte de nós. Sabe?
– Sei. Acho que sei.
Olhei ao longe, através do lago, e foi então que vi.
– Olha só, ali! Tinha visto?
– Aquilo? É uma torre?
– É… a torre do Jung.
– Jung, o suíço?
– É.
Eu já tinha entendido, então me sentia mais tranquilo e confiante em relação ao que via:
– Na verdade ela é minha, mas é do Jung. Ele dizia em sua auto-biografia que tinha uma torre, às margens do lago, onde ia em busca de tranquilidade e, bem, eu tenho usado ela pra isso também.
Colin sorriu.
– E o Jung, não se incomoda?
– Não, tranquilo – há solidão o suficiente pra nós dois sermos tranquilos juntos. Não é?
– É, tem razão.
Sentei-me então ao lado do rádio que, estranhamente, tocava ainda a Lake Song – era tudo que ele tocava, por sinal: Lake Song, em um tom repetitivo, quase um mantra. Estava lá, e fumava, tranquilamente, ouvindo à música, e admirava o lago e o céu e o sol: estava tudo bem.
-Dá um trago?
Era Colin, que subia em direção ao ponto onde eu estava. Passei a ele o cigarro. Ele sentou-se ao meu lado, deu um trago, fechando os olhos, baforou como quem suspira e apagou o cigarro entre os dedos, ponderada, tranquilamente, como quem faz filosofia.
Há momentos em que gestos tão banais são filosofia; apagar um cigarro entre os dedos, à margem do lago, é filosofia.
Não conversamos.
Estivemos ali – dez minutos, uma hora, uma vida: o tempo de um sonho.
Olhei pra ele e ele apontou para trás de nós, com um gesto da cabeça apontando por cima do ombro:
– Vamos?
Subindo o morro havia a estrada, e à beira da estrada um carro, antigo, bonito, clássico, conversível, desses compridos – carro de filme. Colin levantou-se, limpou a poeira e caminhou tranquilamente em direção ao carro. Chegamos ao carro, entrei e segui viagem, sozinho – sozinho com meus passados, meus possíveis, meus sonhos e meus muitos bons companheiros de solidão.
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