Sr. K. e a política no Facebook

Bateram à minha porta. Era tarde, como sempre era quando batiam à minha porta. Abri, sonolento, ciente das remelas que eu não coçava por preguiça e por medo de doer – doíam quando saíam nos últimos tempos, o pessoal do bar dizia que era falta de água, que eu deveria tomar mais água quando acordasse.

O que queriam?, era essa minha dúvida. Simples, direta, humilde, mas não: entraram, suponho que queriam entrar, suponho também que acharam o gesto mais elucidativo que uma resposta verbal, enfim, entraram. Eu e as remelas estranhamos, as pessoas não entram assim nas casas das pessoas de bem, de ressaca, bem de ressaca, e com sono – bem com sono, que horas seriam? Poderia e deveria ter perguntado, porque eu não sabia, o despertador do criado mudo já não desperta nem a si mesmo nem a ninguém, que eu saiba as horas depende da providência, do sol, do rádio da faxineira do vizinho, o som daquela sempre com as pilhas novinhas em folha, ao que parece.

Eu imagino, quando olho para trás, que deveria ter me sobressaltado, disse há pouco que sou gente de bem, e gente de bem não leva assim sem consequências uma visita assim abrupta e sem esclarecimento nenhum; quem me entende há de concordar. Pois que não sobressaltei, não me desaforei nem exigi nada – estranhei, isso sim, mas não a invasão e sim a vida, a porta, o cheiro de perfume chique dos homens, bom demais o perfume deles, até me desassossega. Digo como foi, eu olhava para a cena de fora de mim, e me via segurando a porta como quem espera que ela me conduza, e ela ali entreaberta, a meio de caminho. Eu, burro, burro como uma porta, olhei por sobre meu ombro, ainda segurando a porta, e vi que estavam os dois sentados nos sofás da sala – na realidade um deles sentado no sofá maior e o outro em uma das poltronas, e os dois estavam na ponta de seus assentos, os corpos apontando para o sofá maior onde supus logo que seria meu lugar. Pois bem, lá sentei – era meu lugar, não era? Na realidade a casa toda era minha, nada daquilo seria tão absurdo assim, são visitas convidando-me a habitar os sofás que há tanto tempo não usava. Por que?, penso eu, alguém possui tão vastos sofás e poltronas, tão cheios de espuma e estofado de cores, se mora só e de tão pouco habitante da própria casa mal morador qualifica? Há quem prefira as flores que não conheça, ouvi dizer, hei de ser daqueles que mora melhor e mais confortavelmente munido de móveis que confortavelmente não usa. Há de ser.

Eu, burro, a porta já devidamente fechada, instalei-me então no sofá grande que pela geometria dos homens fui levado a crer seria meu local devido. Lá instalado, e devidamente constrangido – digo fisicamente constrangido, posto que os troncudos homens ocupavam mais espaço que aquele dedicado à minha não circulação entre as flores estofadas – devidamente constrangido, lá instalado, voltei a ver-me em cena, em primeira pessoa, a não ver-me mais de fora, como estivera quando segurava a porta. Sentei, à moda troncuda, com a bunda apenas na borda do sofá, bem em cima de uma flor já meio desbotada – talvez essa fosse minha posição de praxe, dos tempos em que ainda circulava pela casa, não saberia precisar; abundado à beirada do sofá, recostei-me precariamente no encosto mas, posta a distância entre meu quadril e o fundo do sofá, mantive-me recostado somente às custas de meu próprio insólito esforço. Na realidade – tento recapitular agora a cena, mas o fato é que estava já instalado em mim nessa hora e não consigo recuperar as imagens, por assim dizer – na realidade nesse momento apenas meu pescoço me apoiava, e eu me mantinha suspenso como uma tábua ao largo do sofá, como aqueles adolescentes que aceitam qualquer desconforto ergonômico para ostentar malandragem e desprezo.

O curioso disso tudo é que a posição não me deixava nem minimamente confortável em meio à geometria e à composição de forças da ocasião; inclinado e tenso como estava eu acabava saltando meu olhar de um a outro dos homens que não conheço – e cujos olhos não divisava devido aos óculos escuros que usavam, mesmo dentro de minha casa que não é de forma alguma iluminada o suficiente para justificar a indelicada escolha – os olhos dos homens que não conheço recebiam cerradamente meus olhares, esguios em virtude de minha posição, e eu me sentia curiosamente assemelhado àqueles cachorros que se constrangem e se intimidam – cachorros de rua, os que tenho em mente, com a pelagem castanho clara e as orelhas triangulares e rígidas.

“Não os conheço”. Foi o que disse; parece pouco, mas não foi fácil dizê-lo, os seus olhares que não divisava oprimiam, e eu me sentia desconfortável.

– Não os conheço.

– Ninguém se importa.

– Como assim?

Isso foi o mais próximo de um diálogo que cheguei? Foi, foi, disso lembro. Tentei, aberta a via dos travessões, uma série de questões, procurei meu rumo, sem sucesso – ternos fechados, olhos escuros, feições inexpressivas.

Ninguém se importa… é claro que alguém se importa! Homens batem à porta, entram em minha casa, instalam-se em meu sofá, e ninguém se importa? Certamente alguém se importa. Procurei motivos, e encontrei-os – na realidade encontrei muitos, imaginei dúzias de motivos porque o mundo se ocuparia de por gente estranha na casa de gente de bem e sem propósito – encontrei motivos tão abundantes e variados que em nada me explicaram, nada me explicaram. Quando dei por mim tinha abandonado a posição de tábua no aclive, estava abundado ainda sobre a flor desbotada mas tinha o pescoço livre e a coluna encurvada – agora assim parecia um desleixado legítimo, e os olhava com uma espécie de desdém desesperado. Não sei se olhavam, não sei se tinham olhos – mas eles estavam lá, e me viam.

Assumi, a partir da superação do estágio “tábua no aclive”, um ar de despeitado, e meu olhar de pingue-pongue esteve mais inquieto e hostil, como quem desafia em busca de uma resposta; mais ou menos como um cidadão despeitado buscando respostas no olhar da secretária que traz a má notícia, “o doutor ainda não chegou, disse que já está a caminho”, “sinto muito, estamos sem vagas”, “talvez amanhã, a senhora pode voltar amanhã”, e o olhar fuzila e pingue-pongueia, mas como pode?, que absurdo!, isso é um absurdo!, mas a boca nada diz, quem trabalha é o olhar de pingue-pongue e o corpo escristado.

Ah, que falta fazem as cristas!

Estive despeitado, não sei quanto tempo. Creio que passei uns anos despeitado, e pingue-pongueei meu olhar o quão aflitamente pude. Meu sofá parecia o cantinho da disciplina da supernâni, mesmo diante de minha certa e límpida inocência, cantinho da disciplina, lá estava eu.

Já não bebo mais.

Os ternos de óculos escuros estão sempre lá; hoje não sei dizer se me trazem algum desgosto, habituei-me – a bem da verdade aqueles móveis nunca foram muito meus, minha casa nunca foi muito minha de qualquer maneira.

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