Dia de féria

  Do lado de cá da calçada batia um sol agradável. Eu, ajeitado na cadeira plástica, contemplava o movimento na rua. E haja movimento! Para tudo quanto é lado passavam jovens, passavam velhos, carros pequenos e grandes. Eu, sentado ali, olhava a eles estranhando tudo. De onde vinham? Para onde vinham? É muito viva essa vida toda.

  Onde vamos? Hoje é dia de feira! As senhorinhas fazem bem, saem às ruas em busca do pimentão e da cebola com que assar suas carnes, logo os netos serão deixados pelas mães atrabalhoadas e a casa já estará bem temperada pelos cheiros do almoço; aí – aí, sim – é lembrar que eles têm judô às quatro, e que eles andam danados para fugir de escovar os dentes, e o tal desenho animado que o Pedrinho adora começa às duas e se perder ele emburra para o dia todo. Ela certamente tem cabeleireiro, ou trabalha, vai saber, executiva e tudo o mais. No caminho de casa ainda há de cruzar a dona Antônia, ai que senhora fofoqueira, ela, outro dia ainda saiu contando da vida do marido da Ana que ela nem bem conhece! Mas Iolanda faz bem, é escolada na vida, aperta logo a alça da feira, mostra os pimentões e as cebolas e toca para dentro de casa.

  Iolanda me lançou um aceno discreto quando percebeu que eu a olhava; deve me achar pervertido, achar que fantasio despropósitos a respeito dela, coitada. Devia contar a ela sobre as pessoas com que povôo a rua de casa, rua de minha casa que também é rua da casa dela. Talvez Iolanda até me contasse seu nome verdadeiro, se fiasse crédito em meu referir a esse estranho hábito.

  Mas hoje não, hoje não travei conversa com Iolanda, espevitada como senhorinha que é Iolanda se arremessa casa adentro, talvez os netos cheguem logo, vá lá saber. Em pouco tempo, coisa de menos de minutos, passa em frente à casa de Iolanda o Augusto, aquele que passa as tardes no bar; Augusto passa despreocupado, perdido em assovios e mãos nos bolsos do short, certamente a caminho da lanchonete e do desnecessário suco de laranja, tomado a conta-gotas para prolongar a companhia da Aninha, garçonete de há cerca de dois anos. Aninha colorindo a vida de Augusto com sua faceirice, o pouco papo medido na medida da pouca pressa de Augusto, mais interessado no compassar do coração aposentado que na iminência de desventura romântica que seja; de um platonismo brilhante as manhãs de Augusto renderam-lhe – quem diria! – um remédio inaudito para o mal-estar das manhãs, a tal da caminhada até a lanchonete, o suco de laranjas de conta-gotas, o pão com queijo na chapa. Aninha por dentro se ri, sabe dos descaminhos que conduzem Augusto ao desmentido manhã após manhã, sabe que usa o medo de envelhecer de Augusto para fazer-se mais bonita sem carecer de maquiagem ou cirurgia. E se embeleza toda, rebolando da geladeira baixa à pia e de lá ao forno, até a correria dos almoços executivos.

  Antes que os almoços executivos pudessem se preencher de tudo que não fossem executivos o turco aparece na frente da mecânica. O turco não almoça em executivos, que eu saiba; mas sempre aparece na porta da loja por esse horários, talvez a contemplar algum passarinho que por aqui passe, talvez entretido a limpar os dedos com o pano de feltro e a expirar um pouco da graxa na calçada. O turco olha em volta sem pressa, a graxa nos dedos indiferente ao pano, a respiração profunda. Dessa vez o turco não me viu, não me cumprimentou; no geral cumprimenta. Lá dentro talvez a marmita esquente, deve ser isso. Ou vem à calçada espairecer da ligação certeira à filha, na Austrália em viagem, e o turco se arremessa como cego à calçada em busca do coração palpitante; foi atrás de encrenca, a filha, metida nessa história de intercâmbio, caçando cangurus e Crocodilos Dundee; “volta prenha e eu deserdo”, tenta se recompor na rabugice o turco amolecido, espalhando a graxa mão afora para mostrar que é macho mesmo.

  Eu, ali há mais de hora e meia, dei-me conta de que o sol já não batia do meu lado da calçada; sumira, engolido sem piedade pelo prédio novo, reluzindo os escritórios e escondendo o pessoal e os ternos do pessoal, comendo o sol e os ternos reclamando do sol a borrar a imagem nos computadores. Em lugar do sol surgira do lado de cá da calçada um vento agradável, mais para brisa que para vento, fazendo as folhas dançarem e  chiarem a chegada da noite, varrendo o dia e os rastros do dia. O turco logo mais puxaria o portão de ferro da mecânica. Aninha partiria em sua longa jornada até sua casa longe como o horizonte, passando no caminho pelo barzinho onde o Augusto consumia tremoços alimentando de moedas o vídeo-bingo, de asneiras o barista cansado. A lua ganhava coragem e se despudorava no céu em degradê, ela que discretamente já se insinuava por lá desde meados da tarde.

  Tem lua durante o dia, sim. A lua está sempre lá.

  Quem procura, vê.

  Espreguiçado, desentortado do sentar por tanto tempo, levanto. Olho em volta, para arua pacificada dos rumores do dia.

  Mais tarde, por volta das sete, o doutor Afanásio comenta a ópera no rádio. Hoje, terça-feira, é dia de macarrão com almôndegas, requentado do almoço do supermercado. Se tiver apetite ainda aproveito e como aquela última laranja, que as laranjas vieram muito maduras e se bobear perco para o tempo.

  O Pietro tinha pedido que eu passasse no shopping, comprar as tais raquetes especiais que sairiam hoje; já até me vejo respondendo: “não deu tempo, filho; não deu tempo”. Já vejo ele não entendendo, e perguntando que tanto eu tinha feito da minha vida que nem conseguia dar uma passada ali no shopping.

  Da minha vida, nada. Mas fiz tanto de tantas outras, filho, que você nem imagina. E o trabalho, filho, muita correria?

  Seis e meia; tenho tempo de ler um pouquinho antes do Afanásio.

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