Monte do bom engano

  Parece que vai chover.

  Você adorava quando estávamos aqui e chovia, lembra? Ficava animada à espera do momento em que a chuva cessaria, quando poderíamos sentar na varanda e apreciar as cores, os sons, os cheiros.

  Acho que você sabia que eu não percebia muito do que a encantava, não sabia?

  Sabia que eu não me importava muito, e em muitos momentos estava perdido em meus pensamentos?

  Eu às vezes me arrependo – olho para mim mesmo hoje e penso que deveria ter feito as coisas de forma diferente. Mas como poderia? Mesmo hoje, se me esforçasse muito e me pusesse na mesma situação, se tentasse pensar com a cabeça que tinha à época, como poderia ser diferente?

  Eu não percebia, então, que era rude. Sabia que muitas pessoas diferentes me diziam de muitas formas diferentes que eu deveria ser diferente. Disso eu sabia; mas não me importava. Ou me importava, mas me importava como um incômodo, como se todos fossem um estorvo. Como se não entendessem nada, e se metessem em meu caminho.

  Sentia isso em relação a você, também. É triste, dói admiti-lo, mas sentia. E ao longo de todo o tempo, tudo o que soube foi de meus projetos, dos prazos e desafios, do objetivo sempre alhures, sempre tão necessário e inadiável; e você, e seu corpo, e sua voz, me chegavam como algo incompreensível, algo estranho; eu gostava – não  chegava a amar, creio que era, e talvez ainda seja incapaz de amar – gostava de tê-la comigo, mas assim que partia eu me sentia enfraquecido, como quem perdeu um tempo que não poderia perder, como quem estava sendo seduzido e tivesse de se defender.

  Talvez você ficasse feliz hoje se soubesse que eu comprei essa casa; talvez ficasse feliz se soubesse que eu me animo quando chove, e quando a chuva cessa eu sento à varanda e fico lá, tentando ver a beleza das cores e cheiros e sons que só você via.

  Mas eu não vejo nada.

  Hoje eu bati no funcionário que trabalha aqui. Ele queria me ajudar a cuidar do gramado, pelo que eu entendi – ele fala muito rápido e quase não o entendo; sei que estava andando pelo gramado, que hoje parece um matagal, quando ele me alcançou. Perguntou se eu conhecia os equipamentos, se queria que ele ajudasse a cuidar do gramado, talvez quisesse que eu o pagasse para fazê-lo, não sei, sei que ele falava rápido e abria o braço em um amplo gesto de “olha só essa zona” e perguntava o que eu faria e eu dizia que estava tudo sob controle e que estava pensando no assunto, e então ele disse que o Maurício teria cuidado do gramado já duas semanas antes e eu lhe dei um bofetão.

  Eu não sei por quê dei um bofetão no moço (eu não decorei o nome dele, sei que tem um “ides” no fim). Por que eu bati nele?

  Talvez ele vá embora, junte sua família e deixe a casinha dele, deixe o matagal e a casa e o pomar e a varanda aos cuidados do velho louco que eu estou me tornando. Talvez seja melhor assim.

  Ou talvez ele se esgueire até meu quarto pela madrugada e corte meu pescoço com seu facão.

  Talvez seja melhor assim.

  Acho que estou me prolongando demais; escrevi porque queria te agradecer, Bel. Passamos pouco tempo juntos, e depois de mim você certamente encontrou para si uma vida melhor, com alguém que saiba te ouvir, saiba cuidar de você e estar ao seu lado. Alguém que saiba te querer. Mas eu queria que você soubesse – ainda que saiba que não vai saber, já que não sei se está viva ou onde mora e guardarei esta carta na gaveta quando terminá-la – que eu te queria; te queria muito. Eu só não sabia querer, e por isso me descuidava e tropeçava e trocava as coisas de seus lugares e fazia tudo errado.

  Mas eu te queria, Bel; eu te queria muito.

  Eu queria poder pedir desculpas ao Aristides,  ou Benevides, ou Alcides; queria dizer-lhe que não sei porque bati nele, que não sei cuidar do matagal, e também não sei porque comprei essa casa no meio do nada e deixei toda minha vida para trás. Queria dizer a ele que não sou um “doutor” e que esses livros que entulham todas essas caixas são só tijolos de uma fortaleza que construí de mim para mim.

  Queria que chovesse, e que a chuva parasse, e eu sentasse à varanda e pudesse, ao menos uma vez, apreciar toda a beleza do sol entre as nuvens iluminando o gramado, do cheiro da grama e das árvores molhadas, do som do vento passando entre os galhos; queria sentir isso tudo, e que isso tudo entrasse em mim e me fizesse dizer como num suspiro “como isso tudo é bonito”.

  Como você dizia.

  Queria, Bel, que você estivesse comigo, e que eu pudesse, com você, sentir todo o sentido que você me faz depois que te perdi. Queria não estar sozinho, tão sozinho.

  A qualquer momento vai chover, Bel. Mas não sei se isso é muito bom.

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2 comentários sobre “Monte do bom engano

  1. Eu quase me meti a tornar esse seu texto uma outra ciranda. Mas a Bel sou eu, é a Maria que toma sol na praia agora com o Paulo, ou milhares de outras mulheres que um dia precisaram ir, mesmo não querendo. Eu não sei como isso é para os homens, visto que estou levando em conta essa divisão de gêneros, os homens de um lado, as mulheres de outros… pois são destes tipo de relações o meu maior contato… E sendo assim, sabendo o quanto carrego de Bel… essa que o narrador se remete, digo que fiquei perplexa com a narrativa. A voz na descrição do lugar é formidável. E por um segundo, me transportei (eu fui a Bel?) para a varanda…. com ele.

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