breve queda

  Aturdiu-se com a súbita queda do velho, do imperscrutável Camões.

  Viu-se escasseado – ah, esses dizeres!

  Feito em pouco viu que os dizeres eram-no o quase tudo, o pão que comia, o sono que dormia, era o que dizia e o que dizia ser.

  Pegou o charuto para melhor contemplar a cena e a si; por hábito não fumava charutos, mas, a esta altura, que diferença poderia fazer? Estranhado de si e do charuto – de onde tinha aparecido o charuto? – contemplava o charuto como que à espera de resposta. O charuto, displicente, esvaía-se em cinza névoa, e cinza. E névoa.

  Charuto… porque nem só de pão vive o homem.

Porque às vezes um charuto é só um charuto.

É… mais vale um na mão do que o nada e ver seus próprios dedos esvaindo-se em cinza névoa.

E cinza.

E névoa.

  Camões recompunha-se, já. Com as mãos cheias de nós nos dedos, taludo e lento Camões batia o pó do ridículo, ultrapassado vestuário, punha-se como-se-nada-houvera.

  A cena o incomodava. Como se não pudesse fugir fechou os olhos com força, com ares de Vade Retro; apertou os olhos ainda fechados com os dedos (o polegar e o indicador, da mão direita – na mão esquerda segurava ainda o charuto), virou-se sobre os pés e saiu andando. Parecia – e bem poderia ser – que se afastava como em uma justa, um, dois, três, dez passos e BUM! Um tiro no peito de Camões, certeiro e súbito. “Aí, carcaça velha, toma essa!”.

       Hahaha!, toma essa,

                                                  livre,

                                                              pra de tudo um muito,

                                                                                                       livre grande livre-livre-livre,

 [e  mesmo pela fantasiosa desforra via-se desmilinguido, desfeito em nós laços perdas frio e o vazio sozinho o medo vadiaria sem o recurso os pensamentos fugindo pelas orelhas e ele vagando e sempre sempre

 sempre sempre

 só

 só

 só

só que não atirara – não podia atirar, nem que quisesse! – e o velho lá estava ainda, firme e forte (só que ridículo, ainda). Eita, velho! Os anos que passam e o velho firme – quer dizer, firme que nem bambu é firme, firme de tão frouxo que as intempéries não o desconhecem das plantas dos pés e ele imperscrutável lá já de há muito e para sempre, ao que tudo indica. Até que é fashion, esse coroa, com a vibe toda zen-budista, o Nirvana e os vazios e referentes-puros naquelas de arqueiro zen e o caralho.

  O intuito, claro, não era desrespeitar o velho, o respeitável senhor. Pelas longas barbas, barbas de séculos, fazia-se imponente, há de curvar-se ao velho e a seus dons de nomear as coisas em sua justa forma. Digo…

                                      [ curvar-se?

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