As ondas que quebram na praia – borgeana #2

  Borges abre seu “biografia de Tadeo Isidoro Cruz” alertando ao leitor que não dispõe de elementos nem competência para traçar a trajetória e os significados da vida do biografado. Assim, o texto em que se aventura consiste no relato do momento preciso em que Cruz se viu confrontado com seu destino, momento em que posicionou-se para ser quem foi. Concordo com François Dosse, que diz que Borges faz então uma espécie de “contra-biografia”, uma contestação da escola biográfica clássica.

  Mesmo não sendo escritor, nem biógrafo; mesmo não dispondo, como Borges, de elementos e competência; mesmo não sendo afeito à palavra escrita e às trajetórias de pessoas ilustres e ilustrativas, vejo-me hoje arremessado em meio ao debate. As circunstâncias são peculiares e uma exposição honesta e elucidativa passaria por uma autobiografia, que não almejo e me recuso a fazer. Assim limitado pelas circunstâncias e constrangido pelas impropriedades, arremesso-me solitário à escrita de uma biografia.

  Vi-o pela primeira vez há menos de seis meses; mais precisamente, vi-o pela primeira vez em março de 74. Não sabia seu nome então.

  Estava em um período delicado em casa, e tinha criado o hábito de sentar à beira-mar depois do trabalho; comia alguma coisa, bebia alguma coisa, o tempo se tornava mais curto e tolerável até a hora de dormir.

  Naquele dia, logo após sentar-me reparei nele. Trajava um calção azul, muito feio e puído; caminhava lenta e condoídamente rumo à água.

  Chamou-me a atenção seu desapreço pelo mundo à sua volta. Era nítido o desinteresse dele pelo mar – para o qual não olhou; pela praia – pela qual passou sem nenhum olhar em volta; pelos transeuntes – que aparentemente não via; pelo horizonte amplo e aberto, pelas gaivotas, por mim, que então o olhava fixamente, distraído. Tudo indicava que buscava a praia simplesmente para beneficiar-se do horizonte amplo e propenso ao perder-se em si.

  Difícil dizer quantos anos contava. Depois que soube sua história supus que devesse ter sessenta e poucos; quando o vi então supus que tivesse quase oitenta; e desde então lhe atribuo maiores idades conforme descubro novas coisas a seu respeito – talvez ele jamais tenha nascido e passe por suas muitas vidas sem jamais morrer completamente da vida anterior.

  Ele não chegou a entrar na água; como todo idoso ele caminhou até a beira da água, como todo idoso abaixou-se para pegar a água e molhar-se nas pernas e braços, como todo idoso contentou-se com isso. A diferença, talvez somente fantasiada por mim, é que ele aparentemente não buscava refresco e consolo.

  O velho voltou de sua incursão tão ausente e lento quanto foi. Deixou a praia e atravessou a rua, e inicialmente o pudor e a discrição me detiveram de buscar seu destino com os olhos. Fiquei na praia sozinho, meus pensamentos tão presentes, minha presença tão rasa – e o estanho impacto do velho ainda presente na areia da praia.

  Daí em diante passei a assistir seu ritual quase diariamente. Alguns dias ele vinha mais cedo, outros dias mais tarde. Muitas vezes vi-o como o avesso das tartarugas que vêm à praia depositar seus ovos; não sei que ovos o velho ia depositar nas águas do mar, nem a que mares distantes se lançava quando voltava de sua missão, quando se perdia às minhas costas na Recife grande, crescente.

  Pouco a pouco o ritual do velho foi-se fazendo meu e eu perdi as antigas vergonhas: tendo-o visto, acompanhava cada movimento seu com os olhos fixos meio perdidos, como se contemplasse as próprias ondas do mar. Não sei ao certo, mas acho que ele nunca me viu.

   Depois deixei de vê-lo. Passaram-se dois, três dias. As coisas já estavam melhores em casa, e acho que o maior sentido de minhas idas à praia era o testemunho do ritual do velho – e passou-se uma semana, e eu percebi e senti a falta, e o velho não vinha.

  Estranhei.

  Na semana seguinte tive outra briga com minha esposa; não sei ao certo por quê brigamos, mas a briga foi feia, e eu saí de casa e fui a um bar, à beira da praia, próximo ao ponto onde sentava e onde o velho ia ao mar.

  Planejava a discussão com minha esposa e minha vitória sobre ela, esperando o tempo passar e os pensamentos clarearem; tomava uma cerveja, ou uma cachaça, não sei. Olhei para o mar à frente, quase indiscernível na noite escura, e pensei que a briga poderia ter a ver com o sumiço do velho. Mas como poderia?

  Cheguei a comentar com o atendente do bar – sabe do velho que ia ao mar todo dia? Não esperava resposta, acho, nem conforto; algo de mim precisava sair, e o velho e sua quietude já não estavam lá, e eu me perdia, e me abri com o atendente como um medíocre traído pela esposa.

  Mas ele sabia; sabia muita coisa.

  Aparentemente o velho sempre morou em Recife; cresceu lá, e viu a cidade crescer lá. Lá brincou, e namorou, e casou e teve filhos. Quando o bar se abriu o velho já era velho, e aposentado, e vivia feliz com sua esposa, devidamente esquecido pelos crescidos filhos. O atendente não tinha contato com ele então.

  A esposa do velho morrera há algum tempo – algo fatal, súbito e inesperado: bom para ela, desastroso para ele. O velho esteve ensimesmado no velório; e no enterro; e no luto; e depois dele, quando já não tinha nome nem lugar seu sofrimento.

  O velho ia ao bar todos os dias (daqui o atendente começou o relato, eu corrigi a ordem porque considero justo), e comia um pão com manteiga que não pagava. Voltava à sua casa, em cuja varanda bebia sempre algo diferente. Lá dormia sentado, até acordar assustado. Ia à praia lavar-se, e voltava à sua varanda, e dormia até a alta noite, quando entrava para dormir noutro canto. Assim foi até a véspera, quando foi encontrado inerte na varanda.

  Balbuciei algo que deve ter soado como desinteresse, visto que o atendente se afastou batendo o pano de prato sobre o ombro.

eu não estava desinteressado.

  Deixei algum dinheiro sobre o balcão e voltei para casa perturbado. Não havia resolvido a discussão ensaiada com minha esposa, mas já não pensava mais nisso. Cheguei em casa sem ter percebido grande parte do caminho.

  Cheguei em casa, joguei as chaves no móvel sem acender as luzes; peguei um copo e uma garrafa de whisky; sentei-me na poltrona da sala, as luzes ainda apagadas.

  Acho que minha esposa não acordou.

  Não sei quanto tempo se passou; não sei dizer se dormi, nem quantas vezes esvaziei, enchi o copo. Sentia algo, um formigamento estranho em meus braços e pernas, como uma dormência, mas mais profunda e inquietante, menos perturbadora e incômoda.

de alguma forma meus braços e pernas eram menos meus, sem que eu o quisesse. Queria reaver-me, reaver meus braços e pernas.

  A ideia veio sozinha. Não sei até que ponto foi uma ideia, acho que não foi – foi um gesto que se fez em mim, como um instinto, como um arremesso vital, biológico. Eu (ou o que quer que seja) levantei da poltrona, abri a porta, saí de casa. Fui à praia.

  Não sei se havia alguém lá – creio que não. Caminhei pela praia sem pressa, sem atenção, sem preocupações; eu era a praia, e era aquele caminho, e era o mar. Minha vida era aquilo, aquilo era eu. As ondas bateram em meus pés como a realização de uma profecia; eu andei ainda alguns passos, até a água chegar a minhas canelas. Meu olhar perdia-se no horizonte, sem olhá-lo, sem focar nem ver nada. Aos poucos eu me abaixei, e molhei minhas pernas e meus braços, vagarosamente; tudo era muito natural, e muito correto.

  Não sei ao certo, mas de alguma forma eu sentia que alguém sentado à beira da praia observava cada movimento.

 

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