A psicanálise e sua excepcionalidade intrínseca

 

Hugo Veigelsberg, um poeta húngaro que publicava sob o nome Ignotus (“desconhecido” em latim), pede a Freud em 1916 que escreva um artigo para a revista literária Nyugat (“Oeste” ou “Ocidente” em húngaro), dirigida por ele e passando por dificuldades no período em função da Guerra. O texto submetido por Freud foi publicado no início de 1917, sob o título ‘A pszihoanalyzis egy nehézségéröl’, publicado pela Standard Edition Brasileira sob o título “Uma dificuldade no caminho da psicanálise”[1].

Trata-se do famoso texto acerca das “três feridas narcísicas da humanidade”. Freud falará nesse breve texto, endereçado claramente a um público amplo, de uma dificuldade que ele considera peculiar à psicanálise – não “no caminho” dela, como quereria a tradução Standard, mas dela. O que seria uma dificuldade da psicanálise? Freud explica que não se trata de uma dificuldade intelectual, ou seja, uma dificuldade para entende-la, mas de uma dificuldade afetiva. No entanto, “os dois tipos de dificuldade, afinal, equivalem-se: onde falta simpatia, a compreensão não virá facilmente” (Freud, 1917, p. 147). Percebemos, então, que não se trata de uma dificuldade da psicanálise propriamente, como se ela mesma tivesse uma dificuldade: trata-se de uma dificuldade com a qual ela confronta quem se encontra com ela, uma dificuldade ao se lidar com a psicanálise. Essa dificuldade é, inicialmente, afetiva, por ser difícil simpatizar com ela, e por derivação é uma dificuldade intelectual, já que as duas coisas afinal se equivalem; por conta disso, e por derivação, será efetivamente uma dificuldade da psicanálise, já que ela terá de lidar com essa dificuldade dos que se confrontam com ela.

O argumento central de Freud nesse texto é já bem conhecido: as pesquisas científicas teriam confrontado o “narcisismo universal dos homens, o seu amor-próprio” (Freud, 1917, p. 149)[2] com três severos golpes: o primeiro, cosmológico, desferido por Copérnico (ao cabo de um longo processo de consolidação da posição, afinal atribuída a ele, segundo a qual a Terra não é o centro do Universo); o segundo, biológico, desferido por Darwin (a quem Freud priva de antecedentes no texto, diferentemente do que fizera com Copérnico e de forma surpreendente, já que é amplamente sabido que teorias evolutivas aparentadas à avançada por Darwin existiam desde a Grécia Antiga); e por fim o terceiro, psicológico, desferido pela psicanálise representada pelo próprio Freud (e que conta com um antecedente, no entendimento de Freud, na obra de Schopenhauer). Três golpes à suposição de centralidade e de auto-referenciabilidade, três deslocamentos, impondo ao “homem universal” o confronto com o fato de que não é dele que a vida, o sentido e a ordem emanam: a Terra não é o centro do Universo, o homem não é o ápice da vida e o Eu não é senhor em sua própria casa. A contribuição da psicanálise, seu golpe ao “narcisismo universal dos homens”, é descrita nos seguintes termos:

Essas duas descobertas – a de que a vida dos nossos instintos sexuais não pode ser inteiramente domada, e a de que os processos mentais são, em si, inconscientes, e só atingem o ego e se submetem ao seu controle por meio de percepções incompletas e de pouca confiança -, essas duas descobertas equivalem, contudo, à afirmação de que o ego não é o senhor da sua própria casa. Juntas, representam o terceiro golpe no amor próprio do homem, o que posso chamar de golpe psicológico (Freud, 1917, p. 152-153).

Essa frase, grifada na própria edição Standard, “o ego não é o senhor da sua própria casa”[3], tornou-se célebre e é repetida com bastante frequência; há, no entanto, algo estranho nela: que casa é essa? Podemos entender, evidentemente, que a “casa” que o ego habita é a vida psíquica, mas justamente por não podermos contar com o ego e com os pensamentos conscientes e organizados como fonte de esclarecimento, teremos que nos contentar com uma noção bastante vaga acerca da “casa” que o ego habita. Pois é claro que, antes de desferido o golpe psicológico de que fala Freud, poderíamos nos referir à “casa” do ego como aquela de que ele era senhor: a consciência, o pensamento consciente e organizado, a lógica, enfim; no entanto, uma vez desferido o golpe, essa casa já não está mais lá: o ego não é mais senhor em sua própria casa, e ainda por cima descobre que sua própria casa ele não sabe qual é. Essa descoberta – feita pelo atônito ego – seria consoante à lógica do nachträglichkeit, da posterioridade ou do a-posteriori: uma dada impressão retroage sobre o aparato psíquico reconfigurando toda a conformação da vida psíquica do sujeito da experiência, que a vive imerso nela mesma e imerso em si mesmo e vendo refluir e sobredeterminar essas fontes heteróclitas de entendimento e impressão.

No texto que temos em mente, no entanto, Freud não vai tão longe: a casa de que fala Freud é, ainda, a do narcisismo, fonte primária de auto-identificação e investimento. O texto de Freud principia justamente com uma explicação sucinta a partir da teoria do narcisismo esboçada dois anos antes, em 1914, no texto “Introdução ao narcisismo”; explica como “no início do desenvolvimento do indivíduo” a libido vincula-se a si mesma, investe o próprio ego (mais que isso, no entanto: ela cria o próprio ego) e somente progressivamente passa a investir objetos externos, regressando eventualmente ao ego; explica como a sanidade depende dessa mobilidade do ego, e como as crianças, os primitivos e os neuróticos padecem de déficit nesse sentido, o que explicaria justamente sua diferença. Nesse contexto fica claro que Freud não “desexiste” retroativamente a casa de que o ego se achava senhor a partir de um efeito nachträglich: ele propõe uma ponderação que promove um domínio mais efetivo, ou um entendimento mais efetivo acerca do domínio possível. Freud chega a encetar um diálogo ponderado com o ego, tentando mostrar a ele como ele se engana em sua convicção de domínio e sobre as benesses de uma postura mais humilde diante do território que ele habita e pretende governar:

O que acontece realmente e aquilo que você sabe são duas coisas distintas. […] Mesmo se você não está doente, quem poderá dizer tudo o que está agitando sua mente, coisas que você não sabe ou das quais tem falsas informações? Você se comporta como um governante absoluto, que se contenta com as informações fornecidas pelos seus altos funcionários e jamais se mistura com o povo para ouvir a sua voz. Volte seus olhos para dentro, contemple suas próprias profundezas, aprenda primeiro a conhecer-se! Então, compreenderá que está destinado a ficar doente e, talvez, evite adoecer no futuro (Freud, 1917, p. 152).

Parece-me claro aqui que não se trata de deixar de ser governante: trata-se de deixar de se comportar como um governante absoluto, na expectativa de poder governar (“conhecer”) melhor. Posto que não há conhecimento absoluto – derrubado pelos golpes desferidos pelos três pesquisadores – o conhecimento que queira merecer esse nome precisaria afirmar-se sobre outras bases, abdicando de sua pretensa centralidade e aprendendo a habitar um terreno acerca do qual não domina as margens e contornos. No texto freudiano, no entanto, isso não significa que não há centro: o centro continua sendo o ego; o ponto em causa, ao menos para Freud, é que se trata então de um ego que não pode supor mais ser o senhor absoluto em sua casa – é necessário, enquanto senhor de uma casa em que não é senhor, ouvir a voz do povo.

A posição de Freud aqui não é aquela professada por muitos psicanalistas, segundo a qual a psicanálise seria uma força disruptiva radical, que afirma ter destituído o ego de sua casa para lança-lo à errância no vazio do universo ou à deriva aleatória das sempre precárias especiações; Freud desfere o golpe psicológico sem pretender a derrubada da morada do “homem universal”, mas sim, pelo contrário, pretendendo auxiliá-lo, anti-maquiavelicamente, a aprimorar-se nas artes do governo por meio da ponderação e da humildade. A metáfora do governante é bastante clara quanto a esse ponto: o governante deve ouvir a voz do povo (deve ser isso que Freud tem em mente quando diz que o ego deve renunciar à sua postura de “só ouvir seus altos funcionários”) e aceitar a diferença entre o que ele sabe e o que acontece para, sabendo que está destinado a ficar doente – i.e., perder o controle de seu governo, deixar seu desconhecimento derrubá-lo – poder justamente evitar adoecer – i.e., não perder o controle de seu governo, não deixar o desconhecimento derrubá-lo. Duas coisas parecem claras, nesse ponto: que não se trata de uma saída fácil, mas que ainda assim se trata de uma saída.

Ainda assim, há no pano de fundo desse texto um acontecimento notável pelo qual a psicanálise assume o protagonismo: o apontamento de uma crise, uma crise difícil de se lidar e com a qual lidamos ainda hoje. A psicanálise teria sido o agente da enunciação: “senhor, o senhor parece não ser mais o senhor em sua própria casa” – e essa é uma colocação acontecimental, transformadora na história desse “homem universal” que é o homem branco europeu moderno. No entanto há de se reconhecer que, ainda que se trate de denunciar essa nudez do soberano ego, e ainda que se trate de apontar a ineficácia dos “altos funcionários” – a lógica, a razão, o pensamento metódico etc – a psicanálise, pela tinta de Freud, representa ainda um trabalho em benefício da soberania do soberano.

 

Recapitulando: Ignotus, o “desconhecido”, pede a Freud que envie um artigo para a revista Nyuvet, “Ocidente”; o texto que Freud envia (e publica) como resposta fala a um público leigo acerca da dificuldade que a psicanálise apresenta, por tratar-se de uma ferida narcísica ao “homem universal”, que descobre que seu ego “não é senhor da sua própria casa”. Isso se passa entre o fim de 1916 e o início de 1917, durante a Primeira Guerra Mundial.

Trata-se, sem dúvida, de um período propício para se falar em feridas narcísicas; ainda que estejamos longe do período das descolonizações, e ainda que nessa época o Império Austro-Húngaro ainda contasse com alguma solidez no imaginário da maioria de seus habitantes (como era o caso de Freud), a Primeira Guerra (que naquele momento evidentemente não era chamada por esse nome nem estava recostada à sombra da Segunda e de seus horrores) fizera pairar uma sombra de preocupação marcada por algum pessimismo e ceticismo; essa postura é retratada com clareza por Gay (1988) na biografia de Freud, mas comparece igualmente em produções teóricas como esse texto de que falamos, algumas de suas conferências proferidas nesse período (onde, inclusive, figuraria outra menção às “feridas narcísicas”, na Conferência XVIII, 1916-1917) e mesmo no belo texto sobre a transitoriedade, de 1916. A Guerra fez pairar ainda uma sombra de incerteza sobre o futuro da psicanálise, considerando que seus representantes mais importantes estavam servindo os exércitos, muitas vezes nos fronts, o “fantasma” de Jung ainda pairava e o próprio Freud lidava com a escassez de movimento em seu consultório (o que escasseava suas condições financeiras, agravando o acesso a víveres e charutos, o que já o incomodaria e deixaria taciturno por si só).

Mais abrangentemente, no entanto, trata-se da primeira grande crise no seio da “senhoria” europeia (lembremos, de passagem, que um dos estopins para a Guerra foi justamente o desentendimento quanto à “divisão” das colônias africanas e asiáticas entre as potências européias); obviamente nunca houve paz reinante e sorrisos de todos os lados na Europa, mas a Primeira Guerra é chamada de Primeira porque mobilizou as potências entre si, de forma deflagrada e “engolindo” suas colônias como parte do campo de batalha. Em se falando da reserva “saudável” de narcisismo, então, vê-se que nesse período as águas onde Narciso se espelha dão os primeiros sinais de turvamento – Narciso, o homem branco europeu moderno, começa a desconhecer-se.

É possível que o leitor suponha uma articulação indevida, talvez excessivamente politizante, pouco razoável. A esse respeito acompanho Said, que em “Cultura e imperialismo” afirma:

Em muito da teoria recente, o problema da representação [do outro] está fadado a ocupar um lugar central, mas raramente é situado em seu complexo contexto político, basicamente imperial. Em vez disso, temos de um lado uma esfera cultural isolada, tida como livre e incondicionalmente disponível para etéreas investigações e especulações teóricas, e de outro lado uma esfera política degradada, onde se supõe ocorrer a verdadeira luta de interesses. Para o estudioso profissional da cultura – o humanista, o crítico, o acadêmico – , apenas uma esfera lhe diz respeito, e, ainda mais, aceita-se que as duas esferas são separadas, ao passo que as duas não apenas estão relacionada, como, em última análise, são a mesma. (Said, 2011, p. 110).

O argumento central de Said é que os impérios europeus (França e Inglaterra, em seu exame, mas aplicável também à Alemanha, Portugal e outros) constituíram um lastro administrativo e militar na sua relação com suas colônias, mas também um lastro cultural e intelectual, que se manifestaria em todas as produções e envolveria tanto uma compreensão intelectual do domínio sobre os dominados, em si, como do tipo de humanidade que se articula através desse mundo imperial.

Said não estende suas teses ao pensamento freudiano, provavelmente porque não abordou o império germânico nem campos como a psicanálise (tendo se mantido restrito à literatura, à poesia, à ópera e ao teatro); não é difícil, no entanto, perceber o quanto a problemática é válida também nesse caso. Afinal, Freud formou-se e viveu em um período marcado pela sanha imperialista na Europa, e por mais que o Império Austro-Húngaro tivesse características bastante distintas em relação aos Impérios francês e inglês, trata-se ainda de um império, que lança mão de uma determinada concepção acerca do governo do outro, de sua subjugação e das razões por que tal subjugação é procedente, correta e mesmo necessária[4]. Em função disso podemos entender que sua menção ilustrativa ao Ego como senhor em sua casa e às melhores maneiras de exercer seu domínio são ilustrativas, não só de seu argumento, mas daquilo que Freud entende como sendo esclarecedor e como estando claro aos seus leitores. Ou seja: supondo não ser claro por si só seu argumento acerca do ego e seu lastro narcísico, Freud recorre à metáfora acerca das estratégias de domínio de um povo por um senhor, que deve poder estar mais perto de seu povo para melhor dominá-lo; Freud supõe que a discussão sobre o ego e o narcisismo pode não estar clara, mas está convencido de que todos entenderão a pertinência e justiça da discussão acerca das melhores formas de governar o outro.

Num outro parágrafo desse mesmo texto Freud apresenta com maior clareza esse ponto:

O que estou tentando descrever neste esboço é a teoria da libido das neuroses, sobre a qual se fundamentam todas as nossas concepções acerca da natureza desses estados mórbidos, paralelamente às medidas terapêuticas para aliviá-los. Naturalmente, consideramos as premissas da teoria da libido válidas também para o comportamento normal. Falamos do narcisismo das crianças, e é ao excessivo narcisismo do homem primitivo que atribuímos sua crença na onipotência das suas ideias e às consequentes tentativas de influenciar o curso dos acontecimentos do mundo exterior pela técnica da magia (Freud, 1917/1996, p. 149).

Essa é a passagem em que, nesse texto, Freud lança mão do recorrente paralelo traçado por ele entre as crianças, os neuróticos e os primitivos (pautado pela ideia de que a ontogênese repete a filogênese – de onde se entenderia por que as crianças agem como os primitivos – e de que a doença imprime uma regressão a modos mais elementares de funcionamento – de onde se entenderia a proximidade entre a patologia, a infância e o primitivo). É importante perceber um movimento implícito, aqui, em que os primitivos devem ser conduzidos ao desenvolvimento ou dominados por um senhor tão firme quanto austero – esse tipo de raciocínio é apresentado praticamente tout court associando a passagem citada agora à passagem sobre o “senhor em sua casa” analisada um pouco acima. Isso não implicaria, evidentemente, em uma desqualificação de Freud ou mesmo em um ataque a ele – implica unicamente que o imaginário imperialista embrenhado na formação cultural e intelectual em meio à qual Freud trabalha mobiliza concepções como essa, de forma que essas concepções operam através da obra freudiana.

Quem são os “primitivos” de que fala Freud? Ele mesmo não o diz claramente, à exceção dos povos mencionados por ele em “Totem e tabu”; no entanto, é relativamente seguro supor que se trata dos povos encontrados pelos europeus[5] conforme aportavam no resto do mundo: povos autóctones americanos, africanos, asiáticos e da Oceania. Os “primitivos” operam como uma categoria genérica, relativamente desprovida de características próprias: são os “não-eu”, aqueles que não subscrevem às condições necessárias para acesso à categoria plenamente humana definida pelos europeus civilizados, científicos e imperiais (com fé [na ciência], com lei e com rei). Os primitivos, como as crianças e os neuróticos, não são contemplados pelo “narcisismo universal dos homens”. Por sinal, como já mencionado em nota de rodapé, a tradução Standard acaba não sendo tão clara quanto o texto original de Freud: Freud se refere ao narcisismo e ao amor-próprio da humanidade, e não ao narcisismo e amor-próprio universal dos homens; na cadência superficial do argumento e na leitura “óbvia e unívoca” essa adaptação não faz diferença, mas quando pensamos que Freud exclui desse narcisismo e desse amor-próprio os primitivos vemos algo mais preocupante emergir: afinal de contas não se está falando apenas dos “povos de antigamente”, mas povos que conviviam com os europeus à época, e o que está em jogo aqui é simplesmente (ainda que implicitamente) a negação de sua humanidade. Os primitivos não teriam sido convidados a fazer parte do grupo da humanidade – eles têm um narcisismo, mas não é o mesmo que sofre os três golpes da ciência: o narcisismo deles é um narcisismo excessivo [“überstarken”], vinculado a crenças mágicas e onipotentes, que teria passado alheio aos golpes e por isso teria deixado de se beneficiar dos ganhos em controle, autoconhecimento e progresso associados a eles. Os primitivos, por fim, serão compreensivelmente dominados pelos homens de ciência, pela humanidade plenamente desenvolvida e adulta, para que possam ser austera mas firmemente conduzidos ao progresso e às luzes da razão.

 

A dificuldade da psicanálise remete diretamente ao caráter inquietante e perturbador que ela porta consigo, particularmente em relação a esse senhor absolutamente seguro de seu governo. Não tenho dúvidas de que a psicanálise porta esse potencial perturbador consigo, e que ele habita a psicanálise; não estou tão seguro, no entanto, de que esse elemento perturbador opera sempre que há psicanálise em jogo. Parece-me que ao longo do “caminho da psicanálise” ela foi construindo para si uma “casa” a partir de onde pudesse ser reconhecida como algo específico, definido, estável. Esse lar inclui essa consideração de si mesma como algo difícil, de forma que a psicanálise passou a entender-se fazendo recurso a essa dificuldade que ela porta consigo, e me parece que ao longo de sua história essa referência auto-identitária pode ter servido, entre outras coisas, para domesticar esse elemento “difícil”.

O texto de Freud fazia menção a uma dificuldade “da” psicanálise, que dizia respeito à dificuldade de entende-la e de relacionar-se afetivamente com ela – enquanto verdade. Isso porque ela remeteria a essa “ferida narcísica” da “humanidade”, que tem que reconhecer agora que não manda nem mesmo em sua auto-consciência. Nesse cenário a psicanálise pode muito bem ser esta que porta uma dificuldade, como afirma Freud, através do “Desconhecido” que leva essa notícia à revista “Ocidente”; mas pode também ser a representante de uma dificuldade que ela reputa como incontornável, e que sustenta diante da “senhoria” justamente com o propósito de oferecer a esta o melhor serviço disponível. A diferença, como se deve perceber, é crucial: a psicanálise pode ser compreendida como “subversiva”, mas pode também ser compreendida como denunciadora de algo perturbador na situação do reino, não por seu pendor subversivo, mas justamente por sua dedicação aos interesses do reino. A psicanálise pode ter percebido que um governo excessivamente confiante em si mesmo pode levar ao descontrole sobre as terras governadas, pode fazer com que a senhoria não controle mais a própria casa. Se o “Eu” não escutar além de seus altos funcionários, se não se abrir ao desconhecido, terá de lidar com a perda de controle: revolta na senzala, independência das colônias, insubordinação dos governados.

Não me parece que o melhor caminho seja “escolher um time”: pró-psicanálise ou anti-psicanálise, membro da psicanálise “subversiva” ou “dominadora”. Acredito, a bem da verdade, que não se tratam de duas coisas opostas e incomunicáveis, uma bifurcação inevitável para se entender o que a psicanálise é e faz; acredito que se trata, aí sim, de uma dificuldade da psicanálise, algo de paradoxal e perturbador que ela porta consigo; e ainda se trata, por derivação, de uma dificuldade que a psicanálise encontra em seu caminho, algo que ela deve manejar de forma a não ter seu caminho atrapalhado por esse inconveniente que é ela falar dessas inconvenientes coisas inconscientes (e por ser seduzida a manejar retoricamente esse inconveniente de maneiras argumentativamente improcedentes, no velho golpe do “caras eu ganho, coroa você perde”).

Nesse último caso, enfim, estaríamos falando da tal “dificuldade no caminho da psicanálise” que Strachey sugere[6]: a psicanálise, enquanto movimento e disciplina, tem uma dificuldade em seu caminho, que é o fato de erguer-se enquanto representante dessa terceira ferida narcísica – o que constitui um inconveniente a ser manejado em termos business. Como já mencionado, Strachey inclui de forma completamente arbitrária o “caminho” no título do texto – no original húngaro, na publicação em alemão e na primeira publicação independente em inglês, o título do texto se refere a “Uma dificuldade da psicanálise”.

Cabe notar, ainda que seja um desvio, que Strachey inclui arbitrariamente um “caminho” nesse texto e, no mesmo volume XVII, ele embaralha o termo em um título curiosamente elíptico, traduzindo “Wege der psychoanalytischen therapie” por “Turnings in the ways of psychoaanalytic therapy” (onde o “Turnings” é absolutamente dispensável). A edição brasileira Standard contribuirá para a confusão, intitulando o texto “Linhas de progresso na terapia psicanalítica”. É fácil supor que Strachey se ocupa do texto acerca da “dificuldade da psicanálise” como um texto referido aos percursos e itinerários da psicanálise no imaginário e nas instituições, de forma que sua inclusão do termo “caminho” é justificada em virtude dessa perspectiva de leitura. Freud estaria falando de uma dificuldade na compreensão da psicanálise e ao se lidar com ela, ao passo que Strachey compreende que o texto lida estrategicamente com as resistências e ataques à psicanálise enquanto disciplina e ciência já compreendida (no sentido de já estar inserida no imaginário). Em relação ao texto de 1918 referido à terapia psicanalítica, o ocorrido teria sido o inverso: Freud estaria tratando de perspectivas estratégicas e disposições táticas da terapêutica psicanalítica em vista de sua inscrição social, ao passo que Strachey estaria “compactando” o texto em uma contextualidade específica, discretamente circunscrevendo-o e limitando seu caráter afirmativo e programático – a expressão “Turnings in the ways” alude a equívocos, a turbulências e a turvamentos, elementos completamente ausentes da evocação potencial do título sob a pena de Freud.

É evidente que flertamos, a essa altura, com a especulação: o próprio Strachey certamente não subscreveria a essa interpretação e, não havendo outra fonte de confirmação, estaríamos no terreno da opinião. O ponto, independente da precisão e correção das hipóteses aventadas, é que o recurso às “dificuldades” e ao “caminho” da psicanálise não é desprovido de ambiguidade: é possível recorrer a essa “dificuldade” como uma plataforma retórica polivalente, protegendo a psicanálise de confrontações, justificando seus percursos e manobras e engrandecendo suas conquistas. Considerando que a psicanálise configura, entre outras coisas, um conglomerado de profissionais, esse tipo de plataforma retórica pode se prestar a utilizações com fins de proteção societária – “business as usual”.

Nesse sentido, o que me parece acontecer com frequência é que essa suposta dificuldade se tenha convertido em trunfo, com a psicanálise e os psicanalistas falando dessa dificuldade e dessa subversão como forma de sustentarem a peculiaridade e o caráter especial de sua prática e sua disciplina. Afinal, se há, sim, muitas terapias e muitos saberes sobre a alma, não há nenhum outro que se alinhe a Copérnico e Darwin enquanto agentes de feridas no narcisismo da humanidade.

Nesse contexto, no entanto, sobrepõem-se considerações de ordens distintas, e isso acaba gerando uma boa parte das dificuldades com que lidamos aqui. A dificuldade da psicanálise torna-se, num olhar mais detido, muitas dificuldades.

Em primeiro lugar, tratar-se-ia da dificuldade explícita e claramente referida por Freud: a psicanálise representaria uma descoberta narcisicamente inquietante para o homem branco europeu moderno, que teria de poder lidar com essa dificuldade para beneficiar-se da psicanálise ou, ao menos, aceita-la enquanto ciência.

Desdobrando-se daí, no entanto, trata-se da dificuldade explícita e claramente referida por mim: Freud não se refere ao homem branco europeu moderno, como eu, mas a um homem “universal” [ou à humanidade] – a dificuldade para o “narcisismo universal dos homens” diria respeito a um homem universal, e seria dele que Freud falaria. Aqui se trataria, então, de pôr sob suspeita os vínculos da psicanálise com o etno-falocentrismo: um saber enraizado na naturalização de um homem, europeu, branco como centro do narcisismo “universal”. Aqui se trataria, ainda, de uma preocupação potencialmente “disciplinar”, referida às concepções historicamente datadas a que Freud se aferraria ou vincularia (sem demérito algum a ele, considerando que o propósito aqui não seria avaliar o valor do pensamento ou do homem, mas a sua vinculação, na constituição de uma trajetória argumentativa, em relação ao contexto que o acolhe).

Esse problema complica-se, no entanto, na medida em que o argumento de Freud inclui uma consideração quanto à aceitação e ao lugar ocupado pela psicanálise na sociedade que a acolhe – e aqui nos aproximamos das considerações que referi à figura de Strachey enquanto representante do uso “business” do tropo retórico da dificuldade. A dificuldade poderia prestar-se (como frequentemente aconteceu e acontece) a funcionar como instrumento retórico na justificação da posição ocupada pela psicanálise ou mesmo na construção de uma estratégia de defesa dos lugares ocupados ou pleiteados por ela. Aqui estaríamos tratando da maneira como a fundação “científica” de um coletivo disciplinar específico defende seus interesses, valendo-se de uma apresentação intencional do objeto de que trata como fundamento para a consolidação de estratégias e táticas em contextos sociais.

A partir da análise que empreendemos até aqui, por fim, delineia-se uma leitura intencional acerca dos riscos de manipulação retórica por parte da comunidade psicanalítica científica: haveria, por um lado, o recurso à “dificuldade” da psicanálise como forma de compreender sua trajetória e lugar na história, como um elogio às suas virtudes e à grandeza de seus feitos e conquistas. A dificuldade da psicanálise, assim, seria o fio articulador do épico que narra a história da psicanálise – sua luta contra as resistências do “narcisismo universal dos homens”, em nome da ciência e do progresso da “humanidade”; isso situa a psicanálise em um lugar distinto daquele ocupado por outras práticas “psi” e mesmo em relação a outros saberes “de humanas”, já que confere um tom grandiloquente e único à psicanálise. Por outro lado, em articulação com esse, mas prestando-se a outros fins e contextos, a “dificuldade” da psicanálise pode ser mobilizada como uma espécie de “justificativa a priori” para todo deslocamento da psicanálise em relação ao lugar de verdade, correção, efetividade e domínio – em resumo, pode-se tomar a “dificuldade da psicanálise” como um coringa, explicando tudo que, podendo ser esperado ou atribuído à psicanálise, deixa de acontecer em termos ideais. A situação, nesse último ponto, é tão simples como é preocupante: psicanalistas recorreriam a seu efeito no “narcisismo universal dos homens” como mantra, “normalizando” quaisquer trajetórias não-ideais em função dessa excepcionalidade intrínseca.

 

A descoberta fundamentalmente perturbadora e revolucionária que foi a psicanálise, a circunscrição de direito dessa descoberta, as maneiras de acessar sua história “interna” e as vicissitudes de sua história: temas heteróclitos, inextricavelmente articulados na retórica da “ferida narcísica”.

Considero pertinente e interessante que se possa seguir a pista indicada por Freud em seu texto, avaliando o impacto e os detalhes da contribuição da psicanálise à história das ideias. Creio, nesse campo, que há espaço para avanços, já que muitas das pesquisas e publicações em história da psicanálise tendem a ratificar mitos e/ou a narrar os acontecimentos isolando a psicanálise de seu contexto, bem como isolar Freud da comunidade de que ele fazia parte. Quanto ao segundo ponto, ligado à “dificuldade” da psicanálise referente ao eurocentrismo, acredito tratar-se igualmente de tema sensível e importante, sendo abordado de muitas maneiras – com um destaque importante, em meu entendimento, para o pensamento a respeito desse ponto sendo desenvolvido no Brasil e dizendo respeito à relação da psicanálise com questões de raça e classe. É o terceiro ponto ligado à “dificuldade”, no entanto, que tange diretamente nossa pesquisa, na medida em que é por aí que passam as “normalizações”, inflacionamentos e distorções acerca do estatuto da práxis psicanalítica.

Preocupa-me, sobretudo, um ponto: trata-se do risco de os psicanalistas considerarem que sua práxis clínica é, a priori e naturalmente, subversiva. Profissionais poderiam dizer, então, que o que fazem no consultório é revolucionário, inquietante, transformador, é algo profundamente efetivo e eficiente política e socialmente, na medida em que se trata da reiteração dessa “ferida no narcisismo universal dos homens”.

Sempre que isso é feito – e isso é feito com frequência – toma-se uma afirmação referente ao lugar da psicanálise, enquanto descoberta e no âmbito da história das ideias no Ocidente, como aplicável às condutas de profissionais filiados ao movimento derivado dessa descoberta. Considero esse movimento improcedente, tanto em termos lógicos como em termos políticos. Isso não significa, evidentemente, que estou dizendo imediatamente o oposto: que a psicanálise seria o oposto disso (conservadora, reacionária, adaptacionista ou o que quer que seja); o ponto é simplesmente que as afirmações de Freud não se referem ao impacto da práxis clínica psicanalítica e ao estatuto desse impacto, dizendo respeito estritamente à inscrição lógica da psicanálise e à aceitação de seus postulados no “narcisismo universal dos homens” (o que se refere, em meu entendimento, à “história das ideias no Ocidente branco”, onde a psicanálise efetivamente assume um lugar de destaque e com reverberações profundas e contundentes).

Em outras palavras: como disse, Freud endereçou seu texto inicialmente à revista “Ocidente”, a convite de um poeta que se auto-intitulava “Desconhecido”. O que me incomoda, em geral, é que os psicanalistas lancem mão desse texto retirando-o de sua destinação inicial, estendendo-o à clínica, estendendo-o ao universal, usando-o como uma espécie de carta de grandeza narcísica a ser apresentada a qualquer opositor ou questionador como uma espécie de salvo-conduto coringa. E o meu ponto principal de interesse aqui é, mais especificamente que isso, que não se pode derivar desse ambiente retórico a assertiva segundo a qual a psicanálise é intrinsecamente perturbadora e subversiva – não se pode dizer que os psicanalistas e a prática deles é a priori perturbadora e subversiva no contexto em que vivem e atuam.

 

Notas:

[1] Farei referência, algumas vezes nesse texto, à publicação em alemão desse texto. Em função de tratar-se de domínio público encontrei-a online, no site http://freud-online.de, acessado em 14 de setembro de 2017.

[2] Nesse ponto a tradução Standard desvia da tradução óbvia: Freud se refere claramente à humanidade, “Menschheit”, e não “aos homens”, que seria “die Menschen”. Retornaremos a isso adiante.

[3] Convém notar que a tradução oferecida pela Standard, nesse ponto específico, é bastante fiel ao original alemão e pouco sujeita a controvérsias: “das Ich nicht Herr sei in seinem eigenen Haus” é literalmente “o eu [ou Eu, ou Ego] não é senhor em sua própria casa”.

[4] Não convém entrar no detalhe acerca desse ponto, mas Said aborda a forma como os impérios compreendiam seu imperialismo como procedente e, mais que isso, como uma obrigação moral, em função das responsabilidades que advém de sua superioridade natural.

[5] Haverá ainda uma subversão importante imposta por Freud a essa leitura unívoca, através de “Moisés e o monoteísmo”, onde ele promoverá uma torção e um hiato no mito originário do europeu civilizado judaico-cristão – e é bom notar que esse movimento não escapa a Said, que expõe esse ponto com clareza em “Freud e os não-europeus”. No entanto, como já disse, a ideia não é trabalhar contra Freud, e por isso mesmo entendo não ser necessário defende-lo.

[6] O título do texto em questão na pena de Strachey só pode ser entendido como obra dele, já que Freud não deixa espaço nenhum para esse “caminho” que ele inclui no título na edição Standard: “Ein schwierigkeit der psychanalyse”, no original em alemão, é inequivocamente uma dificuldade da psicanálise, e não há menção alguma a um “caminho”; Strachey baseia-se, por sinal, na primeira tradução em inglês do texto, publicada em 1925 nos Collected Papers, onde o título do texto era “A difficulty of psychoanalysis” – “Uma dificuldade da psicanálise”.

Um comentário em “A psicanálise e sua excepcionalidade intrínseca

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