Marvels: superpsicanalistas, autores canônicos e reles mortais

Dedico esse texto a quem teve aula comigo e a quem fez e/ou faz supervisão comigo – porque eu respeito muito vocês, e porque vocês me inspiram.

 

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Todo mundo sabe que Freud explica; não só porque é o que diz o dito, mas porque tá na boca do povo: Freud, e a psicanálise que ele criou, são parte do imaginário popular, e são objeto de fascínio e estudo, são temas cultivados e percorridos de forma tanto profissional como amadora. Evidentemente, no entanto, quem “explica tudo” não é Freud, e quando recorremos ao dito popular não estamos nos referindo a um pendor “sabichão” e explica-tudo de Freud-ele-mesmo (ainda que ele tivesse esse pendor), mas sim à ideia de que a psicanálise que ele criou se dispõe a oferecer uma grade compreensiva que não recua ante o desconhecido – ou, inversamente (o que dá no mesmo) que se reconhece como aquilo que se propõe a conhecer o desconhecido.

Não é de espantar, então, que haja tanto interesse pela psicanálise, e não é de espantar que a psicanálise seja um objeto de fascínio entre estudantes de Psicologia ou entre psicólogos recém-formados. Tive a oportunidade de ensinar psicanálise num curso de graduação em Psicologia recentemente, e realmente não me espantei com o interesse, com a perturbação e o deslumbramento dos alunos diante desse fascinante campo fundado por Freud.

Mas me espantei (e preocupei) com a forma como o mergulho desses alunos no campo, instigado por esse fascínio, reverberou num maquinário midiático da psicanálise nas redes sociais; me espantei e preocupei com a proliferação de ídolos, de ensinos, de mestres e palavras de ordem que esses alunos encontraram; me espantei e preocupei com a forma como essa psicanálise, brilhante e espetacular, fascinou-os e, tendo-os fascinado, seduziu-os e, enfim, cativou-os.

Fiquei preocupado, estive e estou preocupado com isso: entendo que, ao ser um trabalho com os limites do que se sabe e do contato com o não-saber, a psicanálise pode ser uma arte e um ofício dos mais singelos, reveladores, transformadores, pode ser um trabalho formidavelmente ético e transformador; mas pode também, e pelas mesmas razões, ser justamente o contrário. E tenho percebido que algo difícil e sofrido se passa quando os jovens estudantes de Psicologia ou psicólogos recém-formados deparam-se com essa brilhante e espetacular psicanálise que prolifera pelas redes, livrarias, cursos, escolas, ensinos, todo esse espetáculo da erudição psicanalítica; isso que se passa nesse encontro pode ser uma adesão compacta do aprendiz a essa sabedoria toda, ou pode, pelo contrário, ser uma submissão humilhada e inferiorizada – e nos dois casos trata-se de algo difícil e sofrido.

Normalmente se usa o singular quando se fala da psicanálise: o que a psicanálise é ou faz, alguma peripércia ligada à psicanálise, ensina-se, critica-se, defende-se, condena-se a psicanálise. Já é notícia velha, no entanto, a pluralidade dessa singular coisa: quem fala da psicanálise fala de uma psicanálise, havendo outras, sendo mesmo muitas as psicanálises, muitas as coisas e trajetos a que se pode referir. Todos trajetos, evidentemente, partindo de um tal Sigmund Freud, um médico que trabalhou na Europa entre 1880 e 1939, mas de lá até aqui esses trajetos tomam rumos bem variados – muitas das coisas que se diz sobre psicanálise são francamente incoerentes e contraditórias entre si, pelo simples motivo de que são coisas diferentes de que se fala, mas o nome pra todas essas várias coisas é “psicanálise”, em geral sem qualificação posterior. Por isso, então, psicanálise é um nome que se disputa – há projetos de psicanálise, um pouco como há projetos de Brasil, sendo disputados através de injunções e estratégias retóricas, ideológicas, políticas.

Tenho me inquietado com as consequências dessa dinâmica para pessoas menos confortavelmente instaladas: os egressos dos inúmeros cursos de psicologia que abrem seus consultórios em meio a angústias e inseguranças (e dificuldades financeiras), os interessados em uma “formação” mergulhados nos sites e panfletos das diversas instituições, os profissionais clínicos pouco hábeis no “networking” e no “self-marketing”, lutando para manter o consultório vivo; também com as consequências “do outro lado” para os menos “afortunados” do outro lado do divã (os pacientes), muitas vezes sem saber a diferença entre psiquiatria e psicologia, ou sem imaginar que haveria grande diferença de natureza entre uma análise e um tratamento psicológico não-psicanalítico; e, por fim, com as consequências disso para o mapeamento, a sistematização e a proposição de frentes claras de pesquisa em psicanálise que não sejam tomadas pelas diversas querelas, cisões, jargões e particularidades fracionando o pensamento sobre a psicanálise.

Esse, então, é o horizonte de que quero tratar nesse texto. Quero falar das relações estabelecidas no contexto psicanalítico entre os ingressantes e iniciantes, por um lado, e os autores de referência, de outro. Quero falar do lugar ocupado pelos “super-psicanalistas” (profissionais de destaque midiático, de ensino e/ou editorial) e dos autores canônicos (psicanalistas adotados como referência no horizonte da transmissão e da práxis clínica, como Freud, Klein, Winnicott, Lacan) para a formação e a atividade cotidiana dos psicanalistas “comuns” (aqueles envolvidos “tão somente” com o cotidiano de sua prática clínica, em termos do rigor, da eficácia, da validade e da viabilidade prática).

Envolvo-me em discussões acerca da influência dos autores canônicos na formação do psicanalista, na presença da política na psicanálise e outros temas que tenho pesquisado, acima de tudo, porque me interessa pensar a pertinência da psicanálise, sua atualidade; preocupa-me pensar que essas discussões possam se fechar em si mesmas, e virar uma especialidade de pesquisa esotérica e distanciada do mundo. Preocupa-me porque me parece incoerente: é como se pessoas querendo pensar numa política que promova mudanças e faça diferença política fossem aos poucos se fechando em seu debate, se acomodando em suas cadeiras, se ocupando com as minúcias de seus argumentos, e a política aos poucos fosse se esquecendo dessas pessoas e transcorrendo independentemente delas.

No caso do debate psicanalítico, no entanto, há um ponto importante a se considerar: essas pessoas que se envolvem nesse debate esotérico são atentamente ouvidas por todos aqueles em seus consultórios, às voltas com suas formações e clientelas e contas, às voltas com seus cotidianos e pacientes e com seu dia a dia; essas pessoas se voltam para esses grandes pensadores e acompanham esse grande debate, e se interessam e lutam para se manter a par do que está sendo discutido, entendendo que o que está sendo discutido ali lhes diz respeito. Lutam para se manter a par, porque sabem que aquilo pode ajudá-los a entender o que estão fazendo em seus consultórios, em suas formações e em suas análises, cotidianamente. Mais que isso: lutam para se manter a par porque sentem que precisam se manter a par, porque isso vai fazer diferença para sua sobrevivência e a de seus consultórios, e porque sentem que têm que entender aquilo se quiserem ser competentes no que fazem.

O que me preocupa nesse cenário é que essa disjunção (entre as preocupações e endereçamentos dos “grandes” e a absorção atenta de seus discursos pelos “pequenos”) não é grave ou errada do ponto de vista dos pensadores ou dos pensamentos desses pensadores, mas não vai resolver as questões com que os psicanalistas se defrontam em seu cotidiano, e gera inquietação (e limitação de pensamento) nesses psicanalistas conforme eles sentem que isso deveria ter acontecido – como se fosse falta deles e pesasse contra suas clínicas se eles não entendem, acompanham ou se sentem contemplados pelos debates acerca dos fundamentos, da natureza, das matrizes, da formalização da psicanálise.

A grande dificuldade nessa discussão, evidentemente, é o enorme risco de equívoco ao formulá-lo: não quero dizer que “falta pragmatismo”, nem que “falta senso de realidade” ou “engajamento” ou nada do tipo no debate que tenho em vista – de fato não entendo que se trate de nada disso. Mas me parece, efetivamente, que há uma disjunção entre os termos em que o debate se dá e sua inscrição na trama que acolhe a psicanálise enquanto coisa socialmente ativa – os consultórios, os psicanalistas, as pessoas que os procuram, os debates nas cozinhas dos consultórios, as redes de encaminhamento, os encontros que por aí se dão: a psicanálise enquanto práxis.

Nesse texto trato dessas questões: do que os intelectuais e grandes personalidades fazem, de suas estratégias e táticas, e da relação disso com a população de jovens candidatos a psicanalistas e psicanalistas em inícios de suas práticas. Recorrerei ao imaginário de uma série em quadrinhos chamada Marvels.

Marvels:

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Marvels foi lançada como uma série de quatro revistas em quadrinhos, em formato graphic novel, em 1994. Narrada do ponto de vista de Phil Sheldon, fotógrafo jornalístico de Nova Iorque, a história retrata o surgimento e as aventuras dos heróis do universo Marvel ao longo dos anos entre 1939 e 1974, com a trama centrada em Nova Iorque (onde vive o protagonista Phil Sheldon e boa parte dos heróis Marvel: Demolidor, Homem Aranha, Quarteto Fantástico, Justiceiro e tantos outros). Os heróis são chamados na série de “Marvels”, ou “Maravilhas”[1], dando notícia do deslumbramento diante deles. Um dos aspectos interessantes é que Phil Sheldon, o narrador, se vê fascinado e perplexo diante dos fenômenos extraordinários que se desenrolam e se pega ponderando alternadamente as posições de seus colegas humanos mais entusiásticos, que adoram e admiram as maravilhas, e as posições dos críticos, que se irritam com as maravilhas, sua destrutividade e indiferença às leis e à vida dos cidadãos comuns. Sheldon, sem se decidir por uma postura pró ou anti-maravilhas, faz de certa forma a função do “cético benevolente” freudiano: pondera, se inquieta, tenta entender, como pode. A grande diferença entre o ceticismo benevolente de Sheldon e do interlocutor de Freud em “Análise leiga” é que, no caso de Sheldon, ele é obrigado a pensar sozinho: as maravilhas não descem ao asfalto para discutir com ele (nem com ninguém).

Achei a série fantástica quando a li; nunca tinha pensado nas coisas por esse ponto de vista: você lê os quadrinhos e vai acompanhando as desventuras do super-herói, voando entre os prédios, apanhando de super-vilões, salvando o mundo e tudo isso… e nunca imagina como deve ser caótica a vida do povo lá em baixo, tentando ir ao trabalho, pagar as contas e cuidar da própria vida sem ser transformado em sapo, sem ter que fugir de alienígenas, sem ter que se preocupar com a chance de um super-herói, arremessado por um super-vilão, destruir sua casa. Nunca tinha pensado nisso até ler Marvels.

Quero convidar-nos a pensar sobre os pontos que elenquei no início dessa introdução a partir do imaginário de Marvels. O que quero propor é uma reflexão sobre os deslumbramentos, encantamentos e fascinações da psicanálise; quero tentar entender como os “maravilhosos” debates encetados por intelectuais e grandes personalidades da cena psicanalítica organizam alguma coisa, e cumprem uma certa função, mas afastam-nos de algo, tornando as coisas menos claras e mais complicadas. Se os heróis são ídolos inacessíveis eles paralisam seus admiradores em uma posição de submissão ou (talvez pior) imitação cega.

Deslumbramentos: a grandeza dos grandes e a maravilhada submissão (futura imitação) dos pequenos

Tenho um hábito, quase um vício, de circular entre territórios, e por isso tenho certa evitação fóbica à perspectiva de ser etiquetado; mas fui me habituando à ideia de que a psicanálise é, de alguma maneira, meu lugar: sou psicanalista. Mais que isso, fui percebendo que sou um tipo específico de psicanalista – o tipo que estabeleceu a Universidade como ponto de referência, circulando entre instituições, centros de formação e experiências de transmissão, prescindindo da necessidade de vincular-se a um lugar ou a outro (além da Universidade). Parece-me claro, hoje, que pudemos fazer isso (eu e os demais psicanalistas com essa trajetória) porque tivemos a guarida da Universidade, de onde tirávamos grupos de amigos, redes de confiança, experiências de gratificação, redes de encaminhamento de pacientes e tudo o mais que se faz necessário na vida de um psicanalista.

Foi a partir desse lugar – de psicanalista fortemente vinculado à Universidade – que passei a me interessar pela problemática das filiações. Como bom filho da USP, em pouco tempo senti-me habilitado a criticar as limitações e a apontar os problemas dos grupos que conhecia – desde a famigerada IPA, passando pelos grupos lacanianos, winnicottianos e quaisquer outros: tudo que me passasse pelas vistas era, em algum lugar ou medida, reacionário, limitante, incoerente, inconsistente, aprisionante ou alguma outra coisa. É claro que, em meu entendimento, não era a USP que me dava a chancela para esse tipo de comportamento: era a fineza e agudez de meu próprio pensamento crítico, que divisava com seu poder de raio-X os pontos fracos de tudo que eu visse. Não estou falando dessas coisas (só) por algum pendor ao auto-flagelo ou martírio, nem por algum tipo de expectativa de redenção; estou falando dessas coisas porque entendo que não fui, e não sou, o único que passou e passa por isso. É difícil ser alguém, e particularmente difícil ser alguém enquanto somos torpedeados por alguéns que são super-alguéns, é difícil conviver com a demanda de sermos mais que os alguéns que somos; parece-me frequente que nos erijamos, com fantasia e tudo, em super-alguéns. Isso não é exclusividade da USP, mas é relativamente comum por lá, onde convivemos com o imaginário da instituição criada para ser o berço da elite intelectual do país.

Um bom nome para isso é arrogância, evidentemente; mas há mais em jogo, até onde posso ver. Isso porque essa dinâmica vai fazendo com que, aos poucos, esses “super-críticos” vão aos poucos se erguendo acima dos qualquer-uns, vão acreditando que estão entendendo o que vai realmente mal com o mundo, onde realmente estão os super-vilões, e o que é possível (necessário) fazer para salvar o mundo. Visões de raio-X passam a ser usadas para ler as entranhas das pessoas e das instituições, para penetrar seus segredos e histórias, diagnosticar sua situação e vaticinar o que tem que ser feito.

Esses super-heróis, do alto de suas super-formações e usando seus super-poderes, vão entendendo e revolucionando e salvando o mundo, seguidamente, sem se surpreender (ou mesmo perceber) que na prática o mundo não está sendo salvo: diversas vezes ao longo da série Marvels vemos que, quando os super-heróis terminam seus heroísmos, o que resta não é bem o alívio por termos sido salvos, mas também, e sobretudo, uma pilha de escombros, casas destruídas, carros pegando fogo, há gente assustada e machucada nas calçadas e ambulâncias; os super-heróis, tendo super-salvado o mundo, evidentemente não se envolvem muito com esses pequenos inconvenientes que eles geram.

Fascinações: os super psicanalistas, os autores canônicos e os circuitos fechados de pensamento em psicanálise

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Uma das coisas difíceis nessa situação é que não podemos deduzir a partir dela que não queremos mais super-heróis e nos prontificar a destituí-los de seus super-lugares. Phil Sheldon, protagonista da série em quadrinhos, se depara com esse imbróglio mental diversas vezes: por mais que os humanos possam se desesperar e revoltar com a situação, por mais que queiram recriminar os super-heróis e tirá-los de cena, eles simplesmente não conseguem. Pior que isso, eles têm que lidar com a sensação de que se os super-heróis não tivessem estado ali a coisa teria sido pior – além dos escombros e casas e carros e fogo e pessoas sangrando, talvez algum ET ou super-vilão tivesse destruído a vida na Terra e etc etc.

Pode-se, é claro, supor que se os super-heróis não tivessem aparecido para começo de conversa, talvez não tivessem havido ETs e super-vilões; mas o que se ganha com esse tipo de ilação? Uma vez que os super-heróis foram vistos, e foram vistos por algumas pessoas como super-heróis, e uma vez que se estabeleceu como “fato” que os super-heróis são os indicados para repelir alienígenas e super-vilões, há de se lidar com isso – e qualquer tentativa de lidar com a sujeira e os inconvenientes que os super-heróis promovem tem de incluir esses “fatos” no cálculo. Há de se lidar, portanto, com o duro e injusto fato de que esses super-seres, com seus super-poderes e sua super-presunção, estão lá, e o que eles fazem é feito, e parece que não há como criar um mundo onde isso não seja mais feito[2].

Esses problemas, ligados aos super-seres e os super-inconvenientes derivados do fato de eles existirem, transcende o campo dos brancos voadores de collant brilhante. Os dilemas corporativo/teórico/clínicos da psicanálise, por exemplo, e particularmente no papel dos autores canônicos na organização da psicanálise, remonta a esse super-imbróglio – pelo simples fato de que olhamos para cima em busca de nossos super-heróis, e entendemos que eles organizam nossas vidas e garantem que estamos sãos e salvos em nossos consultórios, protegidos sob seus olhares vigilantes. Entendemos que esses super-heróis – que, em nosso entendimento, não são gente como a gente – são necessários, incontornáveis e inevitáveis para que haja dia a dia e segurança em nossas práticas clínicas.

Há dois pontos distintos aqui, relativamente autônomos entre si mas interagindo dinamicamente: um deles diz respeito aos “super-psicanalistas”, outro diz respeito aos autores canônicos. Autores canônicos são aqueles que desenvolveram um sistema de pensamento psicanalítico, sob os quais podemos nos colocar em busca de segurança teórica, técnica e clínica em nossos cotidianos: Freuds, Kleins, Lacans e Winnicotts. Além deles há os “super-psicanalistas”, que são os grandes nomes da psicanálise, celebridades de nossos meios, fazendo intervenções retumbantes em eventos, aulas, cursos de formação e redes sociais. Até onde posso ver todo autor canônico foi, em maior ou menor medida, um “super-herói” em seu tempo, mas a recíproca não é verdadeira: houve “super-psicanalistas” que não foram canonizados, e creio que continuará havendo. O tema que nos interessa aqui acima de tudo é o dos super-heróis e de seu papel na implementação cotidiana da psicanálise enquanto práxis.

Há um ponto importante de superposição desses temas, no entanto, que é necessário (ainda que brevemente) abordar aqui: o papel dos “super-psicanalistas” na eternização do lugar dos autores canônicos na organização do debate. Dito de outro modo: há um virtual consenso tácito a respeito da necessidade de se arvorar a formação sob os auspícios de um autor canônico específico: você há de ser winnicottiano, ou lacaniano, ou freudiano, ou kleiniano, ou bioniano[3]. Segundo esse virtual consenso tácito, não se arvorar sob um autor canônico é ser eclético, ou é temerário, ou é charlatanismo puro e simples.

Os Universitários, que figuraram na nota de rodapé, complexificam um tanto essa situação, mas não chegam a transformá-la em sua natureza: encontramos adeptos da psicanálise pós-escolas, da psicanálise contemporânea, defensores de articulações específicas (Freud-Lacan-Winnicott, Ferenczi-Winnicott, Klein-Winnicott e outras, certamente outras). Essas articulações, complexas e sofisticadas, acabam se tornando representadas por um “super-psicanalista” específico que vai, aos poucos, se tornando canônico. Parece-me que é isso se passou com Bion no passado, com André Green mais recentemente e aos poucos vai se passando com autores como Ogden ou Figueiredo: é assim que se criam novas ramificações na cena autoral-canônica, ao que tudo indica. Num contexto como esse as diferenças continuam existindo, mas passam a se dever a fatores secundários: zonas recobertas por um autor canônico claro e organizado, representado por instituições estabelecidas e administrativamente bem regimentadas geram mais sombra e arvoram mais gente do que regiões confusas, nebulosas, defendidas por gente pouco propensa à liderança e corporativamente pouco estabelecida – ainda assim, o fenômeno de base parece ser o mesmo.

Encantamentos: lugares relativos e movimentação possível no contexto instaurado

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Deixemos de lado, por ora, os ramos e os cânones, e voltemos ao asfalto (aos consultórios, no caso). Gente como Phil Sheldon, na luta para sobreviver ao dia a dia, precisa encontrar uma maneira de lidar com o fato de que os super-heróis estão aí, e com eles as super-lutas e os super-acontecimentos. As pessoas no mundo psicanalítico, igualmente, têm de achar uma forma de viver – e elas vão achando: elas vão compondo suas alianças, elas vão pensando sobre suas rotinas, vão tentando acompanhar conforme podem o que acontece sobre suas cabeças, nas lutas que tomam os céus, e torcem ou rezam para que nenhum gigante lhes caia sobre a cabeça. E assim seguem os dias no mundo maravilhoso-psicanalítico: as pessoas estudam, entendem, estabelecem suas alianças e tentam manter tudo em ordem – tentam manter seus consultórios em atividade, seus casos em andamento, sua respeitabilidade mais ou menos cuidada e, se possível, progredindo. Os inúmeros Phil Sheldon da psicanálise (ou seja: psicanalistas sem propensão ao super-heroísmo) eventualmente se protegem sob a sombra de algum super-herói, elegendo por derivação um autor canônico, e torcem para que isso os proteja: sob Lacan, ou sob Winnicott, ou sob Bion ou quem for, a psicanálise nossa de cada dia luta para se justificar, para ser razoável e efetiva, para se manter viva e funcionando.

Muitos de nós, no mundo maravilhoso-psicanalítico, se encontram na imensa zona cinzenta entre a mundanidade mais acachapante e o super-heroísmo mais divino: nem Sheldon nem Thor, estamos tentando entender como pudemos entender o que entendemos e fazer o que fazemos, estamos tentando dimensionar nossos poderes, manter algum tipo de coerência quanto a quem somos; é claro que na prática somos todos Phil Sheldon, mas confiamos em nossas redes e alianças e vamos tentando nos desvencilhar da adesão mais fóbica às questões imediatas das sobrevivência, e vamos tentando olhar para cima e interpelar os super-seres e os super-acontecimentos.

A maioria de nós, no entanto (e ao mesmo tempo), luta para manter-se na ativa e entender, sem ser obliterado, o estranho mundo em que vivemos – e nessa situação não há espaço, evidentemente, para verbalizar inquietações quanto à razoabilidade, robustez, coerência, eficiência ou o que seja: uma vez tendo encontrado seu cantinho, ajeite-se nele e não reclame, assim soa o mantra nunca dito mas amplamente reverberante no meio. Para a maioria de nós não se trata de “encaixar-se” plenamente entre heróis ou mortais: estamos na luta para sobreviver ao mesmo tempo em que lutamos para dar nossos primeiros pequenos “vôos de galinha”; por mais que não haja pretensão ao “super-psicanalismo”, há sempre a luta para desprender-se da cotidianidade mais tacanha e sentir-se, num momento de glória, seguro de si e de seu papel no mundo.

No meio Universitário, de onde venho, é relativamente comum que haja cidadãos pouco acomodados à sua não-super-heroicidade (como eu): contemplativos, pensativos, questionadores. Aprendemos a fazer isso de forma a sustentar certa aura de respeitabilidade (aura que estou levando aos limites aqui, com as piadas e o imaginário adolescente): falando como universitários, mantemo-nos dentro de um horizonte de tolerância maior.

Psicanalistas de outras procedências, como os egressos de cursos de Psicologia menos renomados e elitizados, cursos de instituições de pequeno porte de formação em psicanálise e alguns outros não têm essa chance: se arriscassem escrever um texto como esse que o estimado leitor tem em tela seriam proscritos ou, com sorte, desprezados. Por mais que tenham suas dúvidas, tomam-nas como índice da incompletude de sua formação, da limitação de seus conhecimentos, da estreiteza de sua experiência. Esses são, até onde entendo, a vasta maioria de nossa categoria, ao menos no mini-mundo que é a São Paulo que eu conheço e onde trabalho.

Em outras paragens há ainda os recém-ingressos em sociedades mais tradicionais e/ou fortes de formação, e nesses casos a luta é justamente para “pensar como se deve”, evitando ler, entender ou criar gosto por autores e pensadores não sancionados.  Pode ser que eles aprendam com facilidade e passem a olhar apenas em direção aos autores canônicos e aos super-psicanalistas chancelados pela instituição – e acredito que isso tenha um custo no sentido de inibir pensamento criativo e mesmo de suscitar um pensamento normativo e restrito; pode ser também que tenham que se disciplinar a todo momento, preocupados com eventuais retaliações, proscrições ou julgamentos por parte de seus pares.

Um pouco mais além em direção ao mármore e às grandes colinas encontramos ainda outras formas de relacionamento com as maravilhas: professores doutores e líderes de movimento, promovendo suas releituras e seus questionamentos, suas novas formas de ver, suas renovações. Mais uma vez, no entanto, as maravilhas tomam a cena e aos humanos resta apenas o maravilhamento, conforme nos damos conta de que estamos assistindo não à cotidianidade de um psicanalista tentando pensar sobre o que faz (e fazemos todos), mas sim ao lento e inexorável esparramamento dos ramos da psicanálise e da sombra que eles geram.

Desafios:

            Já me disseram (pessoas diferentes, em ocasiões diferentes) que sou rebelde, que tenho propensões à bastardia e uma verve polemista. Já não nego nem tento evitar isso, mas espero que o leitor entenda o que estou mirando aqui: não escrevi esse texto como um grito de guerra contra as maravilhas e os super-psicanalistas – escrevi esse texto como um convite à reflexão.

Quero que possamos refletir sobre o que se passa nos consultórios: quem somos, como pensamos, quem atendemos e como. Essa reflexão não nega as reflexões sobre a matriz clínico-teórica de um ou alguns autores canônicos, nem sobre o lugar da contra-transferência na clínica contemporânea ou tantas outras tão importantes discussões em voga hoje – mas essas discussões tomam os céus do pensamento teórico-clínico, das políticas institucionais, dos jogos de poder e da filosofia da psicanálise, e continuam fundamentalmente estranhas às questões com que o psicanalista clínico se defronta no cotidiano de sua formação, de seu pensamento clínico e de sua práxis.

Interesso-me profundamente, genuinamente, pelos debates acerca dos autores canônicos e de seu papel na transmissão da psicanálise. Interesso-me pelos debates acerca do impacto dos autores canônicos sobre a natureza da práxis que se dá nos consultórios dos psicanalistas em seu dia-a-dia. Interesso-me pelos debates acerca da formalização da psicanálise, e da tentativa de entender o que é, afinal de contas, a psicanálise.

Mas tenho me interessado mais, já há um certo tempo, pela relação da psicanálise, essa maravilha de nossos tempos, com a vida que transcorre por aí. E quando olho por esse ângulo as preocupações que vi crescerem em mim ao longo de minha formação em Universidade parecem distantes e desconectadas. Por mais que entendamos as diferenças entre as matrizes kleiniana e ferencziana, por exemplo, não teremos como transplantar o que aprendemos sobre essas matrizes para o que se passa no consultório dos psicanalistas – nem sequer os dos kleinianos ou dos ferenczianos. Os winnicottianos, por exemplo, são tão diferentes entre si quanto podem ser em relação a um lacaniano específico, se estabelecermos a comparação em termos de pares por amostragem. E por isso uma “estrutura da clínica winnicottiana”, por mais edificante que possa ser em termos abstratos, não nos ajuda a entender o impacto da clínica winnicottiana na vida dos, digamos, winnicottianizados (nem dos winnicottianizadores, convém acrescentar).

            Parece-me que as instituições de formação podem pensar a si mesmas, e podem formalizar suas práticas e, caso queiram, podem normalizar com relativa precisão a práxis de suas “crias” (elas normalmente não se dispõem a isso, e não estou defendendo aqui que deveriam); isso vale para instituições lacanianas ou de outros “ismos”, vinculadas à IPA ou a centros universitários, grandes como pequenos. No entanto, as variações regionais, e as variações entre instituições, e as variações ao longo do tempo parecem ser imensas, e conforme insistimos em usar um só termo e usá-lo no singular – “a psicanálise” – criamos uma confusão imensa, porque na mais controlada e normalizada (e improvável) das hipóteses teremos tantas psicanálises quanto temos instituições, em cada corte temporal. Não pretendo fazer nenhum clamor à normalização, mas a situação parece digna de nota na medida em que assume grandes proporções e tem sido notavelmente pouco pensada nos termos que estou propondo aqui. Insisto que não se trata de normalizar a psicanálise, mas de pensar na forma como a dispersão em causa não é abordada a partir dos esforços intelectivos dos super-heróis: esse é o ponto em questão.

            O que estou dizendo não é que seria necessário pensar “o que é” o lacanismo, por exemplo, porque isso já foi feito: feito por psicanalistas e não psicanalistas, lacanianos e não lacanianos, do Fórum e da Escola e da Anunciação e sabe deus de onde mais; e esse é o ponto: a dispersão das respostas poderia significar que ainda não surgiu resposta robusta o suficiente para estabelecer um cânone unificador, ou poderia significar que o ângulo e a forma de apresentar a pergunta não propicia respostas que toquem os pontos ora em questão. Aposto nessa segunda hipótese.

Proposta[4]:

            Nesse texto estou sugerindo que os programas de pesquisa avançados por Universidades e as fórmulas apresentadas por instituições de formação e transmissão alicerçam-se sobre uma dinâmica já posta, segundo a qual deve-se oferecer um entendimento acerca do que a psicanálise é ou faz. Isso pode ser posto tanto em termos monolíticos ou com pretensão absolutista (como em “Isso, que estou expondo, é o que psicanálise é”) como em termos locais e regionais (“Isso, que estou expondo, é o que psicanálise bioniana do terceiro dia é”), mas normalmente, de uma forma ou de outra, é isso que se faz. Entendo que essas práticas são importantes e não pretendo, de forma alguma, desacreditar esse tipo de expediente. Acredito, no entanto, que é bom não nutrir expectativa de que isso organize ou regule ou ajude a pensar sobre o que é feito por aí sob o nome de psicanálise.

            Um bom estudioso acerca das relações entre Freud, Lacan e Winnicott, por exemplo, provavelmente se erigirá em representante de um tipo de psicanálise calcada em Freud, Lacan e Winnicott, em termos canônicos, mas calcada nesse bom estudioso, em termos de sua recepção pela comunidade psicanalítica. Ou seja: por mais que o que o estudioso em questão propõe seja uma leitura “da psicanálise” a partir de Freud, Lacan e Winnicott, o que se passa, se transmite e se recebe é a “leitura desse estudioso”. O mesmo poderia se dar, por exemplo, com as relações entre Winnicott e Heidegger ou qualquer outra composição. De forma semelhante, mas em outro nível, estudos acerca das matrizes ou dos paradigmas em psicanálise podem ajudar os estudiosos a localizar suas questões, mas dificilmente vai ajudar a entender o que se passa no cotidiano do consultório dos psicanalistas (por melhor que eles se encaixem às matrizes ou paradigmas sob análise).

            Uma razão bastante simples para isso é que a práxis psicanalítica não se caracteriza (ou não deveria se caracterizar, penso eu) pela aplicação de um molde teórico ao cotidiano dos consultórios. Por isso, mesmo a compreensão mais sofisticada que se possa fazer acerca da matriz clínica psicanalítica kleiniana não ajudará a entender o funcionamento interno de uma única sessão psicanalítica kleiniana sequer – pode ajudar a entender o tipo platônico “clínica kleiniana”, que não se encontra em lugar algum, mas não ajuda a entender a clínica kleiniana em seu funcionamento nos consultórios dos psicanalistas kleinianos que abundam por aí. Uma das provocativas razões para isso é que “o kleiniano não existe” – há um psicanalista, que pode ler muito Klein, pode gostar muito de Klein, pode ter feito duzentos anos de análise com Melanie Klein em pessoa, mas ele não será “kleiniano” conforme descrito nas análises dos Universitários e mestres de escola: ele será, quando muito, um analista tentando com todas suas forças emular a imagem-tipo que se construiu nele acerca do que é ser kleiniano[5].

            Tenho claro para mim que formalizações, esquemas, teorias e pensamento abstrato são importantes, e não quero negar isso – estou dizendo apenas que essas formalizações e esforços de pensamento jamais organizarão ou permitirão entender o que se passa nos consultórios psicanalíticos. Gerarão, evidentemente, novos pensamentos, e isso não é sem valor, de forma alguma: meu ponto, uma vez mais, é com o direito que os Phil Sheldon têm a uma vida que não seja pautada pelos embates que tomam os céus – e para chegarmos a isso o caminho não passa pela formalização.

[1] “Marvel”, diferente de “Maravilha”, pode ser tanto um substantivo como um verbo, e é recoberto de uma ambiguidade maior que o termo em português, que é mais monoliticamente positivo. “A marvel”, em inglês, é uma coisa notável e impressionante, não necessariamente algo bom, como em “uma maravilha”. “Maravilhamento”, menos comum em português, é provavelmente o único termo dessa família que retém essa conotação mais aberta.

[2] Entendo que esse ponto possa ter ressonâncias problemáticas. Esclarecendo: acredito que possa se criar um mundo onde isso não seja mais feito, onde os ídolos tenham sido derrubados e os mortos sejam entregues para enterrar a si mesmos, mas do ponto de vista Marvels, que estou adotando aqui, essa figura não compõe o cenário imaginativo – pelo menos não do ponto de vista das potencialidades do indivíduo. Trabalho, ademais, com a idéia de nominalismo dinâmico segundo a qual uma criação contingente passa a ser necessária após estabelecida e integrada.

[3] Se não for nada disso você pode, com alguma sorte, ser um Universitário, afeito a grandes e complexas teorias, ou pode ser um ancião liberto das regras em função de sua experiência e sapiência, mas esses lugares são excepcionais e não sancionados pela maioria.

[4] Antes de prosseguir é bom deixar claro: não quero me candidatar a líder ou a mártir ou a profeta: quero remeter o debate a um vantage point que nos enderece a questões que reputo urgentes.

[5] Ele será, portanto, um mau psicanalista, e um mau kleiniano.

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3 comentários sobre “Marvels: superpsicanalistas, autores canônicos e reles mortais

  1. Leandro dos Santos

    Texto EXCELENTE ! A parte do psicanalista que se graduou em Psicologia na USP em comparação a um psicanalista graduado em uma faculdade menod reconhecida é um problema significativo em São Paulo…. tema a ser estudado… PARABÉNS !

  2. Leandro Santos

    Imagino que para o super-psicanalista cada analisando deve ser uma kriptonita… rsrs

    Ótima reflexão!
    Obrigado.

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