Dia da injustiça

Segundo minha agenda (sim, ainda uso agenda de papel) hoje é o dia da injustiça. Quando vi fiquei intrigado: quem celebra o dia da injustiça? Melhor: o que se celebra no dia da injustiça? 

A primeira hipótese que me ocorreu – e provavelmente a correta, do ponto de vista dos “organizadores do evento” – é que o Dia da Injustiça na verdade é um dia para pensar sobre a injustiça, tendo como propósito promover a preocupação com a injustiça e a busca para que vivamos num mundo mais justo. Há o dia da árvore, o dia do índio, o dia …, e o dia da injustiça – tudo muito bem, tudo muito bom, tudo muito nobre.

Achei, por mais que seja legítimo esse tipo de comemoração, que dá pra fazer melhor que isso; pensei que podemos fazer do dia da injustiça um dia memorável. Pus-me, então, à tarefa: a campanha por um novo dia da injustiça, um dia de injustiça renovado, 2.0. 

Imaginei o que as pessoas se desejariam, e o que dariam de presente umas às outras num dia da injustiça que “ganhasse fama”. Fiquei pensando que alguém chegaria ao trabalho com um embrulho e o entregaria ao chefe: “bom dia, chefe. Trouxe um presente para o senhor. Espero que goste. Feliz dia da injustiça! “. Parece um bom caminho.

O dia da injustiça pode ser um dia pra todo mundo se esbaldar no próprio rancor, dar vazão a ele. O dia da injustiça seria um dia movimentadíssimo no Facebook, cheio de textões irados, incitações ao ódio e hashtags irônicas passivo-agressivas.

Derrubei pasta de dente na minha camisa, passadinha: feliz dia da injustiça. 

Fui mandado embora.

Perdi x namoradx.

Tenho tédio. 

E por aí vai.

Mas… problema! Esse dia da injustiça corre o risco de virar, como dizem os gringos, just another day: todo dia é dia da injustiça. 

Dá pra fazer disso uma campanha: no dia da injustiça todo mundo conta uma injustiça que jmpetrou, ou que sofreu, e faz-se disso uma comoção, um convite à reflexão e tal e coisa.

Sem graça, né? Também achei.

Ou, quem sabe?, dá pra fazer do dia da injustiça uma espécie de dia da honestidade bruta: dizer o que pensamos que dá pra fazer, o que deveria acontecer, uma solução. Claro, volta o risco de ser só mais um dia; mas ganha-se algo com o fato de ele chamar “dia da injustiça”, é como se a ironia, o escárnio, o sarcasmo e o masoquismo se dessem as mãos. 

“Todos os políticos deveriam ser presos. Feliz dia da injustiça”.

“Sucesso tem que ser só pra quem tem mérito. Feliz dia da injustiça”.

“Esse país não vai pra frente enquanto não prenderem o Lula. Feliz dia da injustiça”.

Acho que o Facebook deveria investir no dia da injustiça. Afinal, parece ser tendência, tá super in, é um must falar com arrogância dos abusos que vivemos, expor as violências sempre que as vemos, falar sempre do que nos desagrada e fazer cara de nojo – o dia da injustiça tem tudo pra bater o Natal (que, por sinal, anda bem out).

Acho que a mídia social é um retrato da decadência do social. Viva a decadência, feliz dia da injustiça. 

Acho inaceitável o estado de coisas no Brasil, e acho o rumo político, nacional e global, profundamente alarmante, e acho ainda mais alarmante que eu não seja o único que não está fazendo nada a respeito. Feliz dia da injustiça.

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Um comentário sobre “Dia da injustiça

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