Ora viva quem vive!

Um errante pode passar muito tempo, pode mesmo passar tempo demais, sem passar por onde deveria. Aí reside o risco do erro, e o fundamento para a condenação do erro: banindo-se o erro bane-se o risco do imprevisto, na medida em que o certo é esperado e o incerto frequentemente pega o cidadão no pé de apoio, puxa seu tapete. Eu, errando como posso, erro mais que acerto nos destinos que o acaso me oferece, mas vez por outra calho de encalhar em terras férteis, amistosas, mátrias mais que pátrias, e foi assim que dei por mim, sem que o esperasse ou quisesse, na casa de meu avô.

à porta da casa dele havia uma janelinha, mas o vidro jateado fazia com que janela não se visse, cá de lá, lá de cá – fazia-se necessário que quem de lá estivesse a janela abrisse, de dentro o de fora visse, e como conviesse agisse pra que algo acontecesse. quando o visitava o clima era sempre de expectativa, pois que a receptiva era das tardes, das partes, uma das mais hospitaleiras – batia-se, esperava-se, ansiava-se, a portinha de vidro se abria, o vô espiava e sorrindo dizia “ora viva quem vive!”, e era aí a alegria.

a expressão era parte da casa, era parte da mística. até hoje não sei que significa, de onde sua origem, pra onde seus sentidos, vinha-me em bloco como um apelido carinhoso que apelida uma casa inteira, uma tarde inteira, uma história inteira, expressão que cavou em mim um dos ocos que habito, de onde falo e de onde o eco me diz quem, afinal, pode ser que eu seja.

talvez a expressão corresse em frias páginas, talvez derivasse de línguas outras, talvez remeta mesmo a preconceitos e retrocessos, e pode bem ser que assim fosse – pois não é que descobri, anos e anos depois e atrás, que quando minha tia (e justo a santa) dizia que “segunda-feira é dia de branco” isso era mais e bem menos que um desses sinais de religiosidade que transpiravam todos seus dizeres? foi um susto descobrir que saía da boca da santa, vestida de branco e embrulhada em cuidadosos ofícios na lida da sacra família, uma expressão de passados escravocratas, uma pequena denúncia dos grandes, invisíveis, insidiosos racismos.

pois que, se assim foi, pode-se que assim, ainda outra vez, seja; pode ser que “ora viva quem vive!” rescenda a raças, a credos, a origens. pois bem, bem mal, pois quero que não seja, e espero que não seja, e a mim não é enquanto for que não seja, e que seja eterno. e é terrível isso, pois que assim é: as línguas que em fogo lento cozinham em nós escapam aos lastros do comum e insistem em seus odores e paladares peculiares, a cozinha de cada família cheia de segredos e pequenos disparates. o “ora viva quem vive” de minha família, que torço para não ter passado outro que não o sorriso de meu avô à portinhola, convive em paz, a mim me parece, com as “pantuflas” e “que pixixꔑs da família que me acolheu e com os segredos de outras tantas línguas, outras tantas famílias que não frequento, convivem desconvendo-se, cada um do lado de lá da portinhola da casa dos outros, línguas secretas. pequenos erros, familiares erros, de uma língua desdobrada em encavernações, um caminho todo feito de descaminhos, desbravado sem bandeirante, mata alheia aos ímpetos civilizadores, aos desbravadores e aos conquistadores. e assim encontro-me com meu avô, uma vez mais, à porta de uma linguagem que é feita de material alheio aos dicionários, mais esperta, mais travessa, mais equívoca, mais amiga: eu, meu avô e manoel de barros, passarinhando as impressões que tomam o lugar das expressões e expressam o que elas não expressariam.

Habito paragens onde se convida ao dizer monocórdico e fleumático dos acadêmicos; habito paragens onde os textos devem ser torcidos, para que sequem de todo imaginário, de todo floreio, de todo meandro; onde os olhos se reviram e se impacientam à busca do que, afinal, se queria dizer; onde se procura que se diga logo o que se quer dizer. Estranhas paragens habito, em que estranho sou e onde bandeirantes e desbravadores e civilizadores encontro, gentes brancas convidando-me à escrita da eterna segunda-feira; mas eu insisto, “me errem”, e me erro, pois que sou e serei sexta-feira, sexta-feira de tournier mais que de default/defoe, sexta-feira mestiça e úmida e imprestável aos olhos de quem quer que seja segunda-feira e que seja de branco.

 Estarei, pois, do lado de lá da portinhola. Ora viva quem vive!, diz meu avô, e me oferece, porque está de bom humor, um quadradinho do chocolate amargo que não é pra criança mas que hoje eu posso, pede que eu encontre o livro do Van Gogh que eu encontro sem precisar ler só porque ele quer ver eu conseguir, e conversamos de algo que já não sei o que seria e não me importo com o que seja. Mais tarde ele me leva à aula de judô, paga um xis-búrguer terrível do clube, que só como com gosto porque tem cara de aventura, tomamos um copo de água da torneira, por conta da casa, e seguimos viagem juntos, passarinhando, sabe deus pra onde.

Agradeço, vô, pela companhia, hoje e ainda sempre – e, pra tudo que importa, sei que você sabe que eu tenho juízo e não sou tão cabeçudo assim, e saberei temperar meus erros com a esperteza que os alimenta, e estarei por isso com crusoé e os bandeirantes, porque convém aos meus, aos nossos, erros. Quando puder dê um pulo por aqui, pense comigo, escreva comigo, leia comigo – sempre que bater à porta, sabe o que tenho a dizer, pois foi com você que aprendi.

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