Molloy e o astrolábio

e é assim que eu começo, porque é assim que acontece: a gente se vê de repente lançado nas circunstâncias, e quando tenta inscrever contornos e limites tudo o que consegue é falsear esse abrupto que é viver. porque não é organizado e regulamentado, não é. não soaram os três alarmes antes do meu parto, o corpo não notifica formalmente antes de arremessar o cidadão na puberdade, aquela paixão destruidora arrebatadora não foi antecipada nem sequer por uma piscadela do coração ao cérebro – não, a onda vem e depois dela vem outra e a seguinte já está a caminho, mal contendo a risada ao ver-nos ali cheios de areia na sunga e sal nos olhos, procurando o caminho de volta à praia, e o mais engraçado é isso: não tem praia, meu querido, é você, as ondas e aqueles bons ou maus encontros que te capotarem pelo caminho. haveria saída que não fosse abraçar o caos? sem dúvida que haveria, e é a essas saídas insólitas que se me impelem continuamente, anti-ondas que são ondas também, menos ironia e mais sarcasmo. “Usa uma prancha de surfe, para navegar”, dizem; e para onde? “Compra uma raspadinha, dá uma refrescada e alivia a sede”, dizem; e para quê? “Encontra o começo da sua história, inclui um parágrafo, um travessão, maiúsculas, um fluxo narrativo”, dizem; que querem de mim? querem-me ancorado em baía alheia, ancorado em historicidade que não me representa, representação que não me ancora, embainhado e sem fio e sem corte… pois aqui não! eu, senhores, eu boio, e já não sei quem sou nem onde vou e já não me importo, e acho peculiar e insólito e interessante que me tenham encontrado aqui, é alto mar aqui, não é? têm relógio, sabem as horas? pois não digam, que não me importo, vejo aqui sobre nós o sol a pino, há de ser meio-dia se entre nascer e morrer eu brilho o tempo todo. podemos boiar juntos, se interessa a vocês, deem-me as mãos e seremos vagas, vagos, espelhos do vazio do céu no vasto do oceano, e coisas de tragédias de outrora se atracarão a nossos corpos, e teremos conosco astrolábios e iPads e algas e sonhos, e seria bonito ver-nos assim, o naufrágio de michaux, sabem quem é michaux? passou boiando por aqui, há uns anos já, era meio-dia então. eu acho que eu tive uma história, já… outrora fui um executivo, personagem de um conto desgastado, esforçado, meio falso, passei por uma padaria, acho, na época era um iPhone e não um iPad, inútil um como o outro, mas na época eu me importava. já vai? é, eu sei, incomoda um pouco, não é? é o frio, acho, é o sal, desidrata; não me espanta, se eu fosse eu eu procuraria sem demora um banho quente, uma toalha, olharia e diria “Que moço estranho aquele do astrolábio!, falta-lhe uma bússola!”, lembraria de afazeres, comeria um sanduíche. acho que eu faria essas coisas, acho que eu fiz essas coisas, quando será que foi? era meio-dia então, e eu era alguém… como me chamavam? esteves, creio que era isso, esteves, e estava na tabacaria, e era visto por alguém que se perdia de si. em algum momento remeteram isso a mim, e lancei-me aos vastos mares, tudo vale a pena, não é isso que dizem? ou foi eu quem disse? quem foi eu? eu, astrolábio, iPad… tanta coisa, não? tanta coisa…

adios, Nonino… vaya com diós.

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