A voz, o silêncio

 

Vieram da montanha. Eram muitos, vinham como orangotangos, pulavam  e pareciam gritar – mas não faziam barulho.

Eu os via, decerto que os via, e da forma como os via parecia a mim que faziam um barulho infernal; parecia a mim que gritavam a plenos pulmões, azucrinando e desrespeitando e humilhando a mim e aos meus, mas eu não percebia som, não discriminava som. Olhava a minha volta, em busca de indícios de que ficara surdo, ou que alucinava sua aproximação, em busca de compreensão. Nada do que discriminava me apaziguava: seguiam as pessoas com seus calmos passos, divisavam o movimento decisivo e destrutivo sem se deter, seus dias seguiam-se à margem da iminência.

Nossos dias. Nossos dias seguiam à margem da iminência. Eu também estava – agora o via – também seguia meus passos, também divisava a descida decisiva sem sair de meu rumo, e a preocupação que se me assomava pouco impacto trazia ao pisar de meus pés, ao assoviar de meus lábios conforme seguia meus rumos corriqueiros, cotidianos, movidos por nada que não a leve brisa dos afazeres habituais. Aqui e ali comentava, criticava, em arrulhos e estertores compartilhava a preocupação, a inquietação, o medo, sentindo ao fazê-lo que não queria e não seria levado a sério, não havia sério a ser levado do que trazia ao que faria.

E foi então que vi, como em sonho vi: rolamos todos, rolamos gordos nosso rumo, sempre caindo, caindo, nada a impulsionar-nos que a inércia e a mal sentida gravidade, mais empurrando suavemente que pressionando. Se pressionasse teríamos feito algo.

Não?

Não.

Eu via, como em pesadelo via:

Viemos da montanha. Éramos muitos, e viemos como orangotangos, pulando e gritando, mas olhávamos à volta e não ouvíamos, e não nos víamos – não éramos nós, não estávamos lá, éramos outros a estranharmo-nos e a olharmos uns aos outros, preocupados com nossa queda, nossa desgraça.

Fomos nós?

Somos nós?

Eu vejo, como em sonho vejo: estaremos submersos, na água e na fumaça e no cocô e na desgraça; boiaremos, água e fumaça e cocô que somos, à espera do que tiver que vier, e virá, em que seremos purificados e de que seremos substrato e de que não seremos lembrança e a que não faremos falta.

 

ASCENDENTES:

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

(Trecho de poema de Eduardo Alves da Costa, 1936)

 

They came down from the mountains
They’ve strayed too long from the fountain
And all the while
All the while they longed for us
But I won’t betray, no I won’t betray, no I won’t betray, I won’t
No, I won’t betray, no I won’t betray, no I won’t betray, I won’t
Till the water’s all long gone

(Trecho de “Till the water is all long gone” da banda The Decemberists)

 

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2 comentários sobre “A voz, o silêncio

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