Será o que é?

Irmãos!

Irmãos… a praça,  nossa praça,  acolhe-me aqui, agora em nome e honra de nosso Senhor! Eu, humilde enviado, fugi do pecado, salvai-me, Senhor!

Eu tomo a palavra, da justa e da parva, a arte canhestra do nosso Senhor!
Escutem meu berro, admirem o Livro, o Sagrado Livro do nosso Senhor!

Aleluia, irmãos… aleluia!

Aleluia.

Sabem, irmãos,  um belo dia, há não muito tempo, escutei um pedaço de entrevista de um homem – Dave Grohl é o nome dele, filho de Davi e de Golias, legado de santos e demônios. Grohl respondia àquele que o entrevistava, que se deduz perguntara sobre a que devia sua humildade, e à pergunta Grohl respondia “a meus filhos” – vejam, irmãos – “a meus filhos que não se importam (don’t give a fuck, ele disse então na língua de Shakespeare) se sou ou não um rockstar; eles dizem ‘quero um smoothie, pai, agora mesmo!’, e eu abaixo a cabeça e digo ‘ok'”.

Reparem, irmãos, que diviso nesse momento vossos pensamentos; vocês ouvem a parábola que lheis narrei e pensam “ora, este não é pastor nenhum, nem estamos nós na praça da Sé, e este homem que não é pastor não é senão Will, o autor, em disfarce dos mais levianos, profanando com suas palavras a sacrossanta função do pastor”! “Este homem”, pensais, “este homem é um ímpio!  Um infiel! Profana criatura, que profana com pretensas criações as sagradas criaturas e nos oferece sob a arte do disfarce a maçã do Pecado, nos conduz ao errado, salvai-nos, Senhor”!

Pois irmãos, amigos, irmãos, em verdade vos digo que onde mais certos estão, com passo firme conduzem a si próprios a maiores erros e desmandos, e onde vêem verdade sob o véu escandem em verdade a verdade que o véu ilustra, emoldura e salienta.

Escutai-me, irmãos! As palavras do Senhor, bem o sabem, expressam-se sobre linhas tortas, não só pelo Mistério mas por ser esse o justo caminho das palavras do Senhor. E vejam, irmãos, se Davi Grohlias assume a repugnante pele da cobra vã do Capeta, o rock ‘n roll, pelas palavras dele, profano anjo caído, pelas palavras dele divisamos sem engano as palavras d’Ele, pelas tortas linhas em que caligrafou e por onde esculpe o fio do destino dos homens.

Pois vejam, irmãos, acompanhem com fé cega as palavras iluminadas deste decaído homem! Diz ele que é salvo da luxúria e da soberba pelas mãos de seus filhos, não por serem cria e legado dele, mas por não o levarem a sério. E é por isso, irmãos, é por isso! que digo: não se levem a sério, irmãos! Não se levem a sério, irmãos.
Você,  irmão, que vende artefatos piratas, que divisa lucros no contrabando e na ilegalidade? Foda-se a ilegalidade, irmão: bem sabes que pecas ao chicotear os lombos de crianças no Oriente distante, não sabe? Pois foda-se, irmão,  pois muitas chicotadas mais essa criança recebe das mãos delicadas e cheias de creme das senhoras que passam nos táxis à nossa volta e mesmo distantes de nós. Essa mesma criança,  irmãos,  recebe chicotadas e mais chicotadas em seu lombo enquanto os grandes homens de negócios, aqueles que se arrogam o arbítrio e a potência que só a Ele cabem, esses grandes homens posicionam seus chicotes em nossas mãos,  e nós lambemos os beiços e estalamos, com força e com gosto estalamos. Estalamos, e com isso pecamos, irmãos! É grande o pecado, o sangue em nossas mãos.

Pois veja bem, senhor contrabandista, não te apressais em busca de redenções levianas – sagradas ou profanas, tuas artes decaídas pesam com tanto ou mais culpa sobre nossos ombros, nós que estamos no palácio, nós que dispomos de conforto e bonança, nós que pregamos ao vento. Vejam, irmãos, luxo e glória não ostento: se me beija a sorte eu agradeço e lamento, pois a sorte, dizem os sábios, a sorte nos deixa moles, e moles deixamo-nos submeter, e submissos entregamos nossa leniência perante o mal, e o escrutínio do Senhor não redime tão somente pelo sangue em nossas mãos, isso não, irmãos!, Não somente o sangue em nossas mãos, mas o sangue que deixamos escorrer pelas nossas ruas, correr como rio abundante diante de nossas casas, quando olhamos e não vemos o quanto estamos em paz sem que nada nos autorize a isso. O tempo hoje urge, o leviatã contorce e ruge, será que ainda há tempo, irmãos?

Há tempo, irmãos? Isso lhes pergunto, ansioso para que observem o livro que carrego comigo, o livro dos livros, percebem o que digo? … salvai-nos, Senhor; salvai-nos, Senhor!

Se me olham, irmãos, e em mim vêem esse a quem chamam de Will; se me olham e vêem em mim a sombra de homens que poderia ser, se não houvesse em mim a arte emissária da metanóia, da transmutação, dos corpos e do êxtase; irmãos, se ao me olhar não vêem senão o que o engano dos olhos demonstra sob a efígie do factum, se assim é, irmãos, o tempo já foi. Urge o tempo da temperança, irmãos, o tempo em que divisaremos, ao contemplar o rosto que se nos apresenta diante dos olhos não o cidadão, não o marido ou o companheiro de trabalho, não o contrabandista ou o homem de negócio, mas o irmão de destino, o irmão de arremesso das cinzas ao pó e do pó às cinzas, irmão de tragédia e de êxtase pela fatuidade da vida e pela iminência e onipresença da morte e do Ser.

Olhem, irmãos, olhem – o que vêem? Vêem um artista, um malabarista, dançando na pista das palavras vãs? Vêem um vigarista, um contorcionista das fés dos inocentes, vendendo bilhetes vazios à custa de pão suado? Vêem, irmãos, que estamos na praça? Vêem, irmãos, a Babel que nos cerca, e o tempo que urge?

Sentem-se confortáveis, irmãos, sabendo que lêem a arte profana de uma sombra que reconhecem? Reconhecem-se ali, reconhecem-se então? Posso, irmãos, com alguma descrença sugerir-lhes que não?

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