Se eu pudesse comer livros

 

Sempre pensei que eu não pudesse comer livros; na verdade, sempre acreditei que os livros não servissem para nada, fossem anti-pragmáticos meio que por definição – Borges diz que são um dos artefatos mais curiosos criados pelos humanos, e eu acabei adicionando por conta própria a desfuncionalidade.

Assim, eles servem para alguma coisa, claro que servem: livros de culinária ensinam a cozinhar, livros de literatura apresentam personagens e cenas e tramas, manuais de instalação de prateleiras ensinam a instalar prateleiras. Mas não é disso que eu falo, porque se os livros ensinam a cozinhar e a instalar prateleiras, eles não cozinham nem instalam prateleiras, e assim como eles ensinam ensinariam (e devem ensinar) as pessoas que os escreveram, pessoalmente. Podemos naturalizar que há virtude no fato de os livros poderem ser lidos à distância e a largos espaços de tempo, e que eles encurtam distâncias e que eles ampliam acesso, mas isso tudo não é imediatamente interessante ou útil – por que os humanos, enquanto animais, precisam disso? Para nada, penso eu. O livro não serve a um propósito como as marretas ou os caminhões ou as prateleiras.

Mas essa ideia por si só acho que fica indigesta, não cai muito bem no nosso jeito de entender o mundo. E aí eu fico pensando em estantes feitas de livros (como a do Espinosa, personagem de Garcia-Roza) ou em livros como peso de papel, ou em livros como prateleiras ou como alimento para fornos a lenha – mas aí eu não uso mais o livro, uso o material de que ele é feito. A menos que os livros pudessem ser aproveitados nos dois sentidos, no peso e no papel e na tinta de que é feito e também do conteúdo: Espinosa teria uma estante feita de livros de suspense para suportar os livros de suspense dele, e os livros de romance bem tórridos seriam os melhores para manter o fogo do forno aceso, e os melhores pesos de papel seriam os tratados de filosofia e de direito e de matemática.

E essa ideia, do livro útil pela composição física e textual que comporta, me levou a essa ideia: se eu pudesse comer livros, que livros comeria?

Poderia comer, e acho que seria minha primeira grande ideia, livros “saudáveis”: facilmente digeríveis, ricos em fibras, nutritivos e tudo o mais. E aí eu certamente sairia lendo livros desses bem “americanos”, que apresentam de maneira fácil e rápida conteúdo importantes e “cruciais para entender e se dar bem no momento que vivemos”: almoçaria Freakonomics, jantaria História da Psicologia Moderna do casal Schultz e, em dias mais difíceis, leria um Bruce Fink, um Stephen Hawking, talvez.

Mas preciso confessar que eu não costumo me manter nesse tipo de dieta por muito tempo – o corpo precisa de gordura, precisa de comida inútil, não sei. E aí, com alguma vergonha, talvez – ou não, talvez eu tivesse um orgulho descarado – eu iria ao shopping e almoçaria um double Paulo Coelho com Dan Brown de guaraná tamanho grande e ainda mandaria um Stephen King de sobremesa, se calhar tirava foto pra postar no Instagram e tudo.

Claro que, assim como as pessoas se alimentam de comidas bem diversas entre si, o mundo da gastronomia bibliófila também é/seria bastante diverso. As pessoas desenvolvem, talvez por criação ou cultura ou gosto ou paladar ou genética, hábitos alimentares distintos, preferências distintas: há os mais ligados em comida francesa, italiana, alemã, americana, brasileira mesmo. Tem gente que, se pudesse, faria 100% da dieta à base de literatura francesa – curiosamente dizem que a Usp é assim. Hoje em dia, para bem ou para mal, cada vez mais gente se alimenta de literatura americana (acho maldade chamar de junk food, mas é fato que a coisa é feita pensando mais na “vendabilidade” que na experiência estético-gastronômica que proporciona).

Quanto a mim… bom, creio ter hábitos relativamente ecléticos. É curioso, mas eu, como tanta gente, desenvolvi um certo gosto por literatura indigesta: Dostoievski, Valter Hugo Mãe, Kafka etc; não sei, acho que me ligo mais no prazer de comer e de “lutar” com a comida que com o nutrir-se por si mesmo, e aí a indigestão acaba sendo uma espécie de oportunidade de reconhecer-se em um corpo que já não é tão seu, deve ter algo por aí. Seria ridículo de minha parte, ao mesmo tempo, tentar esconder que me alimento cada vez mais de livros de psicanálise e de teoria social e política – é, vamos dizer, o pão de cada dia que me garante o pão de cada dia. Mas eu não sou de manter a rotina na dela, eu gosto tanto de rotina quanto gosto de surpreender minha rotina com algo insólito – e por isso mesmo de vez em quando procuro em alguma cantina alguma coisa bem diferente e acabo cruzando com um “Por que vocês são pobres?” do William Vollmann ou um “Por uma esquerda sem futuro” do T.J.Clarke – inovações gastronômicas (livronômicas?) que eu uso mais como tempero para o Freud-e-Foucault de todo dia do que como uma refeição por si só.

Não sei, tenho medo de pensar em público coisas assim e acabar me deparando com uma captura auto-ajudística da imagem, como um “Quem comeu meu best-seller? Dicas para alimentar-se com livros bons e baratos” por uma biblionomista com P.h.D em algum lugar, ou um “Guia biblionômico da Nigella”. O que me parece importante, roubando aqui do prato do Lévi-Strauss, é que as comidas para o humano são fruto de uma preparação social e cultural: não se vive só de páginas, não se vive só de calorias, e o acúmulo de páginas (ou de calorias) sem uma vida que mereça e use as calorias (ou páginas) é mais problema que virtude.

Enfim – só mais um snack, espero que tenha valido as calorias.

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