Comentário a “Regras de linguagem na psiquiatria – burocracia e má fé”, de Franco Benetti

Jorge Luís Borges não era um entusiasta do elogio das criações; para ele as ideias ocorriam à pessoa a quem ocorriam por acaso, e não por mérito – é exemplar nesse sentido o prefácio de um livro seu em que ele se desculpa aos leitores se eventualmente escreveu algo que “pertencia” ao leitor antes que ele tivesse escrito.

Uma das muitas coisas que Borges trouxe ao mundo – não sei se criou ou não – foi o comentário a textos não escritos; em Ficções e em outros livros ele apresenta resenhas, prólogos e comentários a textos que não chegaram a ser publicados por aqui, no mundo cotidiano, concreto.

Retomo essa história porque quero lançar mão do recurso; quero apresentar um prefácio a um texto que gostaria de já ter escrito, mas que ainda não escrevi. Talvez um dia o escreva, talvez não; de qualquer forma, não tenho hoje os recursos para compor o texto ele-mesmo, mas gostaria de comentá-lo, como se já o tivesse escrito (se pudesse, já teria, a ideia anda comigo há alguns dias e sua companhia tem se tornado entediante…). Suponhamos que eu tenha sido tomado por um pudor qualquer quando da publicação, e tenha resolvido publicar o referido texto sob o pseudônimo de Franco Benetti (eu poderia ter tido medo das reações dos entusiastas dos compêndios em psiquiatria, ou coisa que o valha; hoje, na prática, lanço mão do recurso porque estranharia dizer “Wilson disse” ou “Franco afirma”, me sentiria meio como o Jamanta da novela já antiga).

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Benetti aproxima em seu texto dois expedientes de ordenação linguística: o manual de estatística e diagnóstico em saúde mental proposto pela Associação Americana (norte-americana) de Psiquiatria, o DSM, e as “regras de linguagem” amplamente adotadas pela burocracia nazista ao longo da segunda guerra e articuladas basicamente aos processos de morticínio sistemático. A astúcia de Benetti se restringe basicamente à proposição da aproximação, e com a “verve polemista” com que ele se lança às suas formulações mais bombásticas e descuidadas; o texto, no geral, peca pelas formulações labirínticas e pelo preciosismo de Benetti, pouco amparado por sua formação aparentemente superficial. A problemática, no entanto, nos interessa e dá vazão ao presente comentário.

O recurso mais obscuro de Benetti é justamente às tais “regras de linguagem”. Benetti se fia basicamente na sucinta descrição fornecida para o expediente em seu relato sobre o julgamento de Eichmann, em que Arendt afirma:

Sejam quais forem as razões para a criação das regras de linguagem, elas se mostraram de enorme valia na manutenção da ordem e do equilíbrio entre os serviços imensamente diversificados cuja cooperação era indispensável nessa questão. Além disso, o próprio termo “regra de linguagem” (Sprachregelung) era um codinome; significava o que em linguagem comum seria chamado de mentira. […] O efeito direto desse sistema de linguagem não era deixar as pessoas ignorantes daquilo que estavam fazendo, mas impedi-las de equacionar isso com seu antigo e “normal” conhecimento. (ARENDT,1999, apud BENETTI, 2013)

Segundo as tais “regras de linguagem”, os extermínios eram chamados de “transferências”, por exemplo (e salvo engano, forneço o exemplo fiado na memória); a outros expedientes, como deportações e emprego como mão de obra escrava, eram usados outros termos, igualmente “eufemísticos”. O propósito claro disso era pasteurizar o caráter daquilo de que se tratava, evitar que notícia dos morticínios vazasse (não era um grande segredo, mas também não era algo alardeado, e havia um esforço de esconder os expedientes dos inimigos). Quando Arendt aproxima as regras de linguagem do que “em linguagem comum seria chamado de mentira”, segundo Benetti, ela se apaixona além da conta: não se trata propriamente de mentira, mas de velamento e de codificação.

Velamento e codificação, diz ele, que “não são isentos de interesses, isso está claro; mas a mentira não se funda no interesse do agente da mentira, e sim da configuração de um campo falso a sobrepor-se ao que seria um relato fidedigno à apreciação (por parte do agente da mentira) dos fatos” (BENETTI, 2013). Benetti se deixa conduzir por minúcias de um tecnicismo curioso – visto que ele claramente não domina linguística ou filosofia que o amparem em tal tecnicismo. Discorda do postulado de Hannah Arendt, segundo o qual regras de linguagem seriam mentiras, somente para articular mais intimamente essa mesma proposição, articulando protocolos de linguagem artificiais à mentira por princípio (fiado, por sinal, em um Nietzsche de botequim). E no entanto, a motivação para tal esmero (um tanto trapalhão, mas esforço ainda assim) logo se dá a ver: Benetti recupera então, abruptamente, a proposição “programática” do DSM, que se propunha justamente a ser um organizador de linguagem, um codificador. A proposta inicial era escapar ao maior problema da psiquiatria de pretensão objetivista dos anos 60: grupos distintos tinham concepções diferentes para os termos diagnósticos, e a estatística e as normas diagnósticas eram radicalmente de país a país e mesmo em regiões distintas de um mesmo país; à época, pesquisas demonstravam uma incompatibilidade quase absoluta entre os procedimentos diagnósticos entre os EUA e a Inglaterra no que tange ao diagnóstico da esquizofrenia. Esse tipo de confusão era munição para os questionamentos e críticas à psiquiatria que proliferavam à época. Em vista disso, o propósito principal do DSM era ser um codificador de linguagem, permitindo que pesquisadores e clínicos comparassem seus achados e apresentassem claramente à comunidade os preceitos em que fiava seu diagnóstico.

Codificação de linguagem, afirma Benetti, que é totalmente solidária às regras de linguagem empreendidas pelos nazistas. Não se trata de aproximar o expediente psiquiátrico dos morticínios nazistas – isso seria aproximar as realidades ocultadas, os “motivos escusos” por trás das ordenações linguageiras; o que Benetti tem em vista é a proposição de uma homologia entre as estratégias: regras de linguagem a velar os morticínios e organizar a comunicação burocrática na máquina nazista, codificação de linguagem na psiquiatria a velar a ausência de consistência e de coerência e o “conflito de interesses” (que ele chama o tempo todo de “conluio”, de forma um tanto ressentida) da “ciência” (concordo com ele quanto às aspas) psiquiátrica com a indústria farmacêutica nascente à época, velando portanto isso tudo para organizar a comunicação “científica” e burocrática da máquina psiquiátrica.

O texto de Benetti, como já disse antes, peca mais pela forma que pelo conteúdo. Apresenta uma intuição valiosa e um ímpeto admiráveis, amparados infelizmente por uma escrita defensiva e insegura e um recurso ao formalismo carente da consistência necessária para tal tipo de manobra. Seria obviamente descabido cobrar consistência filosófica e técnica de alguém que, ao que tudo indica, nem sequer existe. Mas o texto certamente perde muito de seu valor na medida em que recai em preciosismo linguageiro para defender os pontos frágeis de uma argumentação que tem todo direito de se apresentar em termos gerais e sem fundamentação exaustiva. É como se, de tanto estudar os tais protocolos de linguagem, Benetti se visse afundado em um mundo de intenções segundas e análises de má-fé, e acabasse ironicamente vítima de uma escrita labiríntica que, se não mente, se esforça demais por velar o que não sabe ou não quer que saibam.

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