Reencontro

[Suspira]

  Oi, mãe; tudo bem?

  Feliz dia da mulher!

  Eu sei: muito tempo, né? Eu sei, mãe; também senti muita falta sua, senti mesmo. É que as coisas andaram muito difíceis para mim esses tempos – bom, acho que daí você certamente acompanha tudo e está sabendo, não é? Mas sabe, queria te dizer que eu falei com a jardineira, falei com o moço da manutenção, também, e eles vão dar um jeito nisso aqui – meu Deus, isso aqui está péssimo! Ai, mãe, se você soubesse o quanto eu me sinto mal quando vejo isso aqui…

  Foi o Armando, sabe? Depois daquele dia que a polícia passou em casa e ele foi intimado, sabe?, as coisas ficaram muito difíceis; ele não me deixava sair de casa de jeito nenhum, chegou a me trancar lá dentro, por sorte os vizinhos denunciaram e ele não fez mais isso, mas mesmo assim as coisas não se resolveram de vez, não. E… bom, eu não sei, mas ele foi ficando tão paranóico que me proibiu de fazer tudo que ele não poderia confirmar depois, tudo que não tivesse testemunhas, e me proibiu de te visitar, mãe; ai, mãe, foi horrível!

   …

   meu Deus…

   Graças a Deus, sabe, tudo encontrou seu rumo, e estou aqui de novo; e ele descansou – às vezes eu penso que talvez tenha sido o melhor para ele; ele era um homem duro, mas não era ruim – aquilo tudo acho que era um jeito muito ruim de sofrer, e às vezes eu sentia o quanto ele estava mal por dentro. Talvez tenha sido mesmo isso, o coração que não aguenta tanto rancor ali a comer tudo, né?, acho que vai acabando com a pessoa por dentro. É tudo muito recente ainda, mas às vezes já me bate uma sensação de alívio – de pensar que nada de mais grave aconteceu, que eu ainda, com a graça de Deus, tenho minha vida, minha vista, minhas pernas e braços, tenho minha filhinha – ai, mãe, você precisa ver que graça ela está! -, graças a Deus passamos por mais essa provação e, se Deus quiser, daqui em diante as coisas vão endireitando.

  Enfim, o enterro do Armando foi há três dias, na segunda-feira, e foi muito triste, muito triste mesmo! É uma pena ver como uma pessoa se perde nesses caminhos, como cai sozinha; aqueles cafajestes do bar não apareceram, nenhum deles – ai, se ele visse! Estivemos eu com a Bia, uma dúzia de pessoas da comunidade, que acho que foram mais por mim do que por ele, mesmo depois de todo esse tempo longe da Palavra. Nós, poucos, e o padre – uma desolação.

  A senhora, forte e firme como era, certamente me diria que já era tempo e que ele não merecia uma lágrima minha sequer, já até pensei nisso. Mas é difícil, sabe? … com o tempo, e com tudo que acontecia, eu fui ficando tão sozinha! E mesmo com tanta raiva e com tudo o que acontecia, mesmo com todo o sofrimento, ele era a única pessoa lá, comigo… isso é loucura, mãe?  Eu às vezes penso que devo ser louca, porque só louca para gostar de sofrer, para ter gosto por aquele que te faz o mal; eu devia ter ódio dele, não é? Por que eu não tenho, mãe?

  [Silêncio]

  Ai, mãe, eu sinto tanto a sua falta!

  … ai, olha só, fiquei tão feliz de te ver, depois desse tempo todo, que cheguei e fiquei aqui segurando as flores – pareço uma tonta! Olha, eu trouxe para você estas margaridas – lembro que você amava margaridas e comprei este buquê bem grande, o maior que o moço tinha; já falei com a jardineira, ela vai cuidar desse gramado aqui e vai cuidar das margaridas, também!

  [Silêncio]

  Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres, bendito é o fruto do vosso ventre Jesus.

  Salve Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte, amém.

  [Silêncio]

  Lembrei que você sempre adorou o dia das mães, também; engraçado, né? Lembra?, você saía comigo e com a Nelinha para o parque, e nós passávamos lá a manhã e a tarde todas, comíamos pipoca, sentávamos à sombra das árvores… e você contava as histórias de sua infância, eu lembro até hoje! Destoava tanto de como você era todos os dias, sempre quis entender o que acontecia. Um dia desses pensei que deve ter algo a ver com sua mãe – você contou que ela ficou doente por anos na Paraíba, que morreu logo antes de você vir para São Paulo, e nunca perguntei, mas sentia que a lembrança te doía.

  Acho que foi tudo muito difícil para você, também, não é?

  Ai, mãe, que bom que pude vir te visitar; parece que eu estive dormindo, parece que isso tudo foi um pesadelo terrível! Imagina!, só de pensar que esse tempo todo você ficou aqui sozinha…

  E eu lá, sozinha…

  Eu não sei como eu aguentei, mãe! Acho que de alguma forma você esteve lá comigo, pelo menos nos piores momentos, quando eu consegui me defender, quando eu me tranquei, quando eu confrontei o Armando madrugada afora, acho que o seu espírito me tocou e me fez levantar, me fez encher o peito, erguer o pescoço, mostrar minha força!

  … se eu tivesse a sua força… aí acho que tudo teria sido diferente.

  Bom – aqui estou eu de novo, e acho que agora estamos juntas de novo, você para me dar força, e eu para te dar força; não é?

  [Silêncio]

  Desculpa, mãe. Eu sei que aos seus olhos eu fui fraca; mas você entende, não é? Eu realmente fiz tudo o que pude, por menos que pareça. Se você estivesse aqui ainda, e se me desse um puxão de orelhas daqueles, talvez tudo tivesse sido diferente; talvez eu tivesse tido força, a sua força.

  [Suspira]

  Enfim, mãe: acho que eu preciso ir; a Bia já, já sai da escolinha, e a professora fica uma fera se eu não chego na hora. Queria que você tivesse conhecido a Bia, mãe, ela tem os olhos iguais aos seus! Lembro quando ela era bem pequena, eu olhava para ela e chorava, parecia boba. Ela é minha vida, sabe? Agora mais do que nunca.

  Olha, eu volto, viu?

  … pensei em voltar aos cultos também.

  … e vou dar um jeito de comprar umas roupas, também, que isso aqui está um trapo; renovar o armário, entrar na moda – nada muito atrevido, mas um pouco de graça toda mulher tem que ter, não é? A senhora, mesmo turrona como era, bem que usava os vestidos bem cosidos! [Ri]

  É, mãe, a vida segue. Foram poucas e boas mas, como você mesmo dizia, “a mulher nessa vida é o coração, e o pulmão, e o cérebro; o homem faz é fachada e pose”. [Ri]

  … é, mãe… a vida segue.

  Deixa eu ir lá, buscar a Bia, correr para casa, fazer almoço. Ainda de tarde eu passo no mercadinho, que a patroa pediu umas coisas para amanhã, e se conseguir pego umas roupas novas lá no centro. A Nelinha eu não sei se mudou o telefone, mas ligo ainda hoje para ver como vai – acho que ela ainda nem sabe do Armando, vai ficar chocada – se bem que não vai ficar triste, isso acho que não.

  Triste, mesmo, acho que só eu.

  [Silêncio]

  Pronto, mãe, já falei mais do que devia. Volto no fim de semana ver se a jardineira cuidou disso aqui, ver como você está.

  …

  Obrigada pela força.

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