Breve comentário a Noite e Neblina, de Alain Resnais

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  [A câmera afasta-se lentamente de uma construção em ruínas]: afastamo-nos das ruínas – diz o locutor – como se nos afastássemos dos horrores do Holocausto; como se o que se passou fosse uma lembrança no passado, de um país, de uma época, em uma situação.

  É com essa provocação que Resnais encerra seu documentário, de cerca de 30 minutos, sobre o Holocausto.

  O vídeo foi encomendado pelo Comitê da História da Segunda Guerra Mundial, em comemoração (?) aos dez anos do encerramento da Grande Guerra. Pouco provável que uma data como esta fosse comemorada, lúgubre, triste; Resnais, no que lhe competia, dirige em outra direção.

  Estive empenhado, por alguns meses ao longo do ano passado, em pesquisar as relações entre os expedientes nazistas no programa de purificação, as formas totalitárias de tratamento dos doentes mentais e as reformas “humanistas” que têm início em 1948 com a criação da ONU, com especial ênfase às reformas na saúde mental. No fim das contas o programa de estudos que se fazia necessário superava em muito minha disponibilidade e recursos, e deste período de dedicação resultou apenas um texto literário e um tanto quanto panfletário, acenando para duas ou três continuidades, mais estéticas do que propriamente genealógicas. Um certo fracasso, com o qual aceito conviver – posto que o problema mantém interesse a mim e pretendo retornar sempre que uma oportunidade se me apresente.

  O filme de Resnais me parece, sem dúvida, uma oportunidade. O caminho de Resnais me parece justamente, até onde pude acompanhá-lo, de retratar o Holocausto e os campos de concentração, sim, mas mantendo em vista a sustentação do paralelo com os demais expedientes de tecnificação e “deportação” que a Europa e o ocidentalismo industrialista promovem em uma escala mais ampla.

  De alguma forma, a sequencia de imagens e o texto apresentam duas alturas: na primeira, a “chapa fria do texto-imagem”, o trabalho apresenta os campos, os extermínios, os horrores; na segunda, que me parece mais digna de um estudo detido (já que a dimensão mais aparente fala por si com uma beleza que eu não ousaria tentar superar), o texto conta como “os campos de concentração apresentavam uma sociedade dentro da sociedade” – e aqui a colocação deve, a meu ver, ser levada às últimas consequências.

  Não me disponho a construir, ponto a ponto, isto que entendi como a dimensão segunda do texto – aconselho qualquer um a ver o filme e, a partir daí, construir as próprias hipóteses e leituras. Queria simplesmente chamar a atenção para o paralelo e as dimensões e potência que ele empresta ao filme. Tomado dessa forma, o filme me parece um tributo e um exemplo da tecnificação, dos riscos que ela implica e, ao mesmo tempo, da presença profunda da tecnificação em nossa sociedade.

                                  

  Os cabelos das mulheres deportadas para campos de concentração eram transformados em tecido; nada se perdia, tudo era aproveitado, diz Resnais. Os excessos, os tortos, desempregados, os judeus e ciganos, os doentes mentais, toda dobra e curva na raça pura era apropriado, separado, triturado, processado, escravizado – os arianos reinavam sobre tronos feitos de não-arianos, braços, pernas, filhos, avós.

  Não longe dali, em São Paulo, 2010, novos desvalidos, novas técnicas, novos desdobramentos: Jair Mari, em aula conferida dia 17 de agosto, afirma: “o impacto das doenças se mede pelos anos de vida saudável que ela priva a sociedade. Assim, se uma criança morre, a sociedade perdeu 74 anos de vida saudável. […] Com a utilização das técnicas corretas (que ele nomeia, mas omito para não me meter em encrencas que não me dizem respeito) um portador de esquizofrenia pode ser rapidamente tratado e reinserido no… ambiente [mercado?] de trabalho; nesta medida, não podemos simplesmente pensar nos custos do tratamento, já que, bem tratado, um doente pode trabalhar e gerar impostos, devolvendo à sociedade o investimento”.

  De fato… mas, para que a eficiência seja maior, para que os investimentos tenham um maior retorno, para que a sociedade perca menos anos de vida saudável, talvez o ideal seja que aqueles que passam por um surto esquizofrênico devam ser quimicamente castrados – assim, seu material genético, que é comprovadamente diferente do de uma pessoa saudável (ou “geneticamente pura”) deixa de impor à sociedade “anos de vida doentes”.

  É uma leitura ideológica, com certeza. O sofrimento existe, e deve ser tratado, com certeza. E com certeza… sem sombra de dúvida… aquelas ruínas que podemos admirar em diversos locais da Europa são simplesmente um tributo a alguns anos tristes e doentes de história, superados e esquecidos no tempo.

   Sem dúvida.

 

W, 2010

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Um comentário sobre “Breve comentário a Noite e Neblina, de Alain Resnais

  1. Will, um filho

    Sem palavras a respeito de Sao Paulo 17/08/2010, citado no texto. Prefiro pensar que se trata de uma literatura sombria do que duvidar sobre a existencia destas palavras proferidas.

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