“Casa grande e senzala”, de Gilberto Freyre – Impressões de leitura

Edição consultada: 51ª. Edição revista (2006), 13ª reimpressão (2021); Global editora, apresentação de Fernando Henrique Cardoso, biobliografia de Edson Nery da Fonseca.

Uns dias atrás terminei de ler o “Casa grande e senzala”, do Gilberto Freyre. Compartilho aqui algumas impressões de leitura, para fins de uso pessoal (memória e registro), mas também como sinalizações a respeito da obra para quem porventura se interesse. No contexto desse segundo caso, convém avisar que o que segue certamente não servirá como “fichamento” para quem quiser se poupar o trabalho de ler – e isso por ser eu um anotador parcial e um crítico com pendor bem impressionista. Dito isso, seguimos.
Quem lê isso aqui deve saber que “Casa grande e senzala” é um clássico de sociologia do Brasil, tendo sido publicado originalmente em 1933 (o “Raízes do Brasil”, seu irmãozinho caçula, saiu em 1936). Vejo o livro como uma espécie de discurso fúnebre para o Brasil centrado nas monoculturas latifundárias patriarcais – sistema de referência de toda a análise do livro. Digo isso porque em 1933 a Primeira República já estava terminada, Getúlio já estava começando a avançar com as suas propostas de industrialização e organização das dinâmicas fabris, e um processo de urbanização que mudaria (um tico) as feições nacionais estudadas/celebradas por Freyre já estava em curso.
Vale notar, nesse sentido, que as tais mudanças em curso naquela época não chegam em absoluto a descaracterizar a figura – a gente lê “Casa grande e senzala” e reconhece ali muito do que ainda funciona por aqui; de fato, Freyre se propõe a mostrar algo acerca do “espírito” do povo brasileiro em função de sua história de formação e da contribuição dos povos que o habitaram e construíram. Mas, para além da análise, na letra do Freyre a “sociologia dos costumes” do Brasil vem bem carregada de um apreço saudoso à dinâmica das plantations de cana e (menos enfatizadamente) de café, uma cultura em meio à qual ele viveu (ainda que, tendo nascido em 1900, ele não chegou a “usufruir” do regime escravocrata em si, tendo se regalado “meramente” com as heranças do regime; engraçado, nesse sentido, é que ele chega a citar a máxima de Nabuco segundo a qual “não basta abolir a escravidão, é necessário enterrar sua obra”, mesmo que a impressão que deixe é que não tem tanto interesse em enterrar a obra, de que ele é bem afeiçoado).
Por falar na figura do autor, Giba foi claramente um cara estudioso – foi pra Columbia, estudou com Franz Boas, leu um bocado de eugenistas franceses e italianos, além de uma pilha impressionante de relatos e causos e documentos de arquivo que ele foi coletando país(es) afora – fiquei pensando, por sinal, quem pagava os boletos dele, considerando que ele nitidamente não contava moedas no período em que desenvolveu o livro. De qualquer forma, o importante aqui é que o projeto do livro não é ingênuo ou simplório: o cara estudou muita coisa e dialoga com muitas referências históricas fortes; uma coisa que achei bem legal da leitura, por sinal, é o detalhe e o cuidado técnico com a retratação da história do Brasil e da dinâmica das relações cotidianas ao longo da história brasileira (superando em muito a caricatura de grandes pinceladas que eu conheço de minha formação básica e de outras leituras mais “panorâmicas” sobre a história do Brasil). Tem um quê de Rolando Boldrim no livro: um contador de histórias do Brasilzão, dando um panorama bem mais afetivo, de fato, ao tema (que contrasta, por sinal, com os trabalhos em geral bem técnicos do “História da vida privada no Brasil” – em termos de história da vida privada, os historiadores da coleção são bem comedidos, e Gilberto Freyre encarna aqui quase um Nélson Rodrigues na retratação das intimidades).
Como disse, o livro funciona como uma análise do Brasil construída em termos de sociologia dos costumes (no prefácio Freyre afirma isso explicitamente), e nesse intuito ele elege como palco dramático a unidade de plantação latifundiária, especificamente a fazenda de cana do Nordeste. A edição que eu usei tem até um mini-pôster do “Engenho Noruega”, de onde Freyre traz alguns relatos memoriais e casuísticos. Ele aborda outros ambientes, como as plantações de café, as grandes cidades, as missões jesuíticas e alguns outros – mas o centro do drama do relato freyreano nesse livro é nitidamente a plantação de cana do Nordeste brasileiro, sendo nesse ambiente que a casa grande e a senzala referidos no título estão localizados na imaginação do autor, quanto a isso resta pouquíssima dúvida; se for arriscar ser mais específico ainda, diria que ele ficava ali imaginando um grande engenho da Pernambuco do século XVII – era por ali que ele estava vislumbrando o caldeirão do “povo brasileiro” miscigenado “democraticamente”.
Por falar nisso… afora o palco central do drama, vale menção o destaque que ele confere à discussão eugênica. Sim, ele fala muito de eugenia, e nesse sentido, curiosamente, a leitura do livro me remeteu a alguns textos de “psicanálise aplicada” do Freud, e dentre estes particularmente o “Psicologia das massas…” e o “Totem e tabu” – isso porque tanto em Sig quanto em Giba você encontra um homem branco estudando com apuro técnico questões específicas, que no entanto são tratadas num caldo conceitual obscenamente embebido do “racismo científico” que ainda não estava devidamente morto naquela época. Pra quem for ler, então, fica a dica: prepare o estômago pra avaliações bem nojentas sobre a “contribuição disgênica” dos povos semitas, pra uma “escala de desenvolvimento eugênico” dos povos africanos que compõem a “mão de obra” do Brasil escravocrata, uma comparação dos antecedentes “visigodos” e “arianos” com os antecedentes “norte-africanos” do português que cá aportou em 1500, esse tipo de coisa. Não se trata, claro, de um arroto racista como aqueles de nosso presidente – são mais “degustações” racistas avançadas com finesse e apuro conceitual (não sei se isso é melhor ou pior, honestamente).
A estrutura do livro, por sinal, responde estritamente a essa análise dos “povos formadores”. Conta cinco capítulos: um é introdutório, onde se apresenta o argumento geral (ênfase nos povos em detrimento do clima, recusa das hipóteses simplificadoras da época, apresentação da hipótese “miscigenista” etc); o segundo capítulo trata das contribuições “eugênicas e disgênicas”, bem como sociais e culturais, dos povos originários (indígenas); o terceiro trata da contribuição dos portugueses (com alguma menção a jesuítas, holandeses e franceses), nos mesmos termos; o quarto e o quinto tratam das mesmas coisas no que diz respeito aos africanos. Para cada um dos “grandes povos” estudados o autor traz uma discussão acerca da composição cultural, social e “genética” envolvida – do ponto de vista “genético” aborda os componentes de cada “grande povo” (a heterogeneidade intrínseca ao que chamamos de “índos”, “brancos” e “negros”) em termos de sua dispersão geográfica e suas peculiaridades “genéticas” (componentes mais “eugênicos” e mais “disgênicos” envolvidos); do ponto de vista cultural aborda principalmente elementos “originários” de cada um dos grandes grupos que foram absorvidos pela cultura “tradicional” brasileira (do tempo e meio de Freyre, claro), abordando aí tradições religiosas, culinárias, agrárias, rituais de casamento, nascimento e funeral etc. do ponto de vista “social”, por fim, aborda a maior ou menor “evolução” do povo em vista (em termos de seu “grau civilizacional”, condições técnicas, disposição ao trabalho etc). No sentido dessas análises aparece um tanto da sofisticação da pesquisa de base com que contava Freyre: o sujeito rodou o país, mergulhou em bibliotecas e acervos pessoais, estudou em diversas faculdades… fez um trabalho de pesquisa bastante robusto. O que resulta daí é um retrato com uma conotação bastante intimista, e um disposição de autoridade bastante firme – mais de uma vez ele desqualifica autores consagrados (em seu tempo) a partir de sua experiência pessoal, pura e simplesmente (e o ponto aqui é que sua experiência pessoal envolvia muita pesquisa, de forma que o gesto não é tão tosco quanto poderia parecer à primeira vista). Freyre, então, já aparece aqui como um intelectual no sentido mais clássico: uma pessoa com ampla formação de base, repertório diversificado e especializado, uma bagagem tão eclética quanto técnica, importando em um sujeito que fala a partir do lugar de saber. É meio incômodo, e dado o tom anacrônico de boa parte de suas referências é bem irritante, aqui e ali, mas não deixa de ser bonito de ver.

Do ponto de vista do estilo, chama a atenção a tranquilidade com que o autor se dá todo tempo e liberdade para desenvolver seu argumento: o texto flui entre idas e vindas, incluindo longas digressões e pormenores aparentemente laterais em vista da discussão e um aparato de notas assustadoramente prolixo. Pra quem tem pressa ao ler, as quase 700 páginas incomodam por parecerem excessivas – ainda que, curiosamente, essa característica “contadora de histórias” e esse clima de prosa ao pé de fogueira comportam uma parte significativa do encanto do livro: os detalhes, as curiosidades, as intimidades e, em geral, o clima intimista do livro são parte importante de seu duradouro impacto (até onde posso ver).

Claro que isso não implica em desconsiderar, claro, o polêmico argumento central: a miscigenação ocorrida no Brasil como característica fundamental de nossa nação. Aqui, por sinal, Freyre é bem claro: os negros que cá viveram e vivem não são de forma alguma toscos bosquímanos, e têm em grande medida uma origem mais desenvolvida e sofisticada do que os portugueses que comandavam os engenhos; já quanto aos indígenas sua opinião é pouco lisonjeira: salvo algumas práticas agrícolas (que ele nem gosta muito, como a coivara) e algumas práticas obstétricas e de puericultura, o que os indígenas aportam Freyre vê com maus olhos – para alegria dele, a impressão é que eles aportaram pouco, por terem sido esquivos, indolentes, constitucionalmente frágeis e/ou submissos. Seja como for, o “caldo civilizacional” brasileiro não teria preservado verticalidades e discriminações perenes, sendo, isso sim, caracterizado pela mistura, cruzamento entre raças e culturas e tradições (a casa grande e a senzala sendo muito mais ligados do que separados). O argumento, como se sabe, é problemático em muitos sentidos: de origem, porque é racista; de caráter, por diminuir deliberadamente para fins de análise as violências atrozes que atravessam a história do país; de contorno, porque enfatiza deliberadamente as “pequenas nações” que foram os latifúndios escravistas e deixa em segundo plano todas contribuições alheias a ele (as missões, as cidades, os quilombos e mocambos, os povoamentos indígenas integrados no circuito social e econômico mais amplo, as incursões de outros povos como o francês e o holandês). Esse último ponto, claro, pode ser atribuído ao foco eleito para análise, mas o impacto que o foco comporta para a análise do tema pode bem ser considerada uma distorção, e o fato de o autor sinalizar para sua consciência acerca dos elementos desprestigiados não qualifica, por si só, a escolha feita. Quanto ao racismo da análise e quanto à desconsideração do papel da violência na constituição da nação, creio não haver necessidade de explicação.

Outro elemento que creio ser digno de nota é o intercâmbio silencioso entre a argumentação de Freyre e aquela que seria apresentada por Buarque de Holanda apenas 3 anos depois. Digo isso porque, a despeito das diferenças de ênfase e encaminhamento, ambos apontam longamente para o impacto decisivo do “estilo” colonial adotado por Portugal, e para a forma como ele estabelece linhas de força decisivas (radiculares, diria Holanda) para a experiência nacional. O contraste entre a colonização espanhola “civilizacional” e imperativa e a colonização portuguesa “indolente” e pouco sistemática, por exemplo, aparece em ambas as análises. Cabe menciona, por fim, que Freyre cita Buarque de Holanda mais de uma vez, e em uma das notas de rodapé fica claro que os dois pensadores trocavam ideias, de forma que as semelhanças não devem ser coincidência.

Quando se contrastam “Casa grande e senzala” e “Raízes do Brasil”, por sinal, um outro elemento salta aos olhos: a ausência de encaminhamento ou atribuição de intencionalidade à análise, no caso de Freyre. O que quero dizer com isso é que o livro se estrutura sem que deixe claro seu ponto ou seu posicionamento diante da conjuntura em meio à qual é publicado. Fica claro que apresenta uma hipótese culturalista, e que rechaça racismos verticalizantes que relegavam o negro brasileiro à condição de inferioridade crônica; também fica claro que defende a existência de uma cultura que existe para além do mero atraso civilizacional (pautada pela mistura e sem grandiosidade intrínseca, mas ainda assim singular e dotada de força e adaptação em termos das condições em que se exerce); mas não parece haver esforço da parte do autor em “passar recado” em relação à conjuntura sócio-política, aos autores com os quais interage ou mesmo aos autores de referência em relação aos quais divergiria – as divergências aparecem, mas num clima que lembra mais conversa de bar do que debate acadêmico ou intelectual. Nesse sentido, Freyre parece um conferencista de honra, desinteressado nos demais palestrantes ou nas condições de tempo e tema que lhe tivessem sido impostas: sobe ao palanque e se põe a falar aquilo que preparou, leve o tempo que levar, envolva as digressões que envolver, cite-se quem seja necessário citar. Significativo, nesse sentido, é o fato de o livro não ter “considerações finais”, “encaminhamento”, “conclusão”… termina o último capítulo quando terminam as considerações que o autor achou por bem trazer à luz em termos do tema do capítulo (“os negros” e suas contribuições para a sexualidade e a ritualística nacional). Eu, particularmente, sinto muita falta desse tipo de contorno retórico à comunicação – mesmo num livro de 700 páginas (principalmente num livro de 700 páginas, talvez), espero que o autor sinalize claramente aquilo a que se propôs e como avalia que isso contribui para os debates em curso e o tema que acolhe a obra.

Esse breve texto tem 5, e não 700 páginas, mas não vou falhar àquilo que acabei de dizer que valorizo, então vamos às considerações finais. A apresentação de Fernando Henrique Cardoso à edição que usei é intitulada “um livro perene”, e fiquei pensando: será que é? E penso que sim, é um livro perene. Antes de mais nada, porque é um clássico, e um livro histórico (será lido, no mínimo, porque é historicamente relevante). Segundo (nisso sigo FHC) porque alguns argumentos de Freyre parecem incontornáveis no debate sobre o Brasil – mesmo que se queira discordar taxativamente, faz-se necessário um posicionamento relativo (explícito ou não), e isso por si só já eterniza a obra. Além disso, como já disse, pela intimidade do autor com o Brasil de seu tempo, e com a dimensão fascinante de seus relatos sobre as intimidades da vida agrária escravista. Mas – peço perdão pela licença de criticar um livro como esse – acho o livro mais longo do que seria necessário (mesmo em vista do efeito “contador de causos”, seria possível enxugar sem prejuízo da obra), e a disposição meio caótica do conteúdo me irrita – queria muito que houvesse uma conclusão, e que os cinco capítulos fossem bem estruturados como é o prefácio do autor, ou pelo menos que contasse com sub-títulos que ajudassem a navegação (e que obrigariam o autor a se localizar nas próprias discussões, também, rearranjando as digressões em unidades temáticas mais organizadas). Idealmente, gostaria que Freyre e Holanda tivessem unido forças, num livro tão claro e tão elegante quanto “Casa grande e senzala”, tão bem articulado e conciso quanto “Raízes do Brasil”… acho que daria um belíssimo livro – não que os dois livros que efetivamente existem não sejam bons, porque de fato são, mas “Raízes” poderia ser mais longo e menos árido, e “Casa grande” poderia ser menos longo e mais organizado. Isso dito: recomendo a leitura? Recomendo, particularmente a apresentação de FHC, o Prefácio e o primeiro capítulo – daí em diante o cansaço se faz notar no leitor, enquanto o autor só faz se empolgar nas digressões. Pra quem se interessa pelos clássicos, gosta de livros longos e quer entender melhor a história do Brasil, no entanto, o livro é imprescindível.

Para além do estilo e calibre, acho que a escolha do autor em desprivilegiar a violência no processo de estruturação de nosso país faz com que a obra falhe em oferecer recursos para compreender aspectos fundamentais de nosso contemporâneo – a própria figura de Bolsonaro, por exemplo, não é compreensível sem recurso ao revanchismo ressentido de uma branquitude supremacista e ciosa de seus privilégios (oriunda não só das casas grandes e dos redutos escravistas mais famosos, mas também de estratos mais “periféricos” de nossa realidade agrária, como é o caso dos famosos “bananicultores” do vale do Ribeira); supor que Bolsonaro deriva diretamente da ditadura é desconsiderar um lastro violento que retorna muito no tempo e no espaço (seu ódio aos quilombos, por exemplo, relaciona diretamente com essa dimensão em sua formação e inserção cultural). Digo isso porque a hipótese da “miscigenação” serviu para passar pano na herança racista do Brasil, evidentemente, mas também acabou limitando o escopo de análises sociológicas na consideração da violência que funda e sustenta a nação – e isso pode ser relacionado às escolhas “de papo de beira de fogueira” que Freyre incutiu em seu clássico e incontornável texto.

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