Construir as pirâmides

Estamos despertos, atentos, engajados: diligentemente caminhamos, passo firme, para cá e para lá, arrumando com esmero a cova rasa que em breve será nossa morada.

Ou melhor: que já é nossa morada. Aqui vivemos, dia e noite, e se há algum lugar no mundo que podemos chamar de casa, só poder ser este.

Talvez não seja o melhor nome.

Acorda-se cedo; trabalha-se muito; questiona-se pouco; hesita-se, intimamente, o tempo todo, a coragem que resta a nos ranger os dentes fracos. Impetuosamente rangemos os dentes. Eventualmente eles quebram – sempre tarde demais, sempre nada muda.

Há quem bufe. Um ou outro esbraveja. Todos temem, principalmente quando alguém esbraveja: será agora a hora? Será agora a hora em que o que esteve o tempo todo vindo enfim virá? Será agora a libertação do horror que estivemos habitando em casulo?

Nulos somos, muitos, todos. O ódio que nos encharca dia e noite já se nos pegou à pele, já nos alagou por dentro, já é o ódio alheio que nos move quando olhamos à volta.

Eu arrasto pedras. Meu nome é 21.791.860/9. Não tenho coragem de empreender, não sou bem formado nem bem nascido, não tenho coragem ou dotes ou esperança. Eu aguardo a morte, que tem demorado cada vez mais – há quem diga que ela anda mais diligente, ultimamente; ninguém sabe, e ninguém sentirá falta desse tipo de moldura para um mundo já tão saturado de sentido.

Eu arrasto pedras, daqui para lá, isso é quem sou. Todo dia. O tempo todo. As pedras merecem mais atenção que eu, não falemos mais de mim, falemos das pedras. Contemplem as pedras: algumas brilham, cabem nos bolsos; algumas, firmes e pesadas, sustentam castelos: com elas constroem-se emperequetados muros, dentro dos quais são cultivados castelos de papel-moeda, arrogância e violência; algumas, sublimes, viram fumaça quando se as acende em cachimbos improvisados: estas consomem almas que rechiema, saturam nossa cidade dos mortos, as almas sublimadas vacilando pelas vielas e avenidas, desdobrando-se em ilhas de iminência, calor e descaso.

As pedras carregam os homens até o topo de uma montanha, mas de lá os homens insistem em deslizar – Sísifo trabalho, esse das pedras. A princípio os homens se avolumam aqui, na cova rasa que chamamos de mundo, ou de Brasil, ou de planeta Terra – a cova nunca responder, os muitos nomes pouca diferença fazem. As pedras arrasam os homens, amassando-os a partir desse fundo de vale em direção a um de dois morros – pouco importa se os chamarmos Materiais e Imateriais, Certo e Errado, Bem e Mal, Torto e Direito, Direita e Esquerda: o único ponto relevante é que as pedras arrasam os homens morro acima, como se fossem massa espalhada pelo rolo de macarrão, até que eventualmente o morro os abale uma vez mais à cova rasa.

Nada disso importa. O tempo urge. É imprescindível que façamos nosso melhor, para que as pedras subam. As pedras devem subir.

Não estamos alheios, e não estamos impotentes: sabemos o que deve ser feito, e o que deve ser feito está sendo feito. Num outro mundo impossível nossos olhares cruzariam, enxergaríamos através do ódio que enxerga através de nós, veríamos brilhar alguma coisa – Liberdade, Felicidade, Igualdade, Fraternidade, aqui também o nome não importa – e esse brilho nos fascinaria. Unir-nos-íamos, eventualmente. Lembraríamos do valor de nossas vidas, e poderíamos enfim reconhecer aquilo que nos une para além de qualquer…

De que eu falava, mesmo?

Ah, sim: estamos despertos, atentos, engajados: diligentemente caminhamos: as pedras devem subir.

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