As aventuras de Cidadão Comum. Episódio de hoje: Batalha na Cozinha! Versão brasileira: Herbert Ritchers

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Cidadão Comum chega em casa cansado, após um longo dia de trabalho, e lentamente enrola os fones de ouvido em que estivera, até então, ouvindo James Brown. Enrola os fones de ouvido, enrolando, e enrola enquanto tira a gravata, e a camisa, enrola enquanto veste a bermuda e lava o rosto – enrola como pode, mas não engana ninguém: Cidadão Comum, livre enfim do martírio do trabalho, não sabe o que fazer de sua ainda jovem noite.

É uma noite fria na capital paulista, embora não fria o suficiente para afastar de Cidadão Comum os interesses e o desejo de algo que o anime e o liberte do cansaço e do desânimo que um trabalho desgastante trazem consigo.

As possibilidades passam diante de seus olhos, uma a uma, como se estivessem dispostas em um cardápio: uma corrida saudável pelo parque? Uma busca por amigos que estejam em algum bar para, eventualmente, uma noite com amigos em um bar? Uma pizza com Netflix e cerveja?

Cidadão Comum se desinteressa diante das perspectivas – tudo muito usual, tudo muito basic. Cidadão Comum precisa de um desafio, algo estimulante, e por isso recorre ao inesperado:

A Cozinha!

Será uma noite estimulante, marcada pela aventura e pela emoção. As portas do armário se abrem e revelam as condições iniciais para ojogo: atum e milho enlatados, azeitonas e champignons ensacados, alguns tipos de pó variados – o Cidadão Comum reconhece farinha, café, açúcar e dois misteriosos, provavelmente portadores de nomes compostos e funções nebulosas. Ilumina-se, então, a geladeira, revelando potes de alimentos egressos de refeições anteriores, iogurte, cervejas, ovos, verduras e legumes.

Cidadão Comum é nesse momento presa fácil para a dúvida excruciante: aventurar-se-ia pelas inóspitas terras das massas? Deixar-se-ia levar pela cerveja e pela carne sedutoramente disponíveis? Em meio a essas e outras alternativas e sem saber para onde ir, Cidadão Comum é subitamente tomado pela chegada avassaladora do

Capitão Gourmet!

Capitão Gourmet torna estranhamente brilhantes os pós desconhecidos, o ovo, os legumes, faz com que palavras estranhas como “claras em neve”, “flutuação” e “deixe descansar” tomem a mente de Cidadão Comum. Cidadão Comum, indefeso, imagina um longo chapéu branco emergir do topo de sua cabeça, cobrindo-o com certezas e lembranças estranhas de dotes culinários, precisões motoras e aptidões gustativas. Cidadão Comum já se cobria fatalmente em meio à mise em scéne, prevendo horas de preparos e cozimentos e descansos e delicadas mexidas, quando surge em seu socorro o estrondoso

Ogro Culinário!

, arremessando preguiças e praticidades, afastando os termos franceses e as minúcias harmonizadoras. Capitão Gourmet é pego de surpresa e exclama impropérios, anuncia a vinda de aspargos orgânicos e uma revoada de chias e blueberries que esconderiam o sol do céu. Cidadão Comum via-se perdido em meio à balbúrdia, lembra indefeso de seus singelos votos por uma noite agradável enquanto sente todos os potes, ingredientes e utensílios da cozinha esparramarem-se inutilmente pela bancada. As perspectivas tornavam-se mais e mais medonhas à medida em que o confronto escalava, as acusações e receitas e impropérios tomavam conta da cozinha e da vida de Cidadão Comum, que já não via perspectivas de satisfazer-se nunca mais com uma refeição, simples ou sofisticada. Desesperava-se a um só tempo pela falta de hambúrgueres de 250 gramas e de tofu, por não ter posto filés Saint Peter no chão de alfafa pela manhã e por não ter estômago para comer uma fritada com bacon a essa hora.

Tudo parecia perdido quando de repente, não mais que de repente, Cidadão Comum lembrou-se da única salvação possível, retirada de uma lembrança fugidia do filme “O advogado do diabo” – que se ele revisse naquela noite provavelmente já não gostaria mais (mas talvez pudesse assistir algum outro filme). Enfim:  lembrou-se do

livre arbítrio!

Cidadão Comum não seria salvo por um ou por outro dos colossos em conflito e sentia que estaria mais satisfeito “assaltando a geladeira”, como longos anos antes seu avô lhe ensinara. Não, nada de culinárias ogras! Não, nada de receitas gourmet! Enquanto o mundo fosse mundo e Cidadão Comum fosse dono de seu próprio nariz, haveria ainda espaço para comidas requentadas na geladeira e comidas diretamente no tupperware; haveria espaço para pizzas e comidas chinesas delivery e, ah!, se haveria, espaço para misto frio com catchup de marcas fajutas!

E foi assim que, numa noite qualquer, em um tempo não tão distante da vida selvagem na capital paulista, um homem comeu carne de panela com arroz e catchup, com uma colher, uma lata de cerveja e a felicidade de uma criança.

 

Um comentário em “As aventuras de Cidadão Comum. Episódio de hoje: Batalha na Cozinha! Versão brasileira: Herbert Ritchers

  1. Amei!!!! Felicidade de uma criança para o Cidadão Comum!!!!!

    Enviado do meu iPhoneAmei

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