Os direitos trabalhistas

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Um velho chamado Expedito não podia demorar tanto a morrer – tinha de ser mais expedito ao empacotar-se, tinha de perceber a hora da partida e partir de uma vez. Mas não: fica aí o velho a fazer hora, a fazer dia e mês e ano. Fico eu a velar minhas horas, dias e meses e anos a passar, fio eu meus anos a velar um velho que já nem envelhece mais.

Já não sei bem que dia é, não sei bem se faz frio ou calor lá fora, não sei bem onde estamos nem como andam as coisas lá onde o mundo é real e as coisas importam. Vivo num mundo estranho a mim mesmo, todo regulado por regras próprias, um calendário e uma sociedade regida por sopinhas e remédios e sondas e banhos, xixis e cocôs e lençóis e potes, comprimidos e copos e canecas e embalagens. Vivo sequestrado nesse mundo em que não pertenço, mundo que gira a meu redor e em redor do qual giro, perdido de mim mesmo, dois sóis apagados a fazerem-se sombra.

Vez por outra vem o seu Arlindo. Aparece sem avisar, como se quisesse pegar-me no flagra estuprando o velho ou criando uma família às custas deles e do meu salário. Chega faminto de desgraças que possa despejar sobre mim, ávido de espertezas que possa arrogar a si, emburrecido de tanta astúcia sem propósito. Encontra-me sempre abobalhado, envolvido em blísteres encapsulados em caixas de comprimidos embrulhados em lençóis sujos guardados em imensos sacos plásticos; encontra-me esmaecido, esvaído, embranquiçado por detrás de tudo que me embrulha nessa caixa de angústia sem cor e sem vida.

Toma-me por simplório, e há de ter razão. Pergunta dos expedientes como quem faz chamada oral, tirando-me a lição dos cuidados ao passo que esbanja sua vaidade por saber do que se passa ao redor do corpo de seu pai, como uma proximidade que o absolvesse de em absoluto não se importar.

Como se o  absolvesse de perceber, ao redor do pai, ser um mau filho, um filho à espera de que morra de uma vez por todas o pai que já viveu demais.

Disfarça de mim a óbvia irregularidade do acordo que temos. Finge que somos família. Agradece-me sem querer entrar em detalhes. Disfarça a inquietude. Deve pensar que vai ter que sumir comigo quando o pai por fim morrer; deve imaginar que eu vá entrar na justiça e exigir meus “direito”, deve falar mal de mim para sua esposa espumando a raiva que ama sentir ao inventar interesses maldosos e mesquinhos em mim.

Deve saber, na sua paranoia vaidosa, abusos de meus pais e avós e bisavós, invasões de terras e acusações indevidas e rancores ingratos endereçados a patrões que lhes garantiriam o pão de cada dia com a maior boa vontade e generosidade.

Deve lutar para esconder de si a certeza de que eu não mereço o pão que custo a ele.

O Arlindo vem uma vez por mês. Deixa-me notícias sobre meu dinheiro, deixa-me os víveres imprescindíveis, deixa os remédios de seu pai, deixa-nos cientes de sermos indesejados e inoportunos por existirmos, deixa conosco toda a ansiedade que possa transpirar de si, como numa sauna de maus fluidos, e sai disfarçando a pressa que não se pode disfarçar.

O Arlindo importa menos do que imagina. Certamente imagina que aguardamos por ele a cada dia, como princesas numa torre aguardando o príncipe. Certamente imagina que repassamos estupidamente cada estúpido assunto que ele pincela, repassamos seus passos, imagina que vivemos alimentados por sua presença a nutrir a casa de vida e bons fluidos.

Certamente o Arlindo acha-se superior, envolvido em seus trabalhos e prazos e sua responsabilidade e família e seus lazeres-que-não-sei-nem-quero-saber-quais-são, envolvido em uma vida vivida lá fora mas tão plástica e envolvida em blísteres quanto essa que administro a seu pai de seis em seis e de oito em oito e de doze em doze horas, envolvido em si mesmo e esquecido dos absurdos que faz.

O velho Expedito se demora a morrer. De alguma forma é como se eu devesse agradecer, pelo pão de cada dia, pela casa e pela comida e pela roupa que eu mesmo lavo. De alguma forma é como se eu devesse dedicar-me a que ele vivesse o quanto conviesse ao que quer que seja que ainda vive nele, é como se eu devesse ser um ser iluminando seu caminho até que ele enfim vá para onde ainda não me compete ir e deixe-me seguir adiante com minha vida.

De alguma forma é como se eu devesse saber o que é minha vida.

É como se eu devesse enterrar o Expedito tão lentamente falecido e seguir, expeditamente, com minha vida. É como se eu devesse agradecer o Arlindo e os Silva Lopes por sua generosidade e pela oportunidade oferecida, como se eu devesse agradecer e seguir adiante, rumo ao que não importa a eles mas eu deveria saber e ter e ir logo pra lá deixá-los a sós consigo mesmos.

É como se eu fosse alguém que calhou ter de ter por perto, presente ainda em alguma foto em que posso ter aparecido ou na resposta sem jeito a algum neto que pergunte demais, mas esquecido sempre que possível.

Como se eu fosse descartável como uma caixa de comprimidos usada.

Como se eu não fosse processar os filhos da puta por terem-me imposto essas condições degradantes e criminosas de trabalho.

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