Uma noite dessas

Oi!

Sei que faz tempo, e sei que você provavelmente seguiu com sua vida e não tem interesse nenhum em ter notícias minhas; sei também que pela maneira como terminamos nossa última conversa você provavelmente não vai abrir esse e-mail ou, caso abra, vai torcer os dedos na expectativa de uma notícia ruim ou do relato de um sofrimento atroz que te traria aos lábios um farto sorriso. Sei, também, que eu mereço isso, não é com sarcasmo nem com qualquer pretensão de superioridade que digo isso, é que realmente parece curioso, mesmo a mim, escrever depois de tudo e depois de tanto tempo.

De qualquer forma não quero tomar seu tempo mais que o necessário – use-o como for, o tempo é seu e eu não pertenço mais aí… mas enfim: num encontro absolutamente casual um dia desses cruzei com você, de uma forma completamente intensa, reveladora, incrível, e tinha que te contar.

Eu sei, eu sei que você está em outro continente e circula por outros grupos, de forma que não poderíamos, em absoluto, cruzarmos por aí. Calma!

Bom, eu fui a um café de madrugada – sim, eu ainda faço isso – e estava lá, trabalhando; em algum momento da noite houve uma troca de turnos, mas eu não reparei. Quando fui pagar a conta, por volta de cinco horas da manhã, estava em polvorosa, o típico desses dias em que o trabalho rende; eu estava elétrica, cafeína, entusiasmo, muitas ideias na cabeça, tudo misturado – lembro mesmo, e é meio ridículo, que enquanto o atendente fechava a conta eu me mexia pra lá e pra cá, inquieta, parecia aquelas crianças apertadas para ir ao banheiro, uma cena!

De qualquer maneira, o menino demorava um pouco mais do que eu gostaria, e eu estava explodindo, não aguentava aquela espera em clima de elevador, então puxei um CD que estava à mostra ali em frente ao computador e comentei que aqueles CDs deveriam ir a um museu, porque ninguém compra mais CDs… era um comentário, normal, só pra quebrar o gelo, mas…

Ele deixou claro que me ouviu, apesar de não se virar em minha direção, nada desse estilo: ele deu uma leve inclinada no rosto, lateralmente, de forma que a orelha dele ficou apontada para mim, e eu vi que seus olhos de voltaram em minha direção, ainda que eu não pudesse vê-los, vi só o movimento, como se diz… da órbita? Enfim, foi mais ou menos como aquelas cenas de filme de ação, Wolverine, coisa do gênero. E enquanto eu falava ele inspirava muito ar, enchia os pulmões, era como se ele se irritasse, mas de forma muito primitiva, animalesca mesmo, e eu fui me arrependendo do que dizia – não pelo conteúdo do que dizia, porque pouco importava, mas porque ele me viu.

Entende? Ele me viu, e eu estava ridícula, cheia de alegria infantil por ter conseguido algumas piruetas no projeto, e estava ali puxando papo porque estava excitada, exposta, despreparada; de alguma maneira me senti como aquele moleque despreparado diante do mestre samurai, e o mestre samurai com um desprezo que nem chega a ser pessoal, é uma coisa que atravessa o sujeito por completo.

Aí ele me olhou. Nossa! Ele tinha uns olhos castanhos rajados , vários tons castanhos e uns raios pretos, um olhar bem animalesco, o branco dos olhos bem branco mesmo, e bem desenhado, acho mesmo que tinha um contorno negro em torno, sei lá, era um olhar louco! Não um olhar louco como o desses louquinhos de praça, era tipo, não sei, a grande loucura, a loucura do Hannibal, a loucura do Moisés, do Noé, era um olhar de algo mais além que atravessa aquela pessoa mas que não pertence a ela, que é superior ao tempo, a ele. Enquanto o olhar chegava a mim ele soltava o ar devagarinho, como quem está absolutamente confortável com o constrangimento que causa, não que o esteja causando de propósito, mas porque sabe que aquilo tudo lhe é fortuito e inferior, esse tipo de coisa. E, tendo me despido e me destruído por completo em um segundo, seu olhar baixou calmamente para o CD em minhas mãos, como o predador que ao abater a vítima contempla o sol e a paisagem; puxou então delicadamente o CD, de forma que a capa ficasse no campo de visão dele, e foi aí que um sorriso começou a surgir – não era um sorriso de diversão, era um sorriso superior, místico, o sorriso do Hannibal, perfeito, e foi com esse sorriso e já tendo exalado aquele suspiro-massacre que seus olhos voltaram a se fixar sobre os meus, já presa abatida, entregue, e foi assim que ele disse, num tom de voz quase condescendente: “museu, é?”, e deu uma leve exalada pelo nariz, sabe essa bem condescendente, arrogante? Então, essa.

Bom, eu tinha morrido, mais de uma vez. Não estava mais saltitante, nem exultante, era uma gazela acuada, à espera do destino, hipnotizada pelo cheiro forte do destino, quando ele chega. E os olhos, aqueles olhos, afundaram – alguém me disse, ou li em algum lugar, não sei, que quando os tubarões estão devorando suas presas seus olhos se retraem para que eles possam se alimentar sem perturbações, já ouviu falar nisso? Bom, eu vi isso acontecer, eu sei; o engraçado é que nesse contexto, com essa montagem, nessa ocasião, desse jeito, os olhos afundaram e o menino, muy calmamente o menino me disse: “um espresso, dois macchiatos, um misto quente e uma água com gás, são vinte e nove reais e trinta”.

Acredita? Foi isso – eu paguei, como quem paga fiança, e saí correndo de lá, entrei no carro, acendi um cigarro (eu parei, tenho uma meia dúzia no porta-luvas para não ter que usar calmante nem gilete , você me conhece) e fui aos poucos sobrevivendo àquilo.

O que foi aquilo? Não sei, absolutamente não sei. Não foi nada, você vai pensar, e pode ser: cafeína com sono e um pouco de falta de sexo, nada além disso. Mas não foi assim que eu vivi, não é assim que estou lembrando, e não é isso que me fez te escrever contando isso: acho que eu vi ali o que de animal existe no sexo, o que no sexo não depende dos corpos e dos fluidos e de tudo isso.

Bom, você já deve saber onde você entra nessa historia, por isso já posso conta-lo sem estragar o charme: nisso que vivi entendi o que passei com você, e entendi afinal porque você foi um meu parceiro tão importante tendo sido tudo tão ruim em todos os sentido usuais, auto-ajuda, hollywoodianos do que compõe uma relação. Claro – sejamos sinceros – que quando te escrevi, e agora o percebo claramente, queria também cutucar você, e queria tentar inverter os papeis, tê-lo uma vez ao menos sob meu controle, brincar com você como a baleia brinca com a foca capturada. A diferença, claro, é que eu nunca te capturei, e enquanto escrevo este e-mail você pode estar dormindo, transando, trabalhando (e você, ainda faz isso?), mas certamente não está aqui e o que capturo sob meu olhar é o fantasma do que você foi, o fantasma que você é em mim.

Quer saber o mais ridículo? Comprei o tal CD – The Corrs, live; terrível, óbvio, estou ouvindo agora. Se tiver oportunidade compre, vai me fazer feliz (sei que você não vai comprar, mas velhos hábitos não morrem tão fácil).

Bom, era isso. Boa noite e boa sorte, e beijo,

Inês

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