Dia dos namorados

Hoje, amor, hoje é dia dos namorados.

Deixa eles.

Deixa eles e vamos, nós, como se não houvesse tempo, dar uma volta; a gente pega o metrô, vai pra Paulista, roda por ali juntos, meio bobos meio alegres, fala um pouco das pequenezas da vida, faz planos que a gente sabe que não vai cumprir, dá risada da falsa seriedade da vida, brinca de estar tranquilo, a gente olha em volta e não vê nada, olha em volta e não vê ninguém.

Hoje, amor, eu olhei em volta e vi que nada no meu mundo eu vejo, nada à minha volta eu vejo, tudo que eu olho, em tudo que eu vejo eu vejo, na verdade, você. Porque você é o que faz o bonito dos dias correndo, sabia? Como aquele dia em que eu fui encontrar o Zito e o Beto, lembra? Estava lá com eles, e éramos adultos lembrando da infância, e tomando cerveja e falando mal dos políticos, e nada daquilo tinha sua cara, mas em algum momento a luz amarela do bar coincidiu com alguma viagem desinteressante do Zito e eu me peguei pensando naquilo tudo, e vi que estar bem no bar e falar sobre coisas aleatórias e não estar com você é uma das muitas presenças de você em mim, lá dentro, iluminando de dentro de mim o amarelo do bar – bonito bar ter luz amarela, não é? Do amarelo da luz do bar, da alegria de estar lá, do ar fresco da noite, do fundo daquele chopp fantástico, de tudo aquilo emanava, e era bonito, emanava meu amor por você.

Aí, é claro, hoje é dia dos namorados, e é dia das declarações de amor, e é dia de sermos românticos e dizermos coisas românticas; e hoje, como todo dia, é dia de sermos um casal tão feliz e tão bom como somos, e é dia de pegarmos fila para comer em algum restaurante, e é dia de comprar alguma das rosas que nos esfregam no rosto em cada farol, em cada esquina; é dia de comprar perfume, é dia de fazer declarações e postar fotos no Facebook. É dia de fazer bonito.

Mas hoje, amor, hoje é acima de tudo o dia depois de ontem, e o dia antes de amanhã, simples assim; hoje é dia de corrermos atrás de nós mesmos, amarrados em afazeres e em sermos alguéns e em estarmos-aí, e nisso tudo sermos como balõezinhos amarrados ao cabo de um fiozinho, vendendo-nos a nós mesmos no farol por dez reais, oito reais, dois por dez, três por dez, fazendo qualquer negócio, loucos para poder ir para casa. Hoje é dia de hoje, hoje é uma efeméride, é uma pequeneza.

E hoje… hoje, mais que ontem, menos que amanhã, hoje eu olho e te vejo no fundo de mim, brilhando as coisinhas que passam por mim, pequenas estrelas por aí, trazendo de sua lonjura a chance de nos distrairmos um pouco, de eu me empolgar em alguma besteira que li em algum lugar, de podermos rir do ridículo de sermos nós.

Hoje é dia dos namorados. Que seja. Eu, como sempre, te amo mais que tudo, mais que não sei quem sou, mais que não sei quem seria, e se não fosse o frescor de brisa, o brilho de estrela, a leveza de você sendo em mim o que de mim importa, amor, era bem capaz de eu levar o dia dos namorados mais a sério.

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