Dia do trabalho, dia do trabalhador

Eva acordou cedo no dia do trabalho. Não parece que ela sabe que hoje é dia do trabalho, todo dia é dia de trabalho, todo dia é do trabalho, o trabalho que é dono de Eva. No dia do trabalho, como em todos os dias, Eva e Maria e Carmen e as outras cujos nomes não se sabe trabalham, e trabalham, e trabalham. Lá fora, no dia do trabalho, não se trabalha, e até onde o sol alcança as pessoas vâo à praia, encontram os amigos, descansam, mas o sol há muito tempo não alcança aquilo que a Eva e Maria e Carmen faz as vezes de lar, e de oficina, e de fábrica, lá onde trabalham, lá onde, se deus quiser logo, Eva vai poder morrer e descansar. Mas isso não é já, e o jefe está sempre de olho, e a entrega está sempre atrasada, e é tudo sempre escuro, e as costas doem tanto, mas tanto, de se curvar sobre os fios e linhas, e o tempo passa rápido e devagar e sempre e nunca chega nada diferente, rápido demais a vida escorre, devagar demais para que faça sentido. Enquanto isso, lá fora, onde o sol alcança, sob as bênçãos do ar condicionado e da rádio e do olhar de bem da mãe a bianca vai escolher o vestido novo com que vai à balada, porque no dia do trabalho, já que é feriado, a balada é garantida, é o mínimo, né, e hoje é noite das meninas, e tem tequila. Não para a Eva, claro; ninguém sabe muito da Eva, e se alguém soubesse rapidamente esqueceria, sob as bênçãos da gente de bem e do ar condicionado, e de olho no preço porque com o brasil desse jeito não dá pra se descuidar, senão daqui a pouco estamos todos falidos, não é, filha, esse, então, é melhor não. Esse, que a Bibi acabou não comprando, custa cento e noventa e nove reais, dá pra parcelar em até seis vezes no cartão, e foi feito pela Eva, mas para todos os efeitos, para tudo que importa, ele é Made in Brazil. A Eva, por esse vestido, ganhou um real, perdeu a vida, e hoje, no dia do trabalho, celebramos a vida e a morte de Eva, com quem não nos importamos, e que sabemos que existe  e cujas roupas usamos, por quem nos compadecemos quando lemos a respeito no Facebook, antes de nos esquecermos que ela existe porque, para todos os efeitos e para tudo que importa, a Eva não existe mais, é um cadáver esperando a própria morte, antes de 2018 com toda a certeza, dadas as condições insalubres de sua vida sem sol. Feliz dia do trabalho, Eva! Finge, imagina, fantasia que a Bibi na balada vira uma tequila em sua homenagem, seu vestido ficou um charme nela, brilha que é como passarela, beijo pra ela, e um abraço pra você.

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