O mundo

O mundo é pequeno pra caramba
Tem alemão, italiano, italiana
O mundo, filé à milanesa
tem coreano, japones, japoneza

O mundo é uma salada russa
tem nego da Pérsia, tem nego da Prússia
O mundo é uma esfiha de carne
tem nego do Zâmbia, tem nego do Zaire

 

I. O mundo é pequeno pra caramba

Parece que houve falta de batatas fritas nos McDonald’s da Venezuela, soube disso? Pois é, saiu no Estadão – parece que a Venezuela já não tem lastro em dólares para importar as coisas de que precisa. Que coisa, não?

E a história do surfista, soube? Pois é, os policiais. Incrível.

Teve também a coisa da Nigéria, mas essa, claro, não repercutiu tanto, somos racistas até na repercussão de tragédias.

Soube do Estado Islâmico? Do Assange?

Soube  do show da Teresa Cristina? Foi à manifestação?

Já assistiu os indicados ao Oscar desse ano? Ou é mais ligado na linha Cannes?

Eu? Não, não acompanhei tudo isso – vi o que pude, claro: corria o Facebook, as grandes mídias, saltava os olhos, corria os olhos, voava os olhos como podia, aqui e ali. Agendava e reagendava, acomodava como podia, aproveitava o tempo no ônibus, e o tempo no metrô, e o tempo do farol e o tempo do elevador, tentando me inteirar, é muita coisa, e hoje em dia a gente não pode perder nada, né?, precisamos estar informados, é importante, muito importante, tem que fazer. Não é?

Pois é, também não sei.

Engraçado… um dia desses estava voltando de algum lugar perto de casa para minha casa, e ia a pé, caminho um pouco diferente mas com cara de todo dia, estava em casa; mas olhei prum lado e reparei que por cima, detrás de uns biombos se escondia uma pequena favela, numa espécie de terreno abandonado. Aqui do lado, na rua ali, ó.

Nunca tinha visto. Acredita? Uma favela, gente, algumas famílias no mínimo, moravam por aqui, eu nem sabia. Fica ali atrás do ponto de ônibus – se bobear eu estava ali, de costas pros biombos, lendo alguma coisa sobre as favelas em São Paulo, no Pragmatismo Político, no Estadão, no New York Times.

 

II. O cara à minha frente e o que eu vejo nele

Uns anos atrás morava num bairro onde também morava um mendigo. Simpatizava muito com ele – com ele levava sempre uma bicicleta e uns cadernos, e vez por outra via-o nessa sarjeta, naquele muro, escrevendo, matutando. Não falava com ele nem o conhecia, mas atribuía a seus caminhos interessâncias, grandezas, graças, edificantes e surpreendentes por-dizeres.

Um dia, saía da padaria, e o vi – estava sentado no chão, logo ali, e me viu no momento mesmo em que eu o vi. Mirou-me e disse, “senhor tem um trocado?”. Acho que eu tinha, mas pra ele não tinha, se tinha não daria, não devia, não sei, nem reparei nisso na hora: enchi-me de mim e respondi sorrindo, todo cúmplice “puxa, não tenho”; pouco importava, tanto em comum, tanto porvir… mas não: fechou-se e voltou a olhar a porta, à espera do próximo possível trocado.

Não soube mais dele, nem moro mais lá – a julgar pelas exceções honradamente expostas nos tabloides pode ter virado médico, passado em concurso, ganho na loto, virado modelo, pedreiro, doutor.

Acho que não.

Mas tudo bem: a vida é dele, eu e minhas grandezas sonhadas à custa dele não pagaram o pão dele, nem o meu – mas foi um grande cara, um grande encontro, e espero que ele esteja bem e feliz, cercado de gente mais ligada nele que em si mesmos.

Ou será que nunca o vi, nunca o conheci, e tudo que vi nele via injetando na imagem dele coisas minhas, enfeites e mimos mentais de um jovem em busca de sentido?

 

III. Santuário

Amós Oz conta em algum livro dele que sua avó tomava longos banhos em água fervente. Fervia a água numa banheira e lá se punha – uma, duas, três horas na água fervente. Ela, segundo ele, sentia que isso era necessário para eliminar os germes e bactérias. “Morreu cozida”, dizia ele a certa altura.

A colocação dele me marcou, “morreu cozida” – achei poético de uma forma curiosa, uma espécie de maldade edificante; tirava um sarro da própria avó ao mesmo tempo que cultivava a imagem dela, a avó com suas manias e trejeitos.

Meu pai teve também, certa época, uma mania, um trejeito: cozinhava batatas. Não é que cozinhava batatas para o almoço: cozinhava várias, creio eu que para vê-las cozidas ou algo do tipo. Estranhei, e teria feito, se tivesse o talento de Oz, homenagem semelhante a meu pai: um ritual, uma purificação, um jeito de ver-se livre dos germes que nos acossam.

Tenho hoje, eu também, minha mania: faço chá. Não importa tanto o chá, contanto que seja gelado (principalmente nas atuais circunstâncias); sendo gelado faço, sempre em grandes quantidades, chá mate, chá verde, chá de gengibre, camomila, o que for.

Não é tanto pelo chá. Gosto do chá, claro, e quando faço gosto de ter chá que possa tomar e que tenha sido eu a fazer. Mas há algo próprio ao tempo de fazer o chá: fica a água ali na leiteira, e cada tipo de chá demanda um timing para os ingredientes, e cada momento convida a uma dança do meu tempo com os afazeres da cozinha, cada chá e cada dia me levam com mais ou menos calma à louça, à roupa no varal, ao balcão que precisa de limpeza, e a água vai fervendo e os ingredientes vão pedindo seu tempo para entrarem também na dança.

Não é nada grandioso, não é transcendente em nenhum sentido imageticamente significativo; se eu fosse avô do Amos Oz ele faria horrores de mim, ou esqueceria de mim e dos meus chás.

Ou não.

Hoje fazia o chá, e via ali que o gengibre em breve ia subir – porque ele sobe à superfície um pouco antes da água ferver – e esperava por isso, não com pressa, mas com uma urgência própria ao tempo de estar ali. A urgência do gengibre. A urgência dos meus germes. Vi ali que tinha um santuário, santuário sem santo, santuário de ritualística profana, mas santuário ainda assim. E vi o bem que me faz ter um santuário que possa me acolher, e que possa me fazer olhar através de mim para algo que não me remete às grandezas e as urgências que cultivo e que um dia vão me engolir – e ali sacrifico meu tempo e a mim e aos meus ímpetos, santuário ridículo que me convida e me afasta de ser parte de um mundinho que é pequeno demais, grande demais.

Ficamos ali, eu e o gengibre esperando a hora de subir à superfície, e eu esperando a hora de ele subir,  e por ali, à nossa volta, dançam alemães e italianos e italianas, e eu não estou pensando em salvá-los nem em homenageá-los nem na ascensão e queda do império Qualquer.

O mundo é pequeno pra caramba; é bom, e é urgente, que possamos respeitar nossos santuários, e os santuários dos outros.

Senão os germes e as bactérias comem tudo.

 

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