Já há muito tempo não escrevo aqui. Tempo demais, talvez.

Encontrei há alguns dias um amigo que se surpreendeu quando soube que eu postava em um mesmo blog textos de literatura e ensaios – ensaios tanto acadêmicos quanto políticos, para agravar; ele pergunta, sarcástico: “é como um querido diário, então?”. Pode ser. Deve ser. Creio que é.

No diário adolescentes de outrora escreviam seus pendores, temores, paixões, confidências e inconfidências; lutavam para construir uma imagem de si, ou para destruir uma imagem de si, ou ambos. O diário é um lugar de exposição, exposição recoberta para que seja intenso e revelador quando for descoberto.

A grande diferença entre o que faço aqui e o que faziam os adolescentes de outrora é que eu não escondo os pendores e temores que me tomam, que me constroem e desconstroem, que me prendem e que me fogem. Escancaro-me aqui como posso, enquanto escritor e pensador e cidadão em formação e em deformação constante.

 Nisso acho que se salienta um posicionamento e uma convicção meus: acredito que devemos pensar, nos posicionar, criticar, tomar parte, mas acho muito ruim que isso com frequência assuma contornos ressentidos e rancorosos. A expressão mais clara disso, não por acaso, é aquela que convoca pela pressa: o tempo está passando, as coisas estão acontecendo, a hora é agora e quetais, e com isso a pessoa se posiciona porque não tem escolha – e quem não se posiciona é, por consequência, quem errou e não entendeu a urgência.

Outra grande diferença entre o que faço e os diários adolescentes é que os diários dos adolescentes de outrora eram (pelo que sei, eu mesmo nunca tinha tido até isso aqui) escritos diariamente – daí seu nome, creio. Aqui eu não sigo esse parâmetro, creio que está claro.

 Por um lado isso parece uma conquista e um ponto a ser sustentado: creio ser importante que o sujeito possa ser levado pelos próprios processos a pontos em que ele “perca o fio”, provisoriamente. Isso retoma em alguma medida o ponto anterior: se eu me obrigasse a postar diariamente no meu querido diário eu não postaria porque ele me é querido, postaria porque não tenho escolha. E aí, mesmo que postasse por obrigação mas com pendores passionais e como quem quer se entregar, eu necessariamente vincularia isso a um ponto de não-escolha, e aí creio que a ideia do engajamento e da construção perdem o que têm de mais potente.

 Pois bem: afastei-me, estive em outras paragens. O passar dos dias avolumou imposições e circulações outras, e as errâncias com meu querido diário ficaram sem espaço em minha agenda. Fico pensando: será que “perdi a hora”? Alienei-me? Perdi os eventos?

 Me parece que não. E o ponto principal, o ponto que quero salientar aqui, é que isso é chocante. Isso é assustador.

 Tomemos um exemplo: essa semana houve um acontecimento marcante, “imperdível”: Vladimir Safatle, com a contundência e a clareza de sempre, escreveu em sua coluna na Folha a respeito das manifestações clamando por intervenção militar. Seu texto recebeu pronta resposta de Rodrigo Constantino, recriminando as posturas de Safatle.

 Esse é o tipo de situação que clama por posicionamento. Há coisas importantes, inadiáveis, em causa: uma intervenção (golpe) militar, por um lado; a manutenção de um governo questionado e considerado golpista, por outro. Todos têm pressa, e é crucial para a história do país.

 Mas, vejam: Constantino critica Safatle; Safatle critica os clamores por intervenção militar; os clamores por intervenção militar criticam o governo; essa ciranda regride, ainda: se considerarmos que as manifestações pró-intervenção (como as pró-Aécio) ganharam força no contexto eleitoral, facilmente lembraremos as campanhas sobre “projetos de país” e sobre a “necessidade” de combate imperioso à mudança ou à continuidade.

 Inscreva-se a briga entre Constantino e Safatle na esteira que a abriga: Constantino já criticou Christian Dunker, que já criticou Reinaldo Azevedo, que já criticou todos representantes eminentes da esquerda, e por aí vai.

 Pois bem, quando li as acusações entre Safatle e Constantino pensei: “preciso escrever sobre isso”; com um pouco mais de cuidado ponderei a situação e cheguei à consideração seguinte: sinto que preciso escrever porque estou chegando em um momento do semestre em que é possível que escreva. Se essa mesma troca de acusações (não configura exatamente troca porque Safatle não se endereçou a Constantino, e me parece saudável da parte dele isso) acontecesse um ou dois meses atrás, não teria escrito a respeito dela nem pensado sobre a possibilidade de escrever.

 Isso poderia me fazer sentir alienado; pode ser que alguns lendo isso creiam que é disso que se trata: “ele pensa política por conveniência”, “é um alienado”. Penso que, se for assim, minha alienação é uma entre milhões, e precisamos  tentar entendê-la para que seja possível que um dia mude. Para além disso, no entanto, parece-me não ser exatamente esse o ponto: o ponto me parece ser que não há urgência nenhuma nisso. Triste, não é? Mas acho que é isso mesmo.

 O que fui sentindo é que essas acusações configuram um ping-pong nefasto que nos aliena a todos, já que a problemática não sai disso e não parece estar em vias de sair. O que sinto é que o buraco na política brasileira está para além dos “projetos de Brasil”, seja os “de esquerda” (que não me parecem de esquerda), seja os “de direita”. O que sinto é que há uma máquina confortavelmente instalada nos assentos fundamentais do Estado brasileiro, e é essa máquina que gera o que chamamos de “problemas urgentes” e que não parecem estar sendo endereçados em absoluto. O que sinto é que o Brasil não está em crise: ele só é politicamente feio de se olhar de frente.

 Querendo ser mais claro recorro a uma imagem: há um livro de Ian McEwan chamado “Jardim de Cimento”. Nele narra-se a história de três jovens que perdem os pais e, para evitar ser abrigados e institucionalizados, optam por esconder a mãe numa caixa de cimento no jardim (daí o título) para viver como puderem fingindo que estão ainda sob os cuidados dela. O livro narra a forma como eles oscilam entre o descuido, as tentativas de construção de uma “rotina” em estado de exceção, aproximando-se inexoravelmente do momento em que a crise explodirá – no livro essa aproximação é tratada simbolicamente pelas rachaduras na “caixa” de cimento e pela liberação de gases mal-cheirosos oriundos do corpo da mãe cimentada.

 Trago essa breve sinopse porque ela me parece ilustrar a situação da política nacional: discutimos esquerdas e direitas, projetos de Brasil “opostos” e “radicais” sem olhar para o fato de que algo está fundamentalmente errado nos fundamentos do fazer político do país. Cuidamos de questões “cruciais” e “fundamentais” que obviamente impactam e fazem diferença, mas que parecem trabalho de maquiagem sobre o fato cada dia mais evidente de que a estrutura política de base está absolutamente coaptada por uma aparelhagem de beneficiamento e escoamento. Meu ponto aqui não é “contra a corrupção”: o ponto é que o que chamamos corrupção é hoje algo “natural” e sistêmico. Meu ponto aqui é que a política brasileira toca o cotidiano a despeito da mãe morta, a despeito do cheiro podre, a despeito do fato de que algo fundamentalmente errado não tem sido endereçado.

 A mãe morta que vejo na política brasileira é a democracia. Morreu já no começo do livro – a “transição democrática” brasileira não instala democracia de fato e de direito, é mais uma solução negociada, mais uma maquiagem sobre o mesmo defunto.

 Espero que fique claro: não estou dizendo que estamos em crise política estrutural e que estamos à beira do colapso. Estou, na verdade, dizendo justamente o contrário: gente luta e morre, xinga e grita, argumenta e contra-argumenta, clama por revolução e por golpe, mas do ponto de vista da estrutura de país seguimos na mesma barca tentando conviver com o cheiro.

 E eu escrevo isso hoje, não porque é inelutável que escreva, mas porque tive tempo, e pude. Parece-me necessário rever os fundamentos das plataformas de confrontação e oposição, em busca de parâmetros de coerção estrutural que sejam menos inscritíveis à máquina e que causem maior embaraço. Não basta que um relatório leve um general a exclamar “ora bolas, que desacato”; parece-me necessário que um relatório leve um general a procurar por sua farda e suas medalhas, sem saber se elas estão lá e se elas garantirão a si e a seus descendentes polpudos rendimentos; não basta que empreiteiros passem por constrangimentos e acusações, é necessário que eles não saibam se vão conseguir se safar dessa ou não.

 Mas acima de tudo, e aí sim urgentemente, parece-me necessário reconhecer que nossas bandeiras defendem ideias e ideais justos e necessários, mas inscrevem-se em uma trama política que toma como pressuposto o que nos parece indignante e inaceitável. Parece-me necessário reconhecer que não vivemos em um estado democrático, mas sim em um estado burocrático-autoritário, estado de permanente exceção; em vista disso nossas liberdades individuais não são liberdades, nossas lutas não são ratificadas no que elas têm de fundamental, nossos espaços de manifestação são circo aos olhos daqueles que criticamos. Tomando uma imagem brega: como no filme Matrix, a resistência (Zion) é idealizada, sustentada e alimentada pelo poder instituído como o mais eficiente mecanismo de controle e manipulação ideológica; para que se lute a boa luta, parece-me, é preciso que abandonemos os sonhos nossos que em verdade nos foram incutidos insuspeitadamente.

 Afastei-me, tempo demais afastei-me de meu querido, tão querido diário. Não sei se foi de todo ruim – para que ele me seja querido, e diário, e para que seja meu, preciso que ele se possa perder de mim.

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