January Hymn

On a winter Sunday I go
To clear away the snow
And green the ground below

April all an ocean away
Is this the better way to spend the day?
Keeping the winter at bay

The Decemberists, “January Hymn”

 

Hmpf… acordou, é fato.

Ele virou de lado na cama; não que pretendesse voltar a dormir, nem que quisesse ficar mais na cama, ele sabia que já ia levantar, mas era uma espécie de reflexo, de gesto corporal de defesa: de lado, costas para a porta, rosto colado à parede. Talvez mais uns minutos assim, aproveitar a posição…

Mas logo ele se deu conta desse movimento imprudente; não, nada disso! Respirou fundo e virou de volta em um brusco e desengonçado salto lateral. Pés calçam as pantufas, caminham até o banheiro da suíte, mãos lavam o rosto, o rosto se olha no espelho: fundas olheiras, como sempre, mas o olhar parece um pouco mais vivaz. Ele tem dormido quase onze horas já há mais de cinco noites, logo as olheiras cederão; não há dúvida, cederão. Lava o rosto longamente, caprichando no L’Occitane de verbena que se deu de presente – um pequeno mimo – para refrescar.

Enquanto vestia a calça e as meias confirmava no hotel a reserva para o café da manhã – sim, o buffet, só o buffet. Até às 12 horas apenas? Perfeitamente, sem problemas, na verdade, desculpe o incômodo: que horas são? 10h? Ok, perfeitamente, até logo. Terminada a ligação vestiu a camisa e sem demora pôs-se na rua.

Logo que saiu à rua sentiu um pequeno incômodo no pé direito, agudo, intermitente, vinha com as pisadas. Uma pequena pedra, algo assim; não queria perder o ímpeto nem deixar-se abater: vestiu seu melhor sorriso e entrou no carro.

Assim que acessou a via expressa viu o carro desacelerando e delicadamente postando-se ao cabo da aparentemente infinita fila, trânsito a essa hora, ai ai. Bom, sem problemas, tem o dia para si, que mal há, quando chegar chegou.

Trânsito, trânsito infernal.

Música! Claro, música! Ok, liga o aplicativo, canais, quantos canais!, vejamos, achei: “chill out indie and folk”, ótimo, deve ser algo como Eric Clapton, Mark Knopfler, vamos ver…

The Decemberists… que será isso? January Hymn… ok.

Simpática a banda. Que mais? Jazz… energia… não, nada disso: vamos ver se a rádio fala algo do trânsito.

A rádio desfila as notícias: corrupção, escândalo, futebol, tragédia, economia, corrupção, atriz fecha contrato com a Playboy, trânsito, finalmente o trânsito! “Lentidão na via expressa devido ao excesso de veículos”.

Ótimo. Lindo. Genial. Bom, já estou chegando mesmo, tanto faz.

Quinze reais o valet? Meu deus! Bom, está bem.

No caminho entre o valet e o lobby sentiu mais uma vez a dor no sapato – precisava se livrar dessa dor.

Boa tarde, senhor.

Bom dia. Fiz reserva para o buffet de café da manhã?

Para hoje, senhor? Ok, o rapaz vai dirigi-lo ao salão.

Assim que sentou à mesa tirou o sapato direito (pensem o que quiserem, estou com dor) e vasculhou sapato e meia em busca da pedra responsável. Curiosamente não pôde encontrar a safada: deve ter caído quando tirou o sapato. Deu uma procurada rápida pelo chão mas não encontrou nada. Deu, então, uma colher de sopa à sensação de estar incomodando e passando vergonha e deu as buscas por encerradas.

O buffet já mostra sinais de cansaço: o pão de queijo não está fresco, as frutas que restaram são as que foram rejeitadas até agora, Pedro teve que chamar o garçon para que repusesse o café. Mas tudo bem, em geral o buffet estava bastante bom, muito melhor do que os cafés da manhã que tomara nos últimos meses. O pão com salsicha e omelete, é bem verdade, talvez tenha sido uma aventura temerária: sentiu uma ponta de indisposição assim que deu a primeira mordida, mas lembrou-se de seu traço hipocondríaco e perseverou – não se deixaria abalar por sabotagens, não mais. A laranja também não estava das melhores, mas laranja é rica em ácido ascórbico, certamente vale a pena.

Terminada a refeição e ingeridos os comprimidos da manhã voltou ao lobby. Os primeiros passos já trouxeram – e já com um certo horror – a mesma dor no pé. Desgraça de pedra!

Agradeço, boa tarde, passar bem.

O valet demora um pouco, e parece incomodar-se quando ele vistoria o carro em busca de ranhuras ou batidas, quando checa o step do porta-malas, o extintor de incêndio. Antes de partir checa o relógio: doze e trinta, havia tempo.

Toma o rumo do cinema, chega às doze e cinquenta, a sessão começa às quatorze. Deixa o carro no estacionamento ao lado (mais quinze reais…) e entra – ele e a dor, maldita dor, que pedra do demônio é essa?

Na cafeteria pede um café e um pão de queijo – não que quisesse, estava bem servido de pães de queijo e café, mas precisava esperar e não ficaria lá plantado sem comprar nada. O funcionário, cara de tédio, serviu-o.

Acabou dormindo – cotovelo apoiado à mesa, cabeça apoiada na mão espalmada sob o queixo. Acordou assustado, mas haviam passado apenas quinze minutos. Olhou desconfiado: o atendente do café olhava, não pareceu intimidar-se. Por via das dúvidas não terminou o café nem o pão de queijo.

Faltando vinte minutos para a sessão rumaram para a sala, ele e a dor no pé. Postou-se em um lugar ótimo – o mesmo dos velhos tempos em que ia ao cinema todo domingo – tirou o sapato, avaliou-o detidamente e sem pudor: nada. Ficou sem o sapato e ajeitou-se na poltrona, o mais confortavelmente que pôde. A poltrona, é verdade, rangia como casebre à iminência da ruína, mas ele até se virou bem.

Assim que se ajeitou, por sinal, a tragédia veio: vestida de iminência, portando certamente os malditos salsicha e omelete e talvez até a laranja e o pão de queijo requentado. Deixou o sapato no lugar – não poderia mancar agora – e correu, correu como há anos não corria.

Já postado no vaso, a tragédia em andamento, suor pelo rosto, desespero por não ter se protegido do assento contaminado com os papéis higiênicos, a tragédia estava em seu ápice. Puxou o celular do bolso da calça e ligou, telefone da memória número 1, registrado em “família”, “amigos”, “emergência” e “serviços”.

Doutor Siqueira, por favor. É uma emergência, Cleide, passa agora, questão de vida ou morte.

Doutor, é o Pedro, doutor você não acredita, estou me cagando no banheiro do cinema, esse banheiro fétido e eu aqui condenado, diarreia e tudo, doutor, fiz como sugeriu, um dia de rei, levar-me mais em conta, não funciona doutor: tenho uma pedra no meu sapato, maior que meu sapato a pedra, no meu sapato Pedro a pedra, doutor me ajuda doutor!

 

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