Acho bonito tempo feio

De um tempo que era todo meu

nasci numa apreciação curiosa

pelo tempo ruim na praia.

Coisa estranha, gostar de tempo ruim; pelo que dizem de tempo ruim não se gosta. E talvez seja justo isso: que, de mim para mim, o tempo ruim era bom, justamente porque para todo mundo ele era ruim.

Porque era assim, ó:

anunciada a ruindade do tempo, lançando nuvens por sobre o sol, sol que era até então avidamente consumido pelos turistas acorrendo em turbas fiéis às praias, desfaz-se logo o circo num quase-orquestrado, certamente apressado fechar de guarda-sóis e vestir de cangas.

Acossados pelo vento oportunista a lançar-lhes areia nos olhos, as ondas turistas deixam a praia, frescas ainda de filtro solar e caipirinha.

E fica a praia.

Estou agora na lembrança onde, ainda novo, me lancei em meio às pedras que bordejavam a praia – eu e toda uma horda de pretensos solitários. Os casais passando, as pessoas na paisagem, os outros próximos demais na pose contemplativa similar demais ao introspeccionismo que pretendia só meu, tudo isso me privava de uma solidão que mesquinhamente considerava minha, e eu, frustrado em minha estética solidão, me ressentia.

Numa mágica, entretanto, meu humor cinzento viu-se de repente refletido em um céu cinzento; ocupado que estava em devaneios de vingança onde me via restabelecido em minha grandiosidade e solidão, só já-depois, só de-repente me dei conta do acinzentar do dia até então tão azul e tão claro.

O vento, primeiro leve, depois um pouco mais forte, causava um pequeno arrepio, certamente recompensado pela sensação de frescor e pelo alívio em vista das horas de sol inclemente.

As pessoas, já tão vilipendiadas em meus devaneios ressentidos, se acovardavam perante o tempo fechado e se recolhiam às suas barracas, aos seus guarda-sóis, às suas cangas, aos seus carros, aos seus chuveiros, ao Faustão.

E eu ficava só,

eu e o cinza do céu,

eu e o cinza do mar,

eu e o cinza de mim,

azul.

E um cinza que me contemplava, e uma felicidade serena que certamente não vende carros nem agrada quando passa na TV, mas que me oferecia guarida e me acolhia em meus anseios, felicidade miúda, e sozinha, e talvez lá no fundo um pouco ressentida – mas felicidade legítima, felicidade feliz que fazia calor de se sentir.

Calor que não queimava a pele. Calor que não machucava. Calor de menos gente, de menos balbúrdia e ardor, de vento fresco no rosto, de estar contemplado no cinza céu, e no cinza mar, e nas nuvens caminhando apressadas pelas memórias ainda jovens.

E eu ficaria ali por horas, que provavelmente não passariam de quinze minutos no relógio de quem já estava de relógio, e estaria resplandecido de uma felicidade cinza – e bonita, sim.

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