Um pólo macroeconômico chamado Brazil, 2002

Esse texto teve uma função burocrática: pleiteava um concurso de Literatura da Ford, que chamava “um poema chamado Brasil”. O texto é uma espécie de tiração de sarro com a proposta do concurso… lembro de estar muito interessado, na época, nos trabalhos da Clarice.

———————

O sino da igreja não badala as doze horas. O alarme da fábrica não dispara acusando o horário do almoço. Todos levantam-se de suas cadeiras, as conversas interrompendo com precisão britânica o silêncio perturbador do ambiente de trabalho. Os dois seguem um pouco atrás dos demais, que se apressavam mais pelo simples hábito de ter pressa do que por fome. Alguns poucos comentando com animação a aproximação do final de semana. No entanto, os dois, o gerente de marketing e o chefe de compras, mantinham-se alheios às conversas, demorando-se para fugirem ao burburinho.

            Perguntas desinteressadas e respostas curtas parecem prolongar o trajeto até o refeitório. A família está bem, e a sua? E a filha, ainda gripada? Coitada! E essa tendinite sua, não melhora? E o Santos, que vergonha, hein?

            À simples menção de futebol, revolucionou-se a atmosfera. Nos cinco minutos durante os quais falou-se sobre o esporte, os colegas foram amigos e o traje social deu lugar a calções, chinelos e camiseta. Tornaram-se por cinco minutos duas crianças conversando sobre o futebol de domingo enquanto voltavam da escola.

            As gravatas voltam a apertar, os amigos percebem-se novamente meros conhecidos. Passaram-se cinco minutos. O país está em crise, o mercado de ações está instável. Tratam de economia à mesa, a entrada e o prato principal comidos com discrição, temperados com comentários bem-colocados, os copos de suco meio vazios, pré-requisitos para o debate desse tópico.

            Voltam em silêncio; os apressados não os lideram. O cumprimento dos deveres não é preciso como o usufruto dos direitos, ao que parece. Os dois passam, olhando, diante da máquina que suscitou o único diálogo do trajeto: a Data Intelligent Manager, periférico em desenvolvimento, o primeiro gerente de dados inteligente, criado e desenvolvido inteiramente no Brasil. Os poucos comentários feitos pelos dois revelam o sentimento patriótico e o orgulho de acompanharem o processo de criação do que viria a ser o novo cartão postal nacional.

            O restante da jornada de trabalho segue a rotina de anos: dez pessoas trabalhando em silêncio, respeitando a sinfonia de clics e tac-tacs. O compasso acelerado, juntamente com o desejo de livrar-se do trabalho e aproveitar o final de semana, colaboram para retardar a passagem do tempo.

            Seguem-se horas de trabalho sem alterações.

            Horas e horas.

            Seis da tarde. Todos se levantam, juntam suas coisas de qualquer maneira e vão-se. O gerente de marketing despede-se do chefe de compras, melhoras à filha!, e toma o rumo do metrô. Ao passar pela rua dos camelôs, pára diante da Banca do Cacique, a única confiável, e compra um DVD de música clássica. Dentre todos os ambulantes, o Índio é o que cobra o melhor preço. O único problema era encontrar sua barraca na rua, pois é a única a mudar de lugar esporadicamente.

            Chega em casa, cumprimenta a mulher, janta conversando, calmamente, o tempo agora passa rápido. Enquanto o marido toma banho, ela senta-se na sala para assistir televisão: “esse foi o Jornal Diário, fique agora com Um poema chamado Brasil”. No programa, o repórter visitava a Chapada da Diamantina, terra de inúmeras maravilhas, a natureza em seu esplendor máximo. Viaja depois até o Pantanal, acompanhando de perto os hábitos de diversos animais, a água abundante proporcionando uma variedade única de fauna e flora. Visita belas praias, cidades planejadas, caprichos e orgulhos de uma terra onde se vê de tudo. Maravilhada com os golfinhos na ilha de Fernando de Noronha, ela pende a cabeça para trás, em direção ao quarto, e grita: “Amor, vem ver! Parece Cancun!”. 

O sino da igreja não badala as doze horas. O alarme da fábrica não dispara acusando o horário do almoço. Todos levantam-se de suas cadeiras, as conversas interrompendo com precisão britânica o silêncio perturbador do ambiente de trabalho. Os dois seguem um pouco atrás dos demais, que se apressavam mais pelo simples hábito de ter pressa do que por fome. Alguns poucos comentando com animação a aproximação do final de semana. No entanto, os dois, o gerente de marketing e o chefe de compras, mantinham-se alheios às conversas, demorando-se para fugirem ao burburinho.

            Perguntas desinteressadas e respostas curtas parecem prolongar o trajeto até o refeitório. A família está bem, e a sua? E a filha, ainda gripada? Coitada! E essa tendinite sua, não melhora? E o Santos, que vergonha, hein?

            À simples menção de futebol, revolucionou-se a atmosfera. Nos cinco minutos durante os quais falou-se sobre o esporte, os colegas foram amigos e o traje social deu lugar a calções, chinelos e camiseta. Tornaram-se por cinco minutos duas crianças conversando sobre o futebol de domingo enquanto voltavam da escola.

            As gravatas voltam a apertar, os amigos percebem-se novamente meros conhecidos. Passaram-se cinco minutos. O país está em crise, o mercado de ações está instável. Tratam de economia à mesa, a entrada e o prato principal comidos com discrição, temperados com comentários bem-colocados, os copos de suco meio vazios, pré-requisitos para o debate desse tópico.

            Voltam em silêncio; os apressados não os lideram. O cumprimento dos deveres não é preciso como o usufruto dos direitos, ao que parece. Os dois passam, olhando, diante da máquina que suscitou o único diálogo do trajeto: a Data Intelligent Manager, periférico em desenvolvimento, o primeiro gerente de dados inteligente, criado e desenvolvido inteiramente no Brasil. Os poucos comentários feitos pelos dois revelam o sentimento patriótico e o orgulho de acompanharem o processo de criação do que viria a ser o novo cartão postal nacional.

            O restante da jornada de trabalho segue a rotina de anos: dez pessoas trabalhando em silêncio, respeitando a sinfonia de clics e tac-tacs. O compasso acelerado, juntamente com o desejo de livrar-se do trabalho e aproveitar o final de semana, colaboram para retardar a passagem do tempo.

            Seguem-se horas de trabalho sem alterações.

            Horas e horas.

            Seis da tarde. Todos se levantam, juntam suas coisas de qualquer maneira e vão-se. O gerente de marketing despede-se do chefe de compras, melhoras à filha!, e toma o rumo do metrô. Ao passar pela rua dos camelôs, pára diante da Banca do Cacique, a única confiável, e compra um DVD de música clássica. Dentre todos os ambulantes, o Índio é o que cobra o melhor preço. O único problema era encontrar sua barraca na rua, pois é a única a mudar de lugar esporadicamente.

            Chega em casa, cumprimenta a mulher, janta conversando, calmamente, o tempo agora passa rápido. Enquanto o marido toma banho, ela senta-se na sala para assistir televisão: “esse foi o Jornal Diário, fique agora com Um poema chamado Brasil”. No programa, o repórter visitava a Chapada da Diamantina, terra de inúmeras maravilhas, a natureza em seu esplendor máximo. Viaja depois até o Pantanal, acompanhando de perto os hábitos de diversos animais, a água abundante proporcionando uma variedade única de fauna e flora. Visita belas praias, cidades planejadas, caprichos e orgulhos de uma terra onde se vê de tudo. Maravilhada com os golfinhos na ilha de Fernando de Noronha, ela pende a cabeça para trás, em direção ao quarto, e grita: “Amor, vem ver! Parece Cancun!”.

 

W, 2002

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