Cartomancia

        Vejo para ti, meu caro, um futuro cheio de possibilidades. Grandes avenidas pelas quais passará, vivas em sua memória (em detrimento das milhões de ruas, vielas, becos, alamedas que lhe passarão desapercebidas) . Seu universo pessoal será muito amplo, como o são tantos hoje; (mas desse amplo espaço, apenas uma pequena parcela será realmente relevante à sua vida, e você, relevante a ela. Refiro-me à sua família, ao seu escritório, à sua empregada, aos seus verdadeiros amigos – acredite em mim, não são muitos – , às avenidas de sua vida. A vastidão restante será para você um ornamento plástico, sendo apenas mencionada para enriquecer seu próprio cantinho) . Você será muito culto; terá uma visão ampla e nítida das coisas e dos seres. (Essa visão, porém, estará fadada a servir-lhe meramente como instrumento de contemplação, já que o movimento verdadeiro será em você tão raro. Não digo que será estático, de forma alguma. Você estará sempre indo e vindo, vigiando sua bolha pessoal, rabiscando os contornos de seu território, seu mundo).

Apaixonar-se-ás por alguém que lhe terá igualmente carinho e amor. Seguirão juntos através de dores e alegrias, pobrezas e riquezas, saúdes e doenças. (Obviamente não se importará com isso –afinal, que poderia fazer?-, mas cada gripe sua será uma centena de mortes por congelamento na Rússia; cada serviço extra na empresa, um milhão de desempregados; cada louco com sua loucura; os marginais com seu inferno. Será a vida, não?).

Seu time de futebol? Ganhará hoje, por 2 a 0. (Também hoje, uma criança na periferia da sua cidade será atingida por uma bala perdida; dois jovens continuarão vivendo nas ruas, de restos, esmolas e pequenos furtos, no centro da mesma cidade. Os mesmos 50 mendigos passarão a noite na área de 5 metros quadrados que é protegida pelo pilar da ponte, no túnel que leva à sua casa. Hoje será um grande dia para você).

É, seu futuro é mesmo cheio de possibilidades alegrias prosperidade. Pode me consultar novamente, caso a angústia bata novamente à sua porta. Tchau! Ah, por favor, não dê nada àquele vagabundo ao lado da porta. Ele vive me importunando, caluniando minha previsão. Fora o bafo de quem não come há dias. Deus, que nojo!

W, 2001

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