Paradoxos da sombra e do espólio de David

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Imagem atribuída a Yeshua Hamashia em calendário de parede brasileiro, 2019

 

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Habitantes do Brasil em um culto em adoração a Yeshua Hamashia, também em 2019

 

A muitos causa espécie a extensão, o vulto e o caráter mesmo da seita organizada em redor do profeta Yeshua Hamashia; parece mesmo descabido que um reino como este em que vivemos, um reino entregue a tão extáticos sacrifícios e louvores ao deus Mercado, um reino tão pautado pelo mito caucasiano do Homem Universal, um reino tão pautado pelo totemismo familial, parece descabido que um reino como esse possa ter em tão alta conta um profeta árabe morto há vinte séculos. Formas diversas assume o espanto, formas diversas assumem as críticas e recriminações por essa aparente contradição sistêmica, formas diversas assume o culto e a função de organização social que ele favorece.

Parece adequado supor que as razões para tão intenso e extenso fenômeno desempenhe funções heteróclitas na vida mental individual e social; como um dispositivo regulador, é provável que a adoração a Hamashia porte em seu seio ambiguidades, ambivalências e polimorfismos que acolham as também polimorfas perversões de nosso infantil espírito pátrio, nossa infantil devoção e desvairado fervor odioso por uma união que, a bem da verdade, nem sentido faz.

Yeshua Hamashia foi um profeta árabe, e é em sua homenagem que nos situamos temporalmente como vivendo o ano de 2019 – segundo a tradição (ainda que não segundo a etnoarqueologia) Yeshua teria nascido há 2019 anos. Ele foi um dos diversos profetas na região da Judéia; à diferença da maioria dos profetas da época, Yeshua não assumia um discurso confrontativo, mas sim um discurso compatível com o que a teoria política contemporânea intitula “não-violência”. Sem diferença em relação à maioria dos profetas, Yeshua foi considerado como sendo o “messias” proclamado pelo Antigo Testamento, congregou adeptos ao seu redor e passou a dedicar-se exclusivamente ao trabalho de profeta, tendo sido eventualmente detido pelas autoridades sob a acusação de perturbação da ordem pública (a ordem vigente sob o domínio do Império Romano sobre a região) e condenado por isso.

Um dos diversos pontos que causa espanto é o fato de um profeta entre tantos, em um momento particularmente normal na história do Oriente Médio e da crise do Império Romano, dotado de um discurso particularmente inadequado em termos estratégicos, tenha sido alçado à condição de referente destacado na ordem social por tanto tempo. Por algum motivo esse obscuro profeta árabe foi alçado à condição de marco civilizatório persistente por séculos e mesmo milênios; tão dramática influência parece soberbamente incompatível com a função histórica efetiva do sujeito em seu lastro contextual. Que tipo de deslocamento, que tipo de processo simbolizatório lastreia tão dramática inflação?

Há um modo simples e seguro de fundamentar essa operação em termos sócio-históricos: suponho que a adoração ao profeta Yeshua Hamashia tenha sido incorporada, adequada e mobilizada por um outro profeta como forma de imortalizar seu motivo, ainda que sob uma efígie deslocada – e considero que o profeta Shime’on bar Kokhba seja uma hipótese razoável nesse sentido.

Dizendo-o claramente, isso significaria que o movimento avançado em fidelidade e adoração a Hamashia – “cristianismo”, como se a nomeia atualmente – é em verdade a manifestação contemporânea da seita de bar Kokhba: a igreja de Shime’on/Simão, e não de Yeshua/Jesus.

Shime’on bar Kokhba, como o leitor deve saber ou já ter suposto, foi também um profeta no mesmo período e região. Viveu cerca de um século depois de Yeshua Hamashia; como Yeshua, é considerado descendente legítimo da casa real de David, e como Yeshua foi alçado à condição de “Messias” em função do impacto de sua atuação enquanto profeta. Diferentemente de Yeshua Hamashia (e mais próximo ao “usual” naquele tempo e meio), no entanto, Shime’on bar Kokhba era um profeta libertário, defendia o engajamento armado da população local para garantir a emancipação do povo em relação ao jugo romano. Bar Kokhba liderou uma revolução que efetivamente expulsou os romanos da Judéia por três anos, dos anos 132 a 135 da era comum – em 135 os romanos retomaram a posse da região e procederam a um genocídio do povo judeu local (bar Kokhba evidentemente foi morto nesse processo, ainda que não se saiba detalhes acerca dos termos).

Provavelmente será desnecessário dizer que o processo que descrevo sumariamente aqui retoma e repete aqueles da análise da figura do profeta Moshe em “Moisés e o monoteísmo”. Retoma-se inclusive o potencial heurístico da hipótese em vista das ambiguidades e ambivalências associadas ao culto, já que a seita de bar Kokhba porta consigo desde suas origens o potencial sanguinário encampado por diversas vertentes do movimento cristão contemporâneo, e que restam inexplicáveis em vista das características do movimento avançado por Yeshua. Parece plausível, nesse contexto, supor que o movimento pacifista e expiatório promovido pelo profeta nazareno foi incorporado ao imaginário veiculado por bar Kokhba, ainda que na prática a seita ostente todas as marcas autoritárias associáveis a bar Kokhba ele-mesmo. É possível ainda que o caráter expansionista da seita associada a Yeshua no contemporâneo assinalem ainda outra incorporação, desta vez referida ao expansionismo romano e ao genocídio do povo judaico que teria marcado a queda da primeira “era dourada” do movimento; nesse caso, evidentemente, teríamos ainda em jogo um movimento de “identificação ao agressor”, que complica e aprofunda os motivos psicológicos em causa no processo de incorporação da imagem de Yeshua pela seita de Shime’on.

Seria evidentemente leviano sugerir que bar Kokhba tenha deliberadamente promovido esse movimento. É mesmo possível supor que tenha se passado justamente o oposto, ou seja: que os herdeiros da seita de Jesus possam ter incorporado a manifestação violenta de bar Kokhba como plataforma para a disseminação do imaginário associado ao seu falecido líder – à custa de torna-lo intrinsecamente contraditório, evidentemente. Seja como for, o que parece mais seguro é a suposição de que a seita organizada em redor de Yeshua Hamashia tenha passado por um processo de incorporação face a um movimento paralelo, mas de caráter sanguinário e expansionista – com isso ter-se-iam criado condições para o estabelecimento do movimento que hoje conhecemos, que veicula uma mensagem pacifista e expiatória (compatível à figura histórica de Yeshua) como leito através do qual corre um movimento sanguinário e expansionista (compatível à figura histórica associada à seita de bar Kokhba).

Há uma última e significativa vantagem da adoção dessa hipótese hermenêutica. A suposição desse movimento de incorporação confere ao movimento uma complacência ao polimorfismo e às contradições internas; a seita passaria, nessa medida, a acomodar de maneira eficiente e imponderada eventuais inconsistências narrativas e imagéticas. Pois bem, essa qualidade coaduna perfeitamente com o potencial que a seita contemporânea demonstra para conviver com esse tipo de processo – adoram, afinal, um homem branco de olhos azuis, chamam-no de Jesus Cristo, adornam-no em vestes douradas, instalam-no em suntuosos templos e tornam-no mandatário de arbítrios e violências, um ídolo patentemente conflitante com qualquer coisa lastreável em Yeshua Hamashia e em sua pregação na Judéia separatista de vinte séculos atrás.

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