A psicanálise e o Esteves

Aviso: ao leitor que queira acessar o poema “Tabacaria”, que inspira esse post, é só clicar aqui.

I. Pré-proposta

Não ando escrevendo muito – afazeres cotidianos, um certo achatamento da vida contemplativa, esse tipo de coisa tem tomado o lugar que gostaria de dedicar à escrita.

Quis, de qualquer maneira, retomar esse espaço errante para compartilhar um projeto, uma proposta; a ideia é escrever sobre isso (a proposta, o projeto) com mais calma e mais respeito à complexidade do assunto, mas enquanto a calma e o tempo e a complexidade não vêm compartilho o plano de metas – melhor que nada, penso eu.

Pois bem, trata-se de uma discussão, discussão que já me fascina há algum tempo e à qual pretendo me dedicar mais frontalmente assim que puder: a relação entre a psicanálise e “a vida real” ou “o cotidiano” ou “a política”. Claro que essa relação é tensa, intensa e extensa, e não poderia me dispor a tratar disso como se fosse uma problemática; de qualquer forma há uma questão simples que merece atenção: quando um cidadão se coloca em um consultório a atender pessoas que o buscam para falar de seus problemas, e ele conduz com/para/em elas uma análise, qual o significado civil, ético e político disso?

Tenso, né? Eu sei.

Discutiria isso – discutirei, quando e como puder – inspirado por uma montagem intencional de um poema: “Tabacaria”, do Álvaro de Campos. A tal montagem intencional, na realidade, é um recorte, que é esse aqui:

Janelas do meu quarto [consultório, no nosso contexto específico],
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

[…]

Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

 

Basicamente isso – claro que o texto e a equipe calma-tempo-contemplação imporiam mudanças na própria seleção. De qualquer maneira o intuito é simples: Da janela de meu consultório vejo gente, e o mistério, e a morte. Da janela do meu consultório vejo casualmente o Esteves, Esteves sem metafísica. O ponto principal é: qual a relação do meu consultório com o mundo, e as pessoas, e o Esteves?

Pergunto isso porque meu fascínio pela psicanálise tem uma conotação eminentemente política; acho que a minha relação passional com a psicanálise é definitivamente inspirada e determinada pela implicação política da psicanálise enquanto projeto. O ponto, então, é que precisaria entender isso, estender isso e poder sustentar isso (o que quer que isso efetivamente seja).

Mas, como já avisei, esse post é só promessa de campanha, porque hoje não consigo, não me disponho, não se trata de olhar na cara da Metafísica e arrancar dela alguma verdade que se ancore nesse estaleiro instável. Hoje mesmo não escrevo mais que essa proposta, e a consagração do fato que hoje não é dia de fazer disso um texto respeitável; como diria o próprio Álvaro de Campos,

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

II. Clínica e política em psicanálise.

Tenho dois pontos a apresentar: a necessidade de não especificação e a maneira como isso aponta para os meus específicos problemas (não só a não especialização, mas ao invés disso uma especificidade singular, a um só tempo mais e menos que especifica). As duas coisas vão surgir misturadas no meu relato, mas queria que soubessem que são duas coisas estranhamente articuladas.
Suponhamos que estive atendendo alguém, no meu consultório. Levo meu trabalho a sério e acredito no que faço, faço porque posso mas também faço porque acredito. A pessoa que estive atendendo sai e eu olho pela janela; então, da janela de meu consultório, janela das milhões de janelas que ninguém sabe quem é,  vejo um homem. Conheço-o: é o Esteves sem metafísica. O homem acenou-me adeus, gritei adeus, ó esteves, e o universo reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu. Acho que vocês conhecem essa cena: é narrada por Álvaro de Campos no poema Tabacaria.
Enfim, de dentro de meu consultório vejo Esteves sem metafísica, que conheço. Se visse então passar pela rua, assim como vi o Esteves, a pessoa a quem estive atendendo, quem veria? O que sei? Se soubesse, o que saberia?
Digamos que uma das coisas em que acredito daquilo que faço é que isso que faço permite às pessoas que não cedam em seu desejo; politicamente, o que é isso? Se eu, de minha janela, vejo passar a pessoa que não cede em seu desejo, o que eu vejo? Que isso significa? O dono da tabacaria sorriria? Eu sorriria?
E se acredito no que faço porque a pessoa atendida se liberta de seus fantasmas? Porque onde havia o Isso esteve o Eu haverá de advir? O que eu sei? O que eu fiz? O que o Esteves diria? E o dono da tabacaria?
Atendo pessoas que vão ao meu consultório, saem de lá e vão à tabacaria, à casa dos pais, ao puteiro. Que sei eu do que faço? Que sei eu do que elas fazem? Que sei eu do que isso significa?
Me interesso pela relação entre psicanálise e política – não pelo que a psicanálise sabe da política, nem da política psicanalítica que em milhões de janelas se faz, nem pelo que a psicanálise pode fazer saber da metafísica de quem vai ao meu consultório, mas pelo que de minha janela vejo na tabacaria, pela possibilidade de que da janela de meu consultório, janela de milhões de janelas que ninguém sabe quem é, que ali se passe algo que faz alguma diferença – sem imputar metafísica ao esteves, sem se curvar aos pendores do dono da tabacaria e sem se conformar em comer chocolates e supor que isso resolve os enigmas do mundo.
Então não quero especificar a relação entre psicanálise e política que me toca, porque o que me toca é assim específico e assim inespecifico: não só as filosofias que Kant escreveu, não só o que se ensina nas mansardas, não só as metafísicas imputáveis a Esteves, mas ao invés disso, e acima de tudo, aquilo que de minha janela se me permite ver, e que diferença isso possa fazer.

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3 comentários sobre “A psicanálise e o Esteves

  1. Dayane

    Meu amigo Will,
    eu também ando em falta em palavras, em prosas literárias comigo mesma, com os meus leitores avisados (será que eles existem?) e com você. Um ano e meio sem escrita permanente, dessa que vos escreve e fala ao escrever, na tentativa de me ouvir, de não me silenciar ainda mais. Tenho muita coisa para trocar com você e o Nego, sobre essa postura política diante da Psicanálise. Ah, como lembrei de vocês, na última sessão em Salvador, depois de um ano, quando quis levar as questões do racismo para o divã, mas a terapeuta não me ouvia, mesmo com a minha fala em gritos de uma dor ancestral e nada silenciosa. Como tratar a subjetividade dos afrodescendentes, por exemplo, se vivemos numa falácia, que se chama democracia racial? Em outras palavras, somos o mito da democracia racial, com 51% de uma população negra, que está longe de saber falar de si, ou criar um discurso minimamente politizado e encarar a sua história e sobrevivência, diante do descaso na formação da identidade do povo brasileiro. Quantos negros frequentaram a sua turma da faculdade? Daqueles que frequentaram, quantos sabem realmente que são exceção da história dos negros na nossa sociedade? E ser exceção é carregar uma solidão enorme, ser uma curvinha da estatística, como diz o Criolo, de forma simples, crítica e extremamente genial nesse vídeo: http://globotv.globo.com/canal-brasil/espelho/v/criolo-no-programa-espelho/3258124/. Como diz ele, não nos adaptamos, mas seremos sempre a exceção, que não nos salva de nada. Porque os meus estão na favela, são porteiros, empregadas domésticas, trabalhadores braçais e ocupam também as estatísticas dos presídios e instituições psquiátricas. E mais, quantos pacientes negros você tem? E pergunte aos seus colegas de profissão, quantos pacientes negros eles possuem? Para chegar no divã, precisamos fazer a pergunta, né? Além da grande parte não poder pagar uma consulta particular, será que sabemos fazer a pergunta? E quando sabemos, e se a resposta leva a desculpa somente para o pai e a mãe. Daí, lembro de uma história muito triste, um irmão de uma amiga minha, que cometeu suicídio aos 25 anos. A minha amiga, depois de 10 anos da morte do irmão dela, me confessou que demorou todo esse tempo para aceitar essa história… foi fazer terapia e a sua conclusão no divã foi a pressão da mãe deles, que cobrava muito um sucesso profissional e etc. Para ela, o irmão não aguentou a pressão, jovem negro, jornalista na TV Tribuna (Globo), em Santos, não segurou a onda. Como pode? Que conclusão foi essa? Como não levar em consideração o racismo e toda a atrocidade que ele é capaz de cometer com quem ocupa espaços totalmente branqueados, pela segregação racial, social e identitária? Porque quando o pensamento, a cultura e todos os seus desdobramentos de poder mal conseguem refletir sobre a sua dominamção opressora e claustrofóbica, como um sujeito consegue se sobressair são, sem o peso da indiferença e da solidão? Ou seja, até quando a individuação no divã vai repetir um pensamento totalitário de que somos iguais, porque não cansam de repetir a existência de uma democracia… de cidadãos com o mesmo direito e deveres? Até quando as Universidades brasileiras vão ficam voltadas para a tradição do pensamento ocidental?
    Will, em tempos de crises de representividade, isso que está aí não me representa, sabe?

    Até quando?

    1. Day,

      fico muito honrado e grato de poder ser teu interlocutor em questões tão íntimas, tão cruciais e que lutam para ser tão públicas quanto merecem e têm que ser. Fico feliz de te ver escrevendo de novo, e torço para que você consiga abrir para si um espaço de escrita, já que há tanto a ser pensado, formulado, compartilhado, e dito.
      Não sei se eu gostaria de poder responder a qualquer uma de suas questões; às vezes, como disse alguém, a resposta é a desgraça da pergunta. Acho que você formula questões justas, candentes, e que a gente não deveria poder esquecer com tanta facilidade. E aí o que eu fico pensando é: por que a gente esquece? Por que a gente tão facilmente se volta pras questões menos “estomacais”, menos viscerais, e tira do campo de vista essas questões tão indigestas?
      Sabe que esse semestre que passou eu dei um curso de História da Psicologia, e me causava um estranhamentozinho de ponta de consciência toda vez que falava que estávamos “focando a história moderna e ocidental” da Psicologia; e esse estranhamento não tem a ver com as escolhas – escolhas têm de ser feitas – mas sim pelo fato de que não era uma escolha: eu não sei absolutamente nada sobre a Psicologia fora do ocidente (e por Ocidente eu obviamente me refiro à Europa branca e aristocrática). O que quero dizer é que isso é posto pra fora do nosso mundo de representações, e a gente não consegue mais ver… e aí acho que tá o grande problema – ou o grande desafio, não sei se isso é necessariamente problema – no enfrentamento da questão.
      Faz todo sentido que o que está aí (ou aqui, sei que você me tem em vista em suas críticas e acho justo) não te represente – sendo bem sincero não me representa também; o grande desafio é convocar e promover oportunidades de mudança baseadas em abertura, e não em fechamentos totalitários (pra cá, pra lá, pra onde for). Eu estou nessa luta, de mudar o que aí está em busca de sentir-se representado pelo mundo em que vivemos, mas sei sem desespero que vou morrer lutando.
      Quanto aos “até quando”:
      1.acho que os divãs fazem coisas muito díspares entre si, pena que aqueles que você conheceu ou ouviu falar entendam o processo nesses termos. O meu, se serve de consolo, já não é assim: jamais imporia a quem fosse, quanto mais a um paciente, o raciocínio falacioso de que somos responsáveis por quem somos e que cabe a nós mudar ou se adaptar.
      2.as Universidades acho que estão presas nessa, Day… um pouco até porque o tal “mundo globalizado” funciona assim – globaliza um mundinho bem pequeno e específico (e branco e ocidental e etc etc). Acho que há possibilidade de promoção de focos de resistência, mas é de resistência que se trata – e ainda por cima uma resistência que propõe como inclusão o uso do pó-de-arroz e do branqueamento de culturas heteróclitas.
      Não sei quase nada do campo sobre o qual estamos falando, Day… me abri pra pensar aqui porque te respeito muito, respeito tua dor e respeito as questões que você levanta; fique à vontade para me criticar onde eu tenha deslizado ou errado ou sido racista ou preconceituoso!
      Abração,

      will

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