Todos os livres de minha instante

Eis que subverto o espaço que eu mesmo criei: uso esse blog para responder a uma colocação de um amigo no Facebook. Se serve de atenuante, a colocação suscita assunto para uma postagem, e o que ela suscita não caberia num papo de Facebook (me parece). A colocação, feita por Pedro Ambra, segue na íntegra:

“O jogo é bem simples, gostei da ideia e resolvi compartilhar: se você é psicanalista, viu este link e ainda não leu o texto do Wilson Franco leia agora ou uma traça tailandesa insana irá comer todos os livros de sua instante em até 3 dias.

Como todo bom texto, a cada parágrafo você pensa: “meu, pode crer! É tão simples! Como ninguém pensou nisso antes desse jeito?” Poderia rasgar elogios mil, mas isso parece estar sendo tão feito devo à repercussão do texto que é melhor que cada um tire suas próprias conclusões.

Mas vamos abrir os trabalhos. Will, tenho uma questão meio pontual e queria te ouvir a respeito.

Ao final do texto, você retoma (e amplia) a analogia bancária do Forrester, que é muito boa. Mas não se faz uma relação dessa natureza entre psicanálise e capitalismo sem se pagar altos juros. Noção que curiosamente aliás não entra em questão pois – pelo que retomei inclusive do seu mestrado – parece que o que está em jogo não notas promissórias com vencimento ad infinitum. O que é uma ótimo para pensar a autoria/influência/autorização em psicanálise em contextos de calmaria e não me impressiona que tenha saído da cabeça de um autor que mora em um país que acredita tanto no Outro, no seu povo, no liberalismo ou no que quer que seja, que nem tem uma constituição direito.

Ok, Freud é grande banco central de um campo psicanalítico financeiro onde o dinheiro tem lastro. Mas como pensar momentos de crise e ou modos de funcionamento financeiros diferentes? Dito de outra forma, qual é a garantia de que Freud é mesmo o início o fim, além de uma crença generalizada de que em baixo daqueles restos mortais que tentaram roubar mês passado tem ouro suficiente para pagar conceitualmente todo mundo?

Um exemplo: lacanianos que leem pouco Freud ou fazem um uso completamente instrumental de seu texto. Não acho que eles sejam tão poucos e estou certo de que isso deve acontecer a partir de outros autores. Mas, in the end of the day, qual é o critério que garante que essas pessoas não sejam psicanalistas por isso? De onde emana, de fato, a nossa “vergolha alheia” ao ouvir alguém relinchar que “fulano superou Freud”?”.

 Pedro se refere, caso o leitor não saiba, a um texto meu (em co-autoria com Luís Cláudio Figueiredo) que foi publicado recentemente – link aqui.

 Pois bem, todos situados, agora me volto às colocações de Pedro.

 Antes de mais nada, concordo com o que há de ressalva na colocação: a imagem de um lastro para a emissão de notas é, de fato, demasiadamente “capitalista”. Mas – e aí entram minha predileções políticas – prefiro um problema real pontuado de maneira problemática a um problema superficial pontuado de maneira elegante. O que quero dizer com isso é que a psicanálise (por mais que doa às suscetibilidades de alguns psicanalistas) está radicalmente fundada em uma prática liberal, e depende da liberalidade para operar de forma interessante. Mesmo os casos mais raros de atendimentos com ímpeto de resistência ou como libelo de insurgência (penso nos atendimentos aos Sem-Terra de Maria Ria Kehl, nos atendimentos gratuitos de Radmila Zygouris e nas políticas de formação da Policlínica de Berlim pré 2a Guerra) se fundavam nisso – atende-se a altos preços e em vínculos liberais de um lado, e atende-se gratuitamente de outro.

 Mas estou sendo afobado. A pergunta de Pedro nos remete a uma dimensão espinhosa, descuidadamente pontuada por mim e devidamente “apontada” por ele: a psicanálise me parece uma prática eminentemente liberal, por mais esquerdista (ou não) que seja o psicanalista como pessoa. É claro que o psicanalista pode sustentar suas posições políticas, e compreender sua prática sob o prisma de suas posições, e pode até sustentar que a psicanálise contribui ou se alinha a essas posições – mas me parece ingênuo recusar que ela derive fundamentalmente de uma prática liberal.

 Bom, isso quanto à política das ideologias da história. Agora, quanto à analogia bancária: supondo-se uma posição liberalista, existir ou não ouro suficiente não é em absoluto questão, ao menos não é questão para quem especula. Mas, espero que esteja claro, não me posiciono aqui em nome do liberalismo (mas sim, espero, contra a hipocrisia); e, nesse sentido, o que me parece é que em tempos de crise a psicanálise reinventa Freud, derruba aquela instituições financiadora e levanta outra em seu lugar – mais ou menos como aquelas construções religiosas que sobrevivem a inúmera ocupações e portam símbolos de várias religiões e povos e sacralidades distintas em suas paredes e ornamentos. O que me parece, em geral, é que em momentos de crise cria-se uma nova psicanálise, na expectativa de que esta seja mais apta a responder aos anseios e necessidades de uma nova geração de psicanalistas e psicanalisandos. Então, pensando nesses termos, o lastro em ouro mais uma vez não importa, mas por razões muito distintas daquelas do caso liberalista: o lastro não importa porque o templo ou a casa da Moeda é reinvestida e realimentadaa cada crise, como gesto de crise, como crise.

 Agora, por último, assumo minha ignorância: não consigo entender o que se passa nos casos de uma psicanálise que supõe “superar Freud”, realmente não consigo captar o sentido disso. Entendo, obviamente, que surjam derivações da psicanálise que se afastem desta em virtude de novas “descobertas” ou “revelações”, mas não entendo porque se sustenta que se trate ainda de algo com esse nome. Mas, pensando por outro lado, não entendo por quê se mantém o nome psicanálise como representante de uma ladainha morta em torno de velhas instituições e comodidades, em torno de verdades repisadas e estupidificadas, já que isso também não me parece em nada com psicanálise. Pode ser que se trate de mera conveniência financeira, ou conveniência social, ou institucional, mas eu não me afeiçôo facilmente a esse tipo de explicação ressentido-paranoica.

  Se pudesse resumir o que penso a partir da provocação de Pedro em alguns pouco chavões, diria o seguinte:

1. temo que nos apaixonamos excessivamente por uma imagem idealizada de psicanálise, pela imagem de uma psicanálise livre e libertária, pela “peste” que é a libertação. Acho que faríamos bem em evitar esse tipo de idolatria idealizadora;

2. Freud é insuperável não por ter escrito verdades demais, mas por ter dado um nó entre a psicanálise e os dispositivos de aprofundamento discursivo de nossos tempos (a axiomática proposta pelo Deleuze para explicar o capitalismo, por exemplo); Freud é o lastro insuperável porque ele não tem fundo, nem limite, nem verdade dizível que esgote uma frase sequer da obra;

3. “A Psicanálise” acaba sendo um falso problema quando se associa a prática pontuais ou institucionais específicas: “Psicanálise”, da forma como gosto de pensá-la, é um evento, uma différance: eu, por mais que atue no consultório “como psicanalista”, faço psicanálise ou testemunho psicanálise quando posso, quando ocorre.

 Por fim: acho bom avisar que eu gosto de pensar (principalmente aqui, no blog) no limite do que sei e do que conheço, ou seja: não estou apresentando verdades nem respostas, mas tateando as franjas do que estudei e do que posso dizer. Isso não me desresponsabiliza do que digo – pelo contrário. Quanto ao título desse post, é uma brincadeira com um deslize de digitação de Pedro na redação de seu comentário (mantive o deslize na transcrição que ofereci do comentário dele, acima).

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