O consultório do dr. Cortázar

– Consultório do dr. Cortázar, boa tarde.

Preponte, é isso! Ar prepotente, como se ela se gabasse do fato de estar atendendo o telefone do tal do Cortázar. Era a terceira ligação que ela atendia com esse tom. Antes disso atendera outras quatro ou cinco com um tom de jovialidade, como o funcionário puxa-saco que cumprimenta o chefe, “bom dia, chefe! Consultório do dr. Cortázar, e o senhor?”.

– Ainda tenho uma vaga para as dezenove horas, um encaixe. Mas ele está um pouco atrasado, então pode demorar um pouquinho.

– Olha, a senhora vai me perdoar…

Agradeci a deus pela interferência do Velhinho-de-bermuda – eu mesmo teria sido um pouco mais rude depois que ela desligasse.

– A senhora vai me perdoar, mas acho temerário a senhora marcar encaixes para as 19h, se o dr. Cortázar ainda nem chegou e eu, das 13h15, ainda não fui atendido, a senhora não concorda?

– Um segundinho, senhor, por favor. Senhor, o dr. Cortázar vai atende-lo em breve, só temos dois pacientes antes do senhor.

– Mas ele nem chegou ainda!

Ela já tinha voltado à ligação.

– Isso, dezenove horas, senhor. Seu telefone?

Velhinho-de-bermuda olhou em volta e encontrou meu olhar suspenso, que capturou sem delongas:

– O senhor não acha estranho isso? Já são mais de quatro horas!

Na realidade eu achava tudo muito, muito estranho. Não sei dizer por que ainda estava lá, considerando o quanto aquilo me incomodava. Mas imaginava, ingenuamente, que ele tinha confundido os horários.

– O senhor disse que seu horário é às 13h15?

– Exato, e já são 16h10 – mais de três horas e ele nem apareceu!

– Olha, isso é realmente muito estranho. Acho que ele não vai conseguir atender todos hoje.

– Certamente que não! Ainda bem que são apenas dois à minha frente, logo serei atendido.

A secretária já tinha desligado o telefone e estava lixando as unhas. Levantei de meu lugar, ao lado do banheiro, e encostei-me no balcão:

– Desculpa… Josilene, certo?

Ela estranhou que eu soubesse seu nome – o que era estranho, considerando que a faxineira começava e terminava todas as frases com seu nome.

– Correto, senhor Rodrigues.

– Josilene, a senhora sabe onde o dr. Cortázar se encontra?

– Olha, senhor Rodrigues, às quartas ele vem para o consultório diretamente do hospital, mas ele ainda não ligou e não posso confirmar para o senhor. Posso ajudá-lo?

– Olha, eu não quero me intrometer em seu trabalho, mas somos em mais de quinze pessoas aqui, a senhora não acha conveniente readequar a agenda ou entrar em contato com o dr. Cortázar para averiguar se ele está a caminho?

– O dr. Cortázar é muito requisitado, senhor Rodrigues, é normal que tenha muita gente aqui, e o dr. Cortázar sempre entra em contato quando precisa reagendar alguém ou mudar o cronograma. O senhor pode ficar tranquilo que ele já vai atende-lo.

Nesse momento interveio uma senhora que sentava ao lado do balcão, meio escondida por detrás de uma planta imensa:

– Senhor Rodrigues?

– Sim, senhora.

– Eu sou paciente do dr. Cortázar há mais de quinze anos, e posso dizer que ele é muito competente e sério.

– Mas eu não duvidei disso, senhora.

– Ele sempre passa um pouco do horário porque a vida do cirurgião é bastante imprevisível.

– Eu imagino.

– Veja só, meu horário é às quinze e trinta. Eu sempre marco minhas consultas nesse horário porque depois do almoço não posso sair à rua, sabe? Sinto uma queimação.

– Sei…

– A maioria das vezes sou atendidas por volta das dezenove, por isso trago sempre um lanchinho – a lanchonete daqui do prédio abusa nos preços, sabe? E a alface dos sanduíches nunca é tão fresquinha quanto a que a gente tem em casa.

– Ah, isso sem dúvida. Com licença, senhora, deixei minhas coisas ali ao lado…

Tinha mesmo, logo ao lado da cadeira onde estava sentado; mas em algum momento da conversa com a dona Lanchinho uma outra senhora chegou e deixou sua bolsa em cima da cadeira onde eu estivera – estava agora entregando seus documentos para a Josilene, que checava tudo diligentemente. A sala de espera estava cheia, agora, nenhuma cadeira disponível. Com os lugares todos tomados e as plantas tomando todos os cantos, ajeitei-me como pude diante da porta do banheiro, de pé, a mochila apoiada nos pés. Estava pensando em negociar uma remarcação com a Josilene quando a senhora Roubou-meu-lugar tocou um ponto sensível nas negociações:

– Mocinha, quantas dessas pessoas estão agendadas antes de mim?

– Veja bem, dona Isneide, o dr. Cortázar é um doutor sensato e vai fazer o possível para atende-la sem demora…

– Mas ele nem chegou ainda!, interveio Velhinho-de-bermuda.

– Como assim, mocinha? Quantas dessas pessoas são antes de mim?

– Veja bem, dona Isneide, eu não posso acompanhar quantas pessoas estão diante de quais pessoas, esse é um consultório movimentado como-a-senhora-pode-ver, não consigo precisar essa informação.

Nesse instante tocou o telefone – fiquei imaginando se Josilene tinha um botão de emergência debaixo do balcão que tocava o telefone em casos como esse.

– Um segundinho, dona Isneide, por favor. Consultório do dr. Cortázar, boa tarde.

E foi assim que chegamos ao tom “respirando fundo e atendendo o telefone”.

– Oi, Ledinha! Como vai, querida?

Claro, uma amiga querida – afinal a Josilene não seria um clichê ambulante se ela não se pendurasse ao telefone com uma amiga querida.

Isneide Roubou-meu-lugar já estava de volta a seu lugar, roçando eventualmente o joelho na minha perna; eu fugia como podia, mas estava preso. Passaram alguns minutos – a Josilene já contara todas as peripércias por que passara no ônibus pela manhã à Ledinha – quando finalmente decidi que faria bem em me acomodar melhor, e sentei-me no chão, as costas apoiadas na porta do banheiro. A Josilene falava ao telefone no extremo oposto da sala. A porta de entrada, a um de seus lados, de vidro jateado, encostada; a porta de acesso ao consultório do Cortázar, do outro lado do balcão da Josilene, aberta, escura, insondável; ao longo das duas paredes laterais distribuíam-se meus colegas de sala de espera em suas cadeiras não-tão-confortáveis (embora provavelmente mais confortáveis do que o chão – não saberia escolher, formam um páreo duro). Ainda procurando posição no chão, eu me recriminava pela milésima vez por não ter carregado o celular quando Velhinho-de-bermuda levantou-se:

– Mocinha…

Josilene, anteriormente “senhora”, fora demovida aos olhos de Velhinh-de-bermuda. Josilene demorou um pouco, mas ao fim deu atenção.

– Mocinha, onde encontro água?

– O senhor vai me desculpar, senhor Alberto, mas o menino da água não veio hoje e, com o calor, ficamos sem galões para reposição.

Ele demorou a perceber que ela considerava já ter respondido – manteve o olhar pacato atento, aguardando o restante da resposta. Por fim insistiu:

– A senhora não teria um copo de água?

O “senhora” voltou a campo – sinal de desespero.

– Sinto muito, senhor Alberto, mas o menino da água não chegou ainda. Ele deve vir ainda hoje, já que ele sempre vem às quartas-feiras, mas caso o senhor prefira pode procurar a lanchonete, no térreo.

Não creio que o senhor Alberto tinha ainda forças para pensar em descer, nem pareceu pensar no assunto; sentou-se como o condenado que acaba de ouvir sua sentença.

Eu estava sem o celular, mas trazia comigo uma garrafa d’água. Levantei-me e fui até Alberto-de-bermuda:

– Senhor, ouvi sua conversa com a secretária e… bom, eu trago comigo uma garrafa d’água… o senhor aceita um gole? Só não tenho copo…

– Ora, agradeço muito, jovem! É muita bondade da sua parte. Na realidade acho que posso só lavar o rosto, deve ser o calor, me deu um calorão…

Levantou-se, a frase com ar de interrompida, e dirigiu-se ao banheiro. Eu o segui pensando na mochila que deixara diante da porta do banheiro e que precisaria tirar para que ele entrasse. Acho, por outro lado, que uma parte de mim o acompanhou para socorrê-lo caso desmaiasse. Para meu alívio, no entanto, Alberto-de-bermuda carregou-se sem sobressaltos à porta, onde encenou comigo um teatro de palhaços em torno da mochila e da porta e da falta de espaço – eventualmente em recuperei a mochila, saí da frente dele, ele desvencilhou-se dos joelhos da dona Isneide Roubou-meu-lugar e entrou no banheiro. Trancou a porta e eu fiquei lá, destituído até de meu lugar ao chão. Com a mochila apoiada em um dos ombros, mantive-me meio de costas para uma fileira (constrangido com a ideia de expor o senhor atrás de mim a tão pouca distância entre ele e minha traseira), escondendo e denunciando o constrangimento com expressões pouco naturais que eu fazia sem saber por que e sem poder controlar.

Alberto demorava-se. Josilene eventualmente despediu-se da Ledinha e, para meu grande espanto, viu levantar-se imediatamente Isneide, os olhos de uma senhora decidida:

– Bom, mocinha, diga de uma vez: todos estes estão à minha frente?

– Ora, dona Isneide, a senhora foi a última a chegar, creio que sim.

– Quantos são?

– Deixe-me ver… presentes aqui na sala temos treze, mais um das 14h10 que não desmarcou e poderia eventualmente chegar, ainda…

– Mas já são mais de cinco horas! Se ele chegar agora será atendido? Que absurdo!

– É, por esse lado a senhora tem razão…

Josilene estava estranhamente condescendente e compreensiva com dona Isneide Roubou-meu-lugar (que deixara inclusive a bolsa, ainda outra vez, sobre a cadeira – não que eu me atravesse a sentar no lugar dela a essa altura). Dona Isneide, no entanto, estava irredutível: queria reclamar.

– Olha, mocinha, isso aqui é um absurdo! Esse povo está aqui há sabe-deus-quantas-horas, esse doutor Cortázar pelo que vejo nem chegou, onde anda esse homem?

– Doutor Cortázar vem direto do hospital às quartas-feiras, dona Isneide, ele tem cirurgias às quartas pela manhã…

– Mas passam das cinco, que cirurgia é essa?

Tudo indica que ela ainda iria longe, mas interrompeu-se com o tensionamento relâmpago que atravessou a sala – dentro do banheiro Alberto-de-bermuda tossia de forma assustadora. Uma garota, dois lugares à direita da bolsa da Isneide Roubou-meu-lugar, tomou a iniciativa – levantou-se e colou o ouvido à porta:

– Senhor, tudo bem? O senhor precisa de ajuda?

Uma mão bateu à porta, pelo lado de dentro. Eventualmente encontrou o trinco, e a porta se abriu; Alberto estava sentado na privada, vermelho-quase-roxo. Entre tosses e bocas escancaradas balbuciou: “asma”.

Uma senhora aparentemente escolada no quesito foi imediatamente à cadeira onde estava a bolsa de Alberto, abriu-a sem cerimônia e vasculhou até encontrar uma bombinha, que prontamente estendeu à menina-com-iniciativa.

O telefone tocou; “Consultório do doutor Cortázar”, disse Josilene, agora com tom estranhamente normal, quase robótico. “Não, ele não está, dona Cortázar, ainda não chegou. Quando ele chegar peço para ligar, ok?”.

 

Alberto, por fim, aceitou a água de minha garrafa. Logo surgiram algumas barras de cereais, o lanchinho da dona Lanchinho, duas latas de Coca-Cola pequenas, Tic-Tacs e uma barra de chocolate com avelã. Eu aceitei apenas alguns Tic-Tacs e um gole de Coca – achei que seria prudente priorizar os mais velhos e as crianças (não havia crianças, mas o princípio me pareceu válido e os velhos eram em muitos). Josilene, às dezoito horas e dois minutos, muniu-se de bolsa, celulares e sacola e despediu-se da faxineira (Marta, creio eu). Marta mostrou-se tão assustada e desconfortável no balcão que nós, náufragos da sala de espera, deixamo-la lá e focamos em nosso recursos de sobrevivência.

Curiosamente, cerca de quinze minutos após a saída de Josilene uma figura imensa adentrou a sala, rápido e firme.

– Josilene já foi? Ok. A lista de pacientes está aí? Ótimo. Senhor Bernardo, por favor.

Bernardo, pelo que supus, era o paciente das 13h. Em cerca de meia hora a sala de espera contava cinco pessoas; Alberto-de-bermuda demorou a responder ao chamado e foi pulado, creio que seria atendido ao fim do expediente.

Minha consulta durou cerca de cinco minutos. Tudo estava normal, aparentemente, e minhas dores não eram motivo de preocupação – “nada grave, não se preocupe com isso, algo mais te incomoda?”, o estetoscópio já estava a postos, minha pressão estava um pouco alterada, pelo visto, mas nada grave, 14 por 11, “o senhor esteve preocupado com alguma coisa recentemente, irritou-se, ingeriu muito sal…?”.

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2 comentários sobre “O consultório do dr. Cortázar

  1. Rafael Raicher

    Will, isso é porque vc não conheceu os corredores do consultório do Dr. Borges. Uma confusão só…rsss

    1. Will

      Hahaha, boa! E, como dizem: challenge accepted! Vou por na lista dos projetos-quem-sabe-um-dia, se um dia escrever algo inspirado nisso te marco!

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