Outro livro que não li

  ter o livro ao alcance das mãos, e ter o tempo de abri-lo, e querer abri-lo, e não abri-lo – pode?

  Eu quero ler; quero muito. Como pode?

  Já passei por isso antes, mas foi diferente. Há algum tempo apaixonei-me por um livro não lido. O livro tinha até uma versão existente: escrito por Inês Pedrosa, chamava-se Fazes-me falta.

  Era uma poesia, só que sem palavras. Era uma coisa linda, esse livro. E eu nunca o li, e nunca o lerei.

  Nesse caso é óbvio, não é uma boa ideia que leia Fazes-me falta por Inês Pedrosa, ainda que sinta uma infeliz curiosidade. Que bem me faria? Livros não escritos são invariavelmente melhores que os livros escritos, constrangidos que estão pelos limites da linguagem, do ato de leitura, do ato de escrita, da temporalidade e logicidade da consciência – nenhum desses males assola os livros não escritos. Há que se levar em conta ainda o desagradável hiato entre minha expectativa como leitor e a frágil obra editada e comercializada. O meu Fazes-me falta por Inês Pedrosa ainda tem a indiscutível vantagem de, dentro de mim, existir. Até existe, esse livro não lido!

  Agora tenho uma inconsistência toda nova. Trata-se de Os verbos auxiliares do coração, de Péter Ésterhazy. Primeiro me interessei, depois me contive, depois comprei o livro e tive-o comigo como se fosse um chocolate que eu guardasse só para ter o prazer de salivar um pouquinho.

  E agora eu poderia abri-lo e começar, começar a lê-lo ele mesmo – será que não quero?

  Essa coisa dos livros não lidos… Ah! A literatura ou me mata ou me dá mais, muito mais do que o que peço dela – e ela dá; sempre dá.

  Porque livro que se quer ler é semente, não se come, não perfuma, não apetece, e apesar de ser só semente é semente que de pensá-la frutifica na cabeça que a acolhe. Eu, de não ler os livros que com afinco não leio (grandes exemplos de hoje são o efêmero Os verbos auxiliares do coração e o clássico A ética protestante e o espírito do capitalismo, que eu espero não ler muitas vezes ainda, e de muitas formas, no futuro próximo; Dom Quixote é certamente o livro que mais e melhor não li e acho que não é por acaso). Pode-se querer ler um livro com tanto ardor – e isso descubro por agora – que se chega a não querer mais lê-lo.

  Mas isso depende, claro, do solo por onde o livro não lido repousa. A maioria das coisas que leio, confesso com tranquilidade, leio por compulsão, leio porque preciso; nesses muitos casos o bom de ler é ter acabado, ter-se entupido do livro comido às pressas, ter saudade de poder ter comido com mais vagar e saboreio, e não tê-lo feito é uma espécie de prazer perverso. Coisa boa, não o nego.

   Ultimamente, no entanto, tenho aproveitado muito esta coisa de não-ler livros. Comecei a fazê-lo quase por acidente, porque comprava livros aos baldes na Festa do Livro e acabava desapaixonando de um livro antes de poder tê-lo lido, por simples inépcia e falta de  management. Depois fui poder dar contorno e circunstância à coisa por ocasião de uma leitura acidental, A livraria de Nelson Bond; o conto, aparentemente despretensioso, trata de uma insólita livraria onde se expõem os livros não escritos acalentados por escritores, desde Shakespeare e Júlio Verne até o anônimo protagonista. Lido sem grande empenho, A livraria despertou em mim (por desvio, bem o sei) o interesse pela leitura de livros não escritos.

  Hoje… hoje faço-o como devoto. Os verbos auxiliares do coração, escrito por Péter Esterhazy, é o livro que estou não-lendo hoje, e recomendo a quem tiver oportunidade.

 

p.s.: acabarei lendo este mais cedo ou mais tarde; achei que devia contar.

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