Lembro de ter lido um trecho de uma entrevista do Contardo Calligaris em que ele dizia que frequentemente abandonava livros antes de terminar; segundo ele, o tempo de vida era curto, e havia muitas coisas interessantes a se ler, de forma que, se algo não capturava sua atenção, ele largava o livro e seguia para o próximo.
É uma posição clara e contundente (como era comum, da parte dele) diante de um assunto que me toca bastante. Afinal, eu, por muito tempo, praticamente me obriguei a terminar todo livro que começasse, mesmo que não estivesse gostando. Não sou mais tão inflexível (os maledicentes diriam neurótico) assim, mas continuo com a mesma inclinação – em geral, quando começo um livro, tendo a lê-lo todinho (quarta capa, agradecimentos e tudo).
Não é que não dê razão ao Calligaris: eu também quero ler muita coisa, e o tempo de vida me é escasso diante de tudo que eu gostaria de poder ler. Acontece que uma das coisas que mais me encanta na leitura é quando ela me surpreende – e isso, por definição, é algo que eu não posso prever se vai acontecer ou não. Assim, é comum que eu chegue numa altura em que o livro me interessa por um motivo absolutamente diferente daquele pelo qual eu peguei o livro para ler, pra começo de conversa. Ou então (e isso é bem comum) eu fico com uma passagem decisiva do livro para mim, que certamente não é uma passagem decisiva do livro em uma leitura estrutural ou sistemática.
Um exemplo simples e recorrente é uma passagem de “Planeta favela”, do Mike Davis, em que ele tira um sarro do tipo de análise social empreendida por teóricos sociais “de gabinete”, como Michael Hardt e Toni Negri. É uma passagem da reta final do livro, e é praticamente um deslize numa argumentação que passa por outros itinerários e interesses – mas foi algo formativo para mim, e ficou comigo, e é um dos motivos principais para eu ter gostado do livro do Mike Davis.
Pois bem: hoje fui agraciado com um desses momentos, que são de fato uma das coisas que mais valorizo na experiência de leitura, e a razão principal para eu ser um leitor que dificilmente abandona seus livros. Estava eu já na altura das páginas 400 e tralalá do livro “A cor da modernidade: a branquitude e a formação da identidade paulista”; a proposta do livro tem tudo a ver com minha pesquisa atual, e o estilo da autora me agrada bastante – mas é um livro que discorre longamente sobre os eventos de 1932 e 1954, assuntos que não me tocam muito nesse momento. E aí estava ali, lendo sobre os organizadores e patrocinadores e a mídia e os valores em torno da organização das festividades do IV Centenário de São Paulo, começando a me perguntar por que raios eu ainda estava lendo aquilo. E aí, olha que maravilha! Ela cita dois trechos de jornais da época que se referem às “sereias das fábricas”. Vejam só essa aqui, por exemplo:
Exatamente à meia-noite repicaram festivamente todos os sinos da cidade, enquanto se ouvia por toda a parte o som das sereias das fábricas, sinos espoucavam, as bizinas dos carros soavam ruidosamente, [segue longamente…].
Aí está: o livro é sobre a branquitude na formação da identidade paulista no século XX; o capítulo é sobre as comemorações do IV Centenário da cidade; o trecho estudava a repercussão da mídia. Tudo muito bem, tudo muito bom. Mas, cara… “sereias das fábricas” – que expressão fantástica! Me fez lembrar de “sirena”, uma expressão para sirene que significa “sereia”, e me fez perceber, então, que a “sirene” da fábrica é a “sereia” da fábrica.
Fantástico, não é? A sereia, como você (que me lê) deve saber, é essa figura mítica que [en]canta os navegantes, tragando-os para o fundo do mar. Até onde eu saiba, nada na mitologia exige que o famigerado “canto da sereia” seja agradável esteticamente de se ouvir – o lance é que ele é decisivo: a pessoa ouve e mergulha no mar, seguindo o chamado, e não volta.
Pensando nisso, achei incrível quando tomei contato com essa ideia segundo a qual a “sirene” das fábricas seria a “sereia”. Acho, inclusive, que é uma definição totalmente precisa: a pessoa é convocada pela sereia, salta fábrica adentro, e não é mais vista – é um caminho sem volta, como o [em]canto da sereia efetivamente é.
Fico inclusive pensando que, num sentido que talvez seja crucial, podemos considerar que as sereias das fábricas venceram, de forma que estamos, hoje, imersos no que quer que seja que elas fazem com aqueles que elas tragam, mar adentro, para que sejam definitivamente posses suas. Penso, por exemplo, em plataformas digitais como Instagram e TikTok: de uma certa forma, é uma espécie de piscina privativa das sereias, onde elas ficam jogando os trabalhadores de um lado para o outro, e os trabalhadores estão tão cativados pelo [em]canto da sereia que eles estão ali como se aquilo fosse quem eles são, como se eles estivessem, definitivamente, tolhidos de si. E assim, quando um Zuckerberg da vida decide mostrar os dentes agudos (que estavam ali o tempo todo), somos tomados por uma espécie de estranhamento – como se olhássemos em volta, para esse imenso tanque de criação de carne humana para a qual as sereias nos atraíram, e ficássemos tentando entender por que aquilo está acontecendo, e o que poderia acontecer de diferente.
E olhamos para a pocinha ao lado, onde outros tantos humanos se esbaldam com as sereias;
E olhamos para aquela outra pocinha, mais distante, onde talvez as sereias tenham dentes menos pontiagudos;
E, enquanto o estranhamento insiste, insiste também o [en]canto. De onde estamos, talvez seja difícil imaginar algum tipo de “saída”.
Conforme escrevo, percebo que isso tudo tem um contorno e um caráter meio desesperador. Fico imaginando um leitor que esperava algo mais leve se remexendo na poltrona (ou onde quer que esteja enquanto lê), pensando “mas que texto chato! Uma análise derrotista de uma conjuntura mal rascunhada, a que se chega como que por acaso, a partir de um devaneio meio despropositado sobre se devemos ou não seguir lendo livros que não nos interessam”. E eu entendo; de verdade, eu entendo. Mas, até onde me toca, esse texto não é sobre Zuckerberg, nem é sobre algum tipo de capitalismo tardio pós-moderno neoliberal etc etc etc. Pra mim, esse texto é sobre o ler – não porque o texto traz um argumento útil, ou porque ele conflui com nossos interesses, mas sim porque ele [en]canta. A gente pega um livro pra ler baseado em um interesse específico, e a gente tá lá imaginando um dado livro; aí a gente começa a ler e o livro imaginado vai mudando, e a nossa relação com o livro vai mudando.
A gente pode, é claro, ser fiel ao que a gente foi fazer lá, quando se pôs a ler – se eu vim aqui pra ler sobre “x”, e o livro não tá me trazendo “x”, eu vou-me embora em busca do próximo livro que me interessa; eu mesmo, eventualmente, faço isso. Mas de vez em quando, no contato com aquele livro que parece não ter nada a oferecer, em meio ao tédio e ao desinteresse, alguma coisa salta da página e nos captura – esse, pra mim, é todo o [en]canto da leitura.
