Dias oitavos

“Se você quer tanto escrever, por que não escreve?”.

Quem me perguntou isso foi o Gus, com quem morei numa república por memoráveis dois anos e meio da graduação. Eu vivia falando que precisava abrir espaço na agenda, porque fazia coisas demais etc., até que um dia ele se cansou da lenga lenga e soltou essa pergunta.

Foi importante, na época. Um pouco por insight, um pouco por despeito, eu comecei a escrever textos curtos, aqui e ali. Poucos – devem ter sido uns dez, no total. Tinha tido um momento “epifânico” desses durante a adolescência, respeitando a mesma estrutura: estive ali, mentalmente constipado, até que alguém interveio com a interpelação libertadora.

Nenhuma dessas duas, e nenhuma das levas seguintes de “espirros criativos” resolveu esse mal recorrente de constipação intelectual, de forma que, vira e mexe, me descubro travado de novo.

E não é por falta de ideias, ou tampouco por insegurança – o que parece me pegar é um problema de recorte, que por sua vez acho que deriva de uma espécie de insegurança narcísica supercompensada. O que quero dizer com isso é que eu acabo não escrevendo por não sentir “firmeza” suficiente em nenhum tema que me leve ao ponto de priorizar a escrita em detrimentos de outras coisas que poderia fazer (como, por exemplo, ler). Não é que eu tenha dificuldade de escrever, quando finalmente me ponho a escrever; também não é que eu sinta que o que tenciono escrever me pareça desimportante ou de pouco valor; é só que eu acabo querendo pensar a próxima coisa, ao invés de escrever essa que pensei, ou então fico querendo ler algo que alguém já escreveu e que quero ver por onde passa (e se me instiga a pensar outras coisas que eu posso querer escrever, além dessa que eu casualmente tenha comigo na ocasião).

Um tempo atrás, numa das tantas sessões de análise em que eu falava sobre isso, comentei que é como se eu precisasse de um oitavo dia, uma espécie de alçapão secreto escondido nalgum momento místico, ali na altura do crepúsculo do domingo, e nesse oitavo dia eu pudesse contar com um tempo que não é tempo, e portanto não é escasso, e ali eu escreveria em paz.

Como Amos Oz no deserto, talvez. Numa entrevista Amos Oz disse que, quando ia escrever, sentava em sua biblioteca, em sua casa às margens do deserto, desconectada todos os aparelhos, e restava ali, quanto tempo fosse necessário, até que, como ele disse, os pensamentos lhe viessem na voz dos personagens”.

A imagem me parece belíssima – inclusive o detalhe idílico da biblioteca às margens do deserto, super borgeana, elegantérrima. O ponto é que eu, em sendo eu, tenderia fortemente a não desconectar… afinal, tanto a biblioteca quanto o deserto, e eventualmente mesmo os aparelhos portam consigo seus encantos, de forma que eu acabo propenso a me manter nesse fio da navalha: um escritor bissexto, colecionando textos não escritos, levando sempre na peneira uma ideia aquosa que vá poder cultivar se eu, porventura, tropeçar nalguma raiz de árvore e cair, buraco de coelho adentro, num desses oitavos dias.

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