O quartão

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A memória tem seus caprichos: eu não lembro bem o que almocei quinta-feira, mas lembro vivamente que meu avô morava na Rua Luís Pinto Fláquer, número 123 (é fantástico que um avô more no número 123). Se existisse CEP na minha infância acho que que saberia até hoje.

Lembro que íamos para lá na Parati imensa da minha mãe, BJI-7335. Lembro que assistimos O pequeno Polegar – talvez só tenhamos assistido uma vez, mas na minha cabeça assistíamos todo dia, ininterruptamente. Na minha infância não tinha CEP, mas também não mantínhamos contagem muito precisa das coisas – se aconteceu uma vez, aconteceu sempre, acontece sempre.

Lembro de dias – esses eram especiais – em que depois do almoço abriam uma caixa de chocolates para “as crianças”; o Dudu escolhia primeiro, e o resto depois se virava. Eu mesmo me virei como podia, ficando por último e aprendendo a gostar daqueles de banana e de pé-de-moleque que eram os que me cabiam depois que todo mundo tinha escolhido.

Depois que o Dudu comia o chocolate que ele tinha escolhido e eu o que me competia íamos ao quartão, onde transcorriam as grandes partidas: fazíamos uma bola de meia que era a bola do campeonato, empilhávamos colchões para que o goleiro pudesse trabalhar com convicção e começava a partida. O Dudu era o Zetti, fazia defezaças, dava saltos acrobáticos; eu era o Camanducaia, tinha inúmeras oportunidades de ouro para dar o chute definitivo que decidiria o campeonato. Acho que a maioria das vezes, na verdade, eu jogava a bola com a mão – não por gostar de handball, que na época não sabia que existia, mas porque o ponto alto da partida era mesmo o pulo de gato do Zetti.

Mais tarde voltaríamos ao quartão e aos colchões, não só eu e o Dudu, mas a tia Lola, os outros filhos dela, a tia Joaninha, um monte de gente. Não sei quantas vezes isso aconteceu do ponto de vista das outras pessoas – o que eu lembro bem é que acontecia sempre, acontece ainda hoje.

A tia Joaninha era engraçada, falava em peido e arroto na frente das crianças, era algo incrível; não é de surpreender que ela tenha surpreendido também os médicos depois, insistindo em viver quando os médicos não encontravam nas chapas e exames razão para isso – tia Joaninha, pelo que sei, sempre foi avessa às convenções, mesmo aquelas que dizem respeito à hora de morrer. Quando estávamos todos ali no quartão, onde dormiríamos, eu ria até doer a barriga ao sabor das asneiras da tia Joaninha – aí, é claro, não tinha vontade nenhuma de dormir. Mas eventualmente chegava a hora, o assunto escasseava, baixava sobre o quarto o ar de dormir, e eu ficava inquieto – se bobear eu tinha medo, não sei. Sei que procurava saída, e encontrava, genialmente: “eu quero leite”. Fantástico, a bola do campeonato: quem vai negar um copo de leite a uma criança à hora de dormir? É a criança-modelo da televisão encarnada, plano infalível.

A resposta vinha retumbante: “deita já!”. Nada de leite, e ainda por cima bronca: Camanducaia chuta a bola pra fora, a bola de meia cai do quartão láááá em baixo, no quintal, Zetti fica com preguiça e decide assistir televisão: fim de campeonato.

Camanducaia nunca ganhou mesmo campeonato – mas era um ídolo, era o melhor jogador do mundo. Descobri agora, graças ao Google, que ele hoje em dia é dono de uma pousada em Monte Verde e uma escolinha de futebol na gloriosa cidade de Camanducaia. A tia Joaninha, depois de convencer a mim e possivelmente a alguns médicos que não morreria nunca, decidiu que calhava morrer – a gente cresce, peidar e arrotar deixa de ser subversivo, e a gente tem que inventar novos meios de ser quem se é.

Eu não lembro quantas vezes dormimos todos no quartão – pra ser bem sincero nem lembro bem quem éramos, nós todos. Até onde sei dormíamos todos lá, e quando nos vemos estamos todos lá ainda hoje – falando besteira, dando risada, fazendo justiças e injustiças, assistindo televisão, falando mal dos outros, sendo todos e sendo nós mesmos.

A memória tem seus caprichos. Mas eu também tenho os meus: de vez em quando dobro e estico minhas memórias como o mágico dobra e estica bexigas fazendo poodles e espadas – dobro e estico minhas memórias e de repente estou lá, no quartão, com meus amigos, minha família, meu avô, brinco com meus cavaleiros do zodíaco e como um chocolate de banana.

Pronto, decidi: foi isso que almocei quinta-feira.

 

 

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